O Sacerdócio Real dos Santos

Sermão nº 10

Ministrado na manhã do domingo de 28 de janeiro de 1855 pelo Rev. Charles H. Spurgeon na Capela da New Park Street, Southwark, Londres, Inglaterra.


“Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra.” Apocalipse 5:10 (NVI)
MÚSICA é uma coisa fascinante. Sei que a música sacra é, pois sinto seu encanto ao entoar este hino maravilhoso. Há uma força na harmonia, um poder mágico na melodia que, ou consomem a alma em contrição ou a enlevam em indizível alegria. Não sei como é com outras pessoas; talvez consigam resistir à influência da música; mas eu não consigo. Quando os santos de Deus, em coro, “entoam a melodia solene” e, quando ouço as doces sílabas brotando dos seus lábios, com ritmo e compasso, sinto-me cheio de júbilo; e, esquecendo-me por um momento das coisas terrenas, pairo no ar em direção ao céu. Se tal é a doçura da música dos santos aqui embaixo, onde há tanta discórdia e pecado para estragar a harmonia, quão doce deve ser o cântico lá de cima, junto com os querubins e serafins. Ah, que canções devem ser aquelas ouvidas pelo Eterno do Seu trono! Quão sublimes devem ser os sonetos que vibram dos lábios dos seres puros e imortais, sem a mácula do pecado, sem a mistura de gemidos: onde gorjeiam hinos de júbilo e alegria, sem a presença de um único suspiro ou gemido ou cuidado mundano. Ah, músicos benditos! Quando irei me juntar a esse coro? Há um hino que diz ━
Ouçam como cantam diante do trono!
e, por vezes, penso poder “ouvir como eles cantam diante do trono”. Fico imaginando o som crescente da melodia do coro, retumbando dos céus como trovão e o som de muitas águas, e quase ouço as notas afinadíssimas, quando os músicos dedilham suas harpas diante do trono de Deus. Ah, mas que pena, era só a minha imaginação. Não podemos ouvi-los agora; estes ouvidos não são adequados para esse tipo de música; se pudéssemos ouvir o som das harpas dos anjos, nossa alma não poderia ser contida em nosso corpo. Temos de esperar até estarmos lá em cima. E, então, purificados, como prata depurada sete vezes, das imundícies terrenas, lavados no precioso sangue do Salvador, santificados pela ação purificadora do Espírito Santo ━
“Todos nós, inculpáveis e perfeitos
Com maravilhosa e divina alegria,
Ante o trono do Pai estaremos”.
“E, no ressoar das mansões celestes
Pelo fragor da divina soberania,
Mais alto que a multidão cantaremos”.
          Nosso amigo João, o mui favorecido apóstolo do Apocalipse, nos deu apenas uma nota da canção do céu; tocaremos essa nota e ela soará repetidamente. Farei vibrar esse diapasão do céu e seus ouvidos ouvirão o tom. “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra”. Que o grande e gracioso Espírito, o qual é a única luz nas trevas, ilumine a minha mente enquanto tento, de forma breve e sucinta, falar sobre esse texto. Vejo três coisas nele: primeiro, os feitos do Redentor ━  “os constituíste”; segundo, as glórias dos santos ━ “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”; terceiro, o futuro do mundo ━ “e eles reinarão sobre a terra”.
            I. Em primeiro lugar, então, temos OS FEITOS DO REDENTOR. Aqueles que estão diante do trono cantam sobre o Cordeiro ━ o Leão da Tribo de Judá, que abriu o livro e desatou os selos ━ “Tu nos constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”. No céu eles não cantam
“Glória, honra, louvor e poder
Sejam a nós para sempre
Pois somos os nossos próprios Redentores ━ Aleluia!”
Eles não louvam a si mesmos; não glorificam a sua própria força; não falam do seu livre-arbítrio e dos seus feitos; eles atribuem a sua salvação, do início ao fim, a Deus. Perguntem-lhes como foram salvos e eles dirão: “Foi  o Cordeiro quem nos tornou o que somos”. Perguntem-lhes de onde vieram suas glórias, e eles falarão: “Elas nos foram dadas por herança pelo Cordeiro que foi morto”. Perguntem-lhes como conseguiram o ouro das suas harpas, e eles contarão: “Foi extraído por Jesus nas minas de agonia e amargura”. Perguntem quem colocou as cordas em suas harpas e eles afirmarão que Jesus usou cada tendão do Seu próprio corpo para fazê-las.  Perguntem-lhes onde lavaram e alvejaram suas vestes, e eles responderão ━
“Naquela fonte cheia do sangue
Derramado das veias do Emanuel”
Algumas pessoas aqui na terra não sabem onde colocar a coroa; mas as do céu sabem. Eles colocam o diadema na cabeça certa; e cantam ━ “Foi Ele quem nos tornou o que somos”.
Bem, amados, não conviria fazer uma observação neste ponto? Pois, “o que temos que não tenhamos recebido”? Quem nos tornou diferentes? Sei que sou um homem justificado; tenho plena certeza disso
“Os terrores da lei e de Deus,
Nada me podem fazer;
Pelo sangue e obediência do meu Salvador
Todas as minhas transgressões foram ocultas”.
Não há pecado contra mim no livro de Deus; todos foram apagados pelo sangue de Cristo; e cancelados pela Sua própria mão. Nada tenho a temer; não posso ser condenado. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus”? Deus não, pois é Ele quem justifica; nem Cristo; pois foi Ele quem morreu. No entanto, se sou justificado, quem me tornou assim? Eu digo ━ “Ele me tornou o que sou”. A justificação, do início ao fim, é de Deus. A salvação vem de Deus somente.
Muitas pessoas aqui são santificadas, mas não totalmente, ainda não foram completamente libertas da sujeira da terra; ainda têm outra lei em seus membros lutando contra a lei da mente; e ainda terão essa lei enquanto forem tabernáculos da fé; não serão perfeitas em sua santificação até estarem lá, diante do trono santo de Deus, onde até mesmo essa imperfeição da alma será tirada, e a depravação carnal, desarraigada. No entanto, amados, há um caráter interior que lhes foi dado; vocês estão crescendo na graça ━ estão progredindo em santidade. Bem, mas quem os fez ter esse progresso? Quem os libertou dessa concupiscência? Quem os resgatou desse vício? Quem os fez dizer adeus às práticas em que estavam mergulhados? Vocês ainda não podem dizer: “Jesus nos fez”! Mas foi Cristo quem fez tudo; ao Seu nome seja a honra, a glória, o louvor e o domínio.
Vamos nos deter por alguns momentos nesta ideia e mostrar como se pode dizer que foi Jesus quem nos tornou assim. Quando foi que Cristo constituiu Seu povo como reis e sacerdotes? Quando se pôde dizer: “e nos constituiu reis e sacerdotes para o nosso Deus”?

  1. Antes de qualquer outra coisa, Ele, praticamente, nos constituiu reis e sacerdotes quando assinou o pacto da graça. Há muito, muito tempo, lá na eternidade, foi escrita pela mão de Deus, a Carta Magna dos santos, e era preciso uma assinatura para validá-la. Havia uma cláusula nesse pacto, a de que o Mediador deveria se encarnar, viver uma vida de sofrimento e, por fim, suportar uma morte de ignomínia; e era preciso uma única assinatura, a assinatura do Filho de Deus, para validar essa aliança, eterna e “em tudo bem definida e segura”. Parece-me até que O vejo neste momento, conforme minha mente imagina o glorioso Filho Deus segurando a pena. Vejam como Seus dedos escrevem o nome; e lá está, em letras eternas━ “O FILHO”! A sagrada ratificação do pacto, o qual é selado e lacrado com o poderoso sinete do Pai celeste. Ó gloriosa aliança, para sempre segura! No momento da assinatura desse magnífico documento, os espíritos diante do trono ━ quero dizer, os anjos ━ talvez tenham retomado o cântico e dito dos eleitos: “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”; e se toda a companhia dos eleitos já tivesse vindo à existência, poderia aplaudir e cantar: “Eis-nos aqui, pois essa assinatura nos constituiu reis e sacerdotes para o nosso Deus”.
  2. Mas Ele não parou por aí. Ele não concordou simplesmente com os termos do pacto; no devido tempo, Ele o satisfez completamente ━ sim, o pacto foi cumprido até o último pingo no i. Jesus disse: “Tomarei o cálice da salvação”; e Ele tomou ━ o cálice da nossa libertação. Suas gotas eram amargas; no fundo havia fel, e na mistura vermelha, havia gemidos, suspiros e lágrimas; mas Ele tomou tudo, cada gole intragável, até a última gota. Tudo se foi. Ele bebeu o cálice da salvação e comeu o pão de aflição. Vejam-nO, enquanto Ele bebe o cálice no Getsêmani, quando o líquido se mistura ao Seu sangue e torna cada gota um veneno cáustico. Vejam como os pés tórridos da dor percorrem Suas veias. Observem como cada nervo é torcido e retorcido em Sua agonia. Reparem na Sua fronte coberta de suor; reparem nas agonias que se seguem nas profundezas da Sua alma. Que os perdidos falem e digam como é o tormento do inferno, mas eles não podem contar como foram os tormentos do Getsêmani. Oh, aquele abismo indescritível! Abriu-se um grande abismo quando o Redentor inclinou a cabeça, quando Se colocou entre a mó superior e a mó inferior da vingança do Pai, e quando Sua alma inteira foi reduzida a pó. Ah! a luta do Homem-Deus ━ o Homem sofredor do Getsêmani! Chorem por Ele, santos ━ chorem por Ele; quando O virem Se erguer no jardim de oração e marchar para a cruz; quando pensarem nEle pendurado no madeiro durante quatro longas horas sob o sol escaldante, oprimido pela ira do Pai ━ quando virem o sangue brotando do Seu lado ━ quando ouvirem o grito de morte: “está consumado!” ━ e quando virem Seus lábios ressecados serem umedecidos somente com fel e vinagre ━ ah! então, prostrem-se diante dessa cruz, curvem-se diante desse sofrimento e digam: “Tu nos fizeste ━ tu nos fizeste como somos; nada somos sem Ti”. A cruz de Jesus é o fundamento da glória dos santos; o Calvário é a terra natal do céu; o céu tem seu berço na manjedoura de Belém; não fossem os sofrimentos e as agonias do Gólgota, jamais teríamos sequer uma bênção. Ah, santos! em cada misericórdia, vejam o sangue do Salvador; olhem para este Livro ━ está respingado com Seu sangue; olhem para esta casa de oração ━ é santificada pelos Seus sofrimentos; olhem para o alimento diário ━ é comprado com Seus gemidos. Que cada misericórdia seja recebida por vocês como um tesouro comprado com sangue; valorizem-no, pois esse sangue vem Dele, e digam sempre: “Tu nos fizeste como somos”.
  3. Amados, nosso Salvador Jesus Cristo completou a grande obra de nos tornar o que somos quando foi assunto ao céu. Se Ele não tivesse subido às alturas e levado cativo o cativeiro, Sua morte teria sido insuficiente. Ele “morreu por causa das nossas transgressões”, mas “ressuscitou por causa da nossa justificação”. A ressurreição do nosso Salvador, em Sua majestade, quando Ele rompeu os grilhões da morte, foi para nós a garantia de que Deus tinha aceitado o Seu sacrifício; e Sua ascenção às alturas foi um tipo e uma figura da verdadeira e real ascenção dos santos, quando Ele vier nas nuvens do julgamento e chamar para Si o Seu povo. Observem o Homem-Deus enquanto Ele sobe para o céu; vejam Sua marcha triunfal no firmamento, enquanto as estrelas O louvam e os planetas dançam em ordem solene; vejam-nO atravessar os territórios desconhecidos do éter até chegar ao sétimo céu, ao trono de Deus; então, ouçam-nO dizer ao Pai: “Já terminei a obra que Me confiaste; aqui estou e os filhos que Me deste; combati o bom combate; completei minha carreira; fiz tudo; cumpri todos os tipos; cumpri todos os itens da aliança; não há um til que eu não tenha realizado, nada foi deixado de fora, tudo está feito”. Enquanto Ele fala, ouçam como eles cantam diante do trono de Deus: “Tu nos constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus: e nós reinaremos sobre a terra”.

Assim, fiz uma breve exposição dos preciosos feitos do Redentor. Lábios impuros não podem se expressar de forma mais elevada; um coração fraco não está à altura desse grandioso tema. Ah, se estes lábios tivessem eloquência e grandiosidade, poderiam falar muito mais dos extraordinários feitos do nosso Redentor.
“Coroai-O! Coroai-O!
Coroas caem bem na fronte do Salvador”.
        II. Agora, em segundo lugar, AS GLÓRIAS DOS SANTOS: “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”. Os monarcas mais ilustres eram aqueles considerados não só com direito real, mas também com direito ao sumo sacerdócio ━ aqueles reis que poderiam usar tanto a coroa da lealdade como a mitra do sacerdócio, que poderiam segurar tanto o incensário quanto o cetro ━ que poderiam oferecer intercessão pelo povo e governar as nações. Quem é rei e sacerdote é realmente extraordinário; e é assim com o santo honrado, ele não tem somente um dos títulos, ou um dos ofícios, ele tem os dois. Ele não foi constituído somente rei, mas rei e sacerdote; não somente sacerdote, mas sacerdote e rei. O santo tem os dois ofícios conferidos a ele ao mesmo tempo; ele é constituído monarca sacerdotal e sacerdote real.
Falarei primeiro do ofício real dos santos. Eles são REIS. Eles não se tornarão reis lá no céu, eles são reis aqui na terra; pois se o meu texto não diz isso, em outra passagem a Bíblia declara: “sois raça eleita, sacerdócio real”. Nós somos reis. Gostaria que entendessem esse ponto antes de explicar essa ideia. Todo santo do Deus vivo não tem apenas a perspectiva de se tornar rei lá no céu, mas, à vista de Deus, ele já é rei, e deve dizer, em relação a seus irmãos e a si mesmo: Ele “nos constituiu reino e sacerdotes para o nosso Deus; e nós reinaremos sobre a terra”. O cristão é rei. Ele não é semelhante a um rei, ele é rei, de fato e de verdade. Entretanto, tentarei lhes mostrar como ele é rei.
Lembrem-se da sua ascendência real. É incrível como algumas pessoas dão importância aos avós e a outros antepassados distantes. Lembro-me de que no Trinity College, a genealogia de um grande aristocrata ia até Adão, e Adão estava lá, arando o solo ━ o primeiro homem. A descendência era traçada até ele. É claro que não acredito nisso. Já ouvi falar de linhagens que remontam a um passado bem distante. Deixo a critério de vocês, acreditar nisso ou não. Uma linhagem com duques, marqueses, reis e príncipes. Ah, o que algumas pessoas não dariam por uma dinastia dessas! Creio, no entanto, não serem os nossos antepassados, mas nós mesmos o que nos fará brilhar diante de Deus; e não é por saber que temos sangue real ou sacerdotal nas veias, mas por saber que somos uma honra para a nossa raça ━ por andarmos nos caminhos do Senhor e honrarmos Sua igreja e a graça que nos torna dignos de honra. Contudo, como alguns homens se gloriam na sua descendência, eu me gloriarei no fato de os santos terem o antepassado mais magnífico do mundo. Sejam Césares, Alexandres ou mesmo a nossa amada Rainha ━ eu digo que tenho uma linhagem tão nobre quanto a de Sua Majestade, ou do monarca mais imponente deste mundo. Sou descendente do Rei dos reis. O santo pode falar da sua linhagem ━ pode exultar nela, pode se gloriar nela ━ pois ele é filho de Deus, de fato e de verdade. Sua mãe, a igreja, é a noiva de Jesus; ele é um filho do céu nascido de novo: alguém com sangue real do universo. Mesmo a mulher ou homem mais pobre da terra, quando ama a Cristo, é descendente real. Quem tem a graça de Deus no coração tem nobre ascendência. Posso retroceder na minha genealogia e lhe dizer que ela é tão antiga que não tem começo; é mais antiga que todos os registros de homens poderosos juntos, pois meu Pai existe desde a eternidade: portanto, eu realmente tenho direito real e ascendência ancestral.
Por outro lado, os santos, como monarcas, têm uma esplêndida comitiva. Reis e monarcas não podem viajar sem um pouco de pompa. Antigamente, os cortejos eram muito mais suntuosos do que são agora; mas ainda hoje vemos muito esplendor quando a realeza aparece em público. É preciso um tipo especial de cavalo, uma carruagem esplêndida e cavaleiros, com todos os detalhes de grande pompa. Ah, sim, os reis de Deus, aqueles a quem Jesus constituiu reis e sacerdotes para Deus, também têm uma comitiva real. “Oh!”, diz você, “mas vejo alguns deles em andrajos, andando por aí sozinhos, às vezes sem amigos ou alguém para ajudá-los”. Bem, há algum problema com a sua visão. Se tivesse olhos para ver, iria perceber que há uma multidão de anjos sempre guardando cada membro da família comprada pelo sangue. Lembra-se do servo de Elias, que não conseguia divisar o que estava à volta do seu mestre até este lhe abrir os olhos? Só então ele passou a ver os carros e cavalos em torno de Elias. Veja, há cavalos e carros ao meu redor. E, tu, santo do Senhor, aonde quer que estejas, também há cavalos e carros ao teu redor. Naquele quarto, onde nasci, havia anjos para anunciar o meu nascimento nas alturas. Nos mares da tribulação, quando ondas e mais ondas parecem querer me encobrir, os anjos estão lá para levantar minha cabeça; quando eu morrer, quando os amigos enlutados estiverem, chorando, carregando-me para o túmulo, os anjos estarão ao lado do meu caixão e, quando eu for colocado na sepultura, um anjo poderoso ficará e guardará meus restos mortais, e contenderá com o diabo pelo meu corpo. Por que preciso temer? Tenho comigo a companhia dos anjos; e aonde quer que eu vá, magníficos querubins irão à minha frente. Os homens não podem vê-los, mas eu posso, pois “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem”. Nós temos uma comitiva real: somos reis, não só por ascendência, mas também pela nossa comitiva”.
Agora, observem os símbolos e os privilégios dos santos. Reis e príncipes têm certas coisas que, por prerrogativa, são suas. Por exemplo, Sua Majestade, a Rainha da Inglaterra, tem o Palácio de Buckingham, outros palácios, a coroa, o cetro e assim por diante. Mas será que o santo tem um palácio? Tem sim. Eu tenho um palácio! E suas paredes não são de mármore, são de ouro; suas muralhas são de carbúnculos e pedras preciosas; seus baluartes são de rubis; suas pedras são assentadas com argamassa colorida; e ao redor dele há uma profusão de coisas valiosas; os rubis cintilam aqui e ali; sim, as pérolas são as pedras mais comuns em seu interior. Alguns o chamam de mansão; mas também posso chamá-lo de palácio, pois sou um rei. É uma mansão quando olho para Deus, e é um palácio quando olho para os homens; pois é a morada de um príncipe. Observe onde fica este palácio. Não sou um príncipe das Índias ━ não tenho herança em qualquer lugar longínquo imaginado pelos homens ━ não tenho o Eldorado, nem o reino do Preste João; mas ainda tenho o palácio mais importante. Ele fica lá longe, nas colinas do céu; não sei sua posição entre as outras mansões celestiais, mas ele está lá; e eu “sei que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus”.
Será que os cristãos também têm uma coroa? Oh, sim, eles têm; mas não a usam todos os dias. Eles têm uma coroa, mas o dia da sua coroação ainda não chegou. Eles já foram ungidos monarcas, e também já têm certa autoridade e dignidade de monarcas, mas ainda não foram coroados. No entanto, a coroa já está pronta. Deus não tem de mandar os ourives do céu fazê-la; ela já foi feita e está guardada na glória. Deus “guarda para mim a coroa de justiça”. Ah, santo, se pudesses abrir uma porta secreta no céu e entrar na câmara dos tesouros, verias como ela está cheia de coroas. Quando Cortes entrou no palácio de Montezuma, encontrou uma câmara secreta atrás de uma parede, na qual supôs estivesse toda riqueza do mundo, tantas coisas diferentes se encontravam nela. Se você pudesse entrar na casa do tesouro secreta de Deus, quanta riqueza não veria! E perguntaria: “Será que há tantos reis, tantas coroas, tantos príncipes”? Sim, há, e um anjo brilhante lhe diria: “Vê esta coroa? É sua”. E se olhasse na parte interna, você leria: “Feita para um pecador salvo pela graça, cujo nome é…”, e então, mal acreditaria em seus olhos quando visse seu próprio nome gravado nela. Você realmente é rei diante de Deus, pois tem uma coroa guardada no céu. Os santos terão quaisquer símbolos pertencentes a um monarca. Terão mantos brancos; terão harpas de glória; e todas as coisas que fazem a sua realeza; de modo que somos realmente reis; não monarcas de brincadeira, vestidos com mantos púrpura de escárnio e zombaria, saudados com “Salve, rei dos judeus!”, mas monarcas de verdade. “Para o nosso Deus nos constituíste reino e sacerdotes”.
Há ainda outra ideia. Os reis são considerados os mais dignos de honra entre os homens. Eles são sempre admirados e respeitados. Se você disser: “um monarca está aqui”, a multidão abre caminho. Eu mesmo não imponho muito respeito se tentar passar pelo meio de uma multidão; mas, se alguém gritar: “aí vem a Rainha!”, todos se afastam e lhe dão passagem. Um monarca geralmente impõe respeito. Ah, queridos, para nós, os príncipes terrenos são os homens mais dignos do mundo; no entanto, se perguntássemos para Deus, Ele diria: “os meus santos, nos quais me comprazo, estes são os mais dignos de honra”. Não me falem de bijuterias e badulaques; nem de ouro e prata; ou de pérolas e diamantes; não me falem de ancestrais e classes sociais; nem preguem sobre luxo e poder; mas me falem de alguém que é santo do Senhor, e eis aí uma pessoa digna de honra. Deus o respeita, os anjos o respeitam, e o universo um dia também irá respeitá-lo, quando Cristo vier chamá-lo para prestar contas e lhe disser: “Muito bem, servo bom e fiel; entra no gozo do teu senhor”. Talvez você, pecador, despreze um filho de Deus; talvez ria dele; talvez diga que é hipócrita; talvez o chame de santarrão, fanático, beato ou qualquer outra coisa, mas saiba que esses títulos não irão macular sua dignidade ━ ele é a pessoa mais digna da terra, e Deus o considera como tal.
No entanto, algumas pessoas irão dizer: “Gostaria que você pudesse provar a afirmação de que os santos são reis; pois, se fôssemos reis não teríamos tristezas; os reis não são pobres como nós, nem sofrem como nós”. Quem lhe disse isso? Quer dizer que, se fôssemos reis, a vida seria mais fácil? Então os reis não sofrem? Davi não era um rei ungido? E não foi caçado como uma perdiz pelas montanhas? O próprio rei não atravessou chorando o ribeiro de Cedrom, assim como seus companheiros, quando era perseguido por seu filho Absalão? E ele já não era monarca, quando dormiu no chão frio, sem ter onde deitar a não ser a relva úmida? Oh, sim, os reis também sofrem ━ cabeças coroadas também têm aflições. Pois, “que pesada sempre se encontra a fronte coroada!”(1).
Não espere que, por ser rei, você não tenha tristezas. “Não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte”. E é quase sempre assim. Aqui, neste mundo, os santos bebem pouco vinho. Não é próprio dos reis beber o vinho do prazer; não é próprio dos reis embriagar-se e fartar-se das delícias deste mundo. Eles terão alegria suficiente no além, quando o beberão, novo, no reino do Pai. Pobre santo! Pensa nisso. Tu és rei! Eu te rogo, não permitas que isso saia da tua mente; mas, em meio às tuas tribulações, regozija-te nisso. Se tiveres de atravessar o escuro túnel da infâmia, pelo nome de Cristo; se fores ridicularizado e desprezado, regozija-te nisto: “Eu sou rei e todos os domínios da terra serão meus!”
Um último pensamento e fecho este ponto. Os reis têm domínios. Sabem que sou um homem da quinta monarquia? Na época de Cromwell, diziam ter havido quatro monarquias e que uma quinta viria e destruiria todas as outras. Bem, não desejo falar como eles; mas, como eles, creio na vinda de uma quinta monarquia. Até agora houve grandes impérios reclamando o domínio universal, e não haverá outro governo mundial até a volta de Cristo. Jesus, nosso Senhor, será o Rei de toda a terra e governará todas as nações de forma espiritual ou pessoal. Os santos, sendo reis em Cristo, têm direito ao mundo inteiro. Eis-me aqui, nesta manhã, e minha congregação diante de mim. Alguns dizem: “fique onde está e pregue”, e tenho ouvido este conselho, “não saia da sua congregação”. Roland Hill costumava dizer que nunca saiu da sua paróquia; sua paróquia era a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales, e ele nunca a deixou. Suponho que esta seja a minha congregação e de cada ministro do evangelho. Quando virmos uma cidade cheia de pecado e iniquidade, o que devemos fazer? Ela é nossa, devemos ir até lá e avançar contra ela. Quando virmos uma rua ou lugar cheio de gente, onde as pessoas são de má índole, devemos dizer: “Este beco é nosso, vamos até e o tomemos”. Quando virmos uma casa onde as pessoas não receberão o evangelho, devemos dizer: “É a nossa casa, vamos até lá e invistamos contra ela”. Não iremos com o braço forte da lei, nem chamaremos a polícia ou o governo para nos ajudar; mas levaremos conosco “as armas da nossa milícia”, as quais “não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas”. Nós iremos e, pelo Espírito de Deus, venceremos. Se há uma cidade onde as crianças correm pelas ruas, sem educação; nós iremos até lá e pegaremos essas crianças ━ vamos sequestrá-las para Cristo. Teremos uma escola dominical. Se forem crianças pobres que não podem vir à escola dominical, faremos uma escola simples, sem luxo. Nos lugares do mundo onde as pessoas estão mergulhadas na ignorância e na superstição: mandemos missionários para lá. Ah, quem não gosta de missões não conhece a dignidade dos santos. Vejam a Índia, vejam a China. “São nossas”, dizem os santos. Todos os reinos da terra são nossos. “A África é minha bacia de lavar ━ vou conquistar a Ásia. Elas são minhas! Minhas”! “Quem me conduzirá à cidade fortificada”? Não és Tu, Senhor? Deus nos dará o reino de Cristo. O mundo inteiro é nosso; e, pelo poder do Espírito Santo, Baal se dobrará, Nebo se curvará e os deuses dos ímpios, Buda e Brahma, serão subjugados, e todas as nações se dobrarão diante do cetro de Cristo. “Ele nos constituiu reis”.
O segundo ponto, sobre o qual serei muito breve, é: “Tu os constituíste reino e SACERDOTES”. Os santos não são apenas reis, são também sacerdotes. Vou direto ao ponto, sem nenhum prefácio.
Somos sacerdotes, pois os sacerdotes são pessoas divinamente escolhidas, e nós somos. “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”. E nós temos esse chamado e eleição; todos fomos ordenados desde a fundação do mundo. Fomos predestinados para sermos sacerdotes e, no devido tempo, recebemos o chamado especial e eficaz, ao qual não pudemos resistir, e não resistimos, o qual enfim nos conquistou e nos tornou, imediatamente, sacerdotes de Deus. Somos sacerdotes, divinamente constituídos. Quando dizemos isso, não falamos como algumas pessoas, as quais se dizem sacerdotes com o desejo de arrogar para si preeminência. Sempre me oponho ━ preciso deixar isso bem claro ━ a chamar um clérigo, ou qualquer outro pregador, de sacerdote. Não somos melhores do que ninguém. Todos são sacerdotes. Pois, se alguém chegar e disser que é sacerdote, superior àqueles a quem prega ━ isso é falsidade. Detesto a distinção entre clérigos e leigos. Gosto do tipo de sacerdócio bíblico, pois é o ofício ou trabalho do povo, onde todos são sacerdotes; mas abomino os outros tipos. Cada santo do Senhor é um sacerdote no altar de Deus e pode adorá-lO com o incenso da oração e do louvor. Nós somos sacerdotes, cada um de nós, se somos chamados pela graça divina; pois assim somos sacerdotes por divina constituição.
A seguir, somos sacerdotes porque podemos desfrutar das honras divinas. Ninguém, exceto um sacerdote, poderia adentrar ao véu; havia um pátio dos sacerdotes onde ninguém podia entrar, a não ser os chamados. Os sacerdotes tinham certos direitos e privilégios que outras pessoas não tinham. Santo de Jesus. Herdeiro do céu! Tu tens altos e honrosos privilégios, os quais as pessoas do mundo não têm! Porventura, já estiveste dentro do véu em comunhão com Cristo? Já estiveste no átrio da casa do Senhor, o pátio dos sacerdotes, onde Ele tem ensina e Se manifesta a ti? Já? Sim, tu sabes que já; tu desfrutas de constante acesso ao trono de Deus; tens direito de ir lá e dizer tuas mágoas e tristezas nos ouvidos do Senhor. Os desventurados deste mundo não podem ir até lá; os pobres filhos da ira não têm Deus para contar seus problemas. Eles não podem adentrar ao véu; e nem querem entrar: mas tu podes; tu podes se aproximar do ouvido de Deus, balançar o incensário diante do trono e fazer tua petição em nome de Jesus. Outras pessoas não têm tais honras divinas. Tu és divinamente honrado e divinamente abençoado.
          E, para encerrar este ponto, uma última observação: temos um serviço divino a realizar; quero que todos vocês, nesta manhã, pensem nesta capela como um grande altar ━  e, enquanto os torno sacerdotes em exercício e este lugar um templo para sacrifícios ━ observem cuidadosamente o seu ofício. Todos são sacerdotes, pois amam o doce nome do Senhor e têm um grande sacrifício a realizar; não uma propiciação pelos seus pecados, pois isso já foi feito de uma vez por todas, mas um sacrifício de ações de graça. Oh, como é doce aos ouvidos do Senhor as orações do Seu povo! Este é o sacrifício que Ele aceita; e quando os santos hinos sobem em direção ao céu, como são aprazíveis aos Seus ouvidos; pois assim Ele pode dizer: “Meus sacerdotes fazem sacrifícios de louvor”. Mas, vocês sabem, amados, que há uma coisa na qual a maioria de nós tem falhado em nossas oblações diante de Deus? Nós oferecemos as nossas orações e apresentamos o nosso louvor, mas quase não oferecemos os nossos bens para Deus! Hoje cedo, vendo como fazer para torná-los mais liberais, pensei neste texto: “Honra ao SENHOR com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda; e se encherão fartamente os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares”; pensei em lhes mostrar que os nossos bens são do Senhor, que é nosso dever tributar-Lhe uma pequena parte deles e, assim fazendo, poderíamos esperar ter sucesso até nos negócios deste mundo, pois Ele encheria os nossos celeiros e faria transbordar de vinhos os nossos lagares. No entanto, acho desnecessário pregar um sermão sobre coleta ━ é melhor falar sobre a honra e a dignidade do ofertante, pois, assim, vocês podem dar o quanto quiserem, pois o único livre-arbítrio que eu gosto é o livre-arbítrio para ofertar. Permitam-me, então, amados, umas poucas palavras. Deus disse em Sua Palavra que devemos honrá-lO com os nossos bens. Como sacerdote do Senhor, você não vai sacrificar alguma coisa a Ele no dia de hoje? Temos um grande objetivo diante de nós; queremos mais espaço para as pessoas que vêm ouvir o evangelho. Parece importante que, quando tantas pessoas estão reunidas, ninguém vá embora. Não devemos bendizer a Deus por sua vinda? Há um tempo atrás éramos muito poucos e o nosso clamor era: “Quem creu em nossa pregação”? No entanto, Deus nos tem nos concedido grande êxito, nosso ministério tem sido abençoado com a conversão de não poucas almas; temos muitos casos, aqui nesta capela, de corações quebrantados e espíritos contritos; sem dúvida, há muitos mais que desconheço, os quais creio que o bendito Espírito trará no devido tempo. Ah, vocês não lamentam quando algumas pessoas não ouvem a voz do ministério ━ quando vêm e têm de ir embora, talvez para passar o domingo em pecado? Não sabemos para onde elas vão quando não conseguem entrar. O fato é, temos de pensar que esta capela precisa ser ampliada, a fim de haver acomodação para um número maior de pessoas. Ora, sacerdotes, sacrifiquem ao Senhor. Edifiquem a casa do Senhor; que aqueles que cultuam neste santuário ponham a mão na massa; que os tijolos e a argamassa sejam assentados e esta casa fique ainda mais cheia com a glória do Senhor e uma grande congregação.
          III. Agora, vou concluir com O FUTURO DO MUNDO. “E eles reinarão sobre a terra”. Não tenho muito tempo para me deter neste ponto, e tenho certeza de que vocês esperam que eu fale sobre o milênio e o reinado de Cristo. No entanto, de forma alguma falarei sobre isso, pois nada sei a esse respeito. Já ouvi muitas pessoas discutindo sobre esse assunto e, se alguém me mostrar um livro a esse respeito, eu digo: “Ainda não posso lê-lo”. Há pouco tempo, um bom homem escreveu um livro sobre a questão, e um senhor insistiu tanto para eu lê-lo que o comprei só por cortesia; contudo, coloquei o livro na área nobre da minha biblioteca, nas prateleiras mais altas, e lá ele descansa em repouso tranquilo. Não me sinto capaz de trilhar os labirintos desse assunto, e também não creio que aquele respeitável autor possa fazê-lo. É um tema obscuro e tenho lido tantas opiniões diferentes sobre ele que, para mim, tudo é fantasmagoria. Creio em tudo o que a Bíblia diz sobre um futuro glorioso, mas não tenho a intenção de ficar fazendo gráficos o tempo todo. Só uma coisa tomo como certa: um dia os santos reinarão sobre a terra. Para mim, essa verdade parece clara o suficiente, sejam quais forem os diferentes pontos de vista sobre o milênio. Agora os santos não reinam de forma visível; eles são desprezados. Nos tempos antigos, eles foram levados às covas e às cavernas da terra: mas virá o tempo quando os santos serão reis, e os chamados de Deus, príncipes ━ quando as amas serão rainhas, e os aios da igreja de Cristo, reis. A hora está chegando, quando o santo será honrado, não desprezado; e os monarcas, antes inimigos da verdade, serão seus amigos. Os santos reinarão. Eles serão maioria, o reino de Cristo terá a supremacia; não será humilhado ━ este não será mais o mundo de Satanás ━ ele cantará novamente com suas irmãs, as estrelas, e o louvor jamais cessará. Ah, eu creio que virá o dia quando os sinos de domingo ressoarão pelas planícies da África ━ quando as profundezas das selvas da Índia verão os santos de Deus subindo para o santuário; e, estou certo de que as multidões fervilhantes da China irão se reunir nos templos para orar e, como você e eu fazemos, cantarão ao glorioso e eterno Senhor
“Louvai a Deus de quem as bênçãos vêm.”
Oh, dia feliz! Dia feliz! Que venha logo!
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(1) Shakespeare, Henrique IV - Parte II
Tradução: Mariza Regina de Souza

27 de novembro - Devocional Matutina

“Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do SENHOR...” ━ Zacarias 3:1
Em Josué, o sumo sacerdote, vemos a imagem de cada e de todo filho de Deus que foi aproximado pelo sangue de Cristo, que foi instruído a ministrar as coisas santas e a penetrar além do véu. Jesus nos fez sacerdotes e reis para Deus e, mesmo estando aqui na terra, exercemos o sacerdócio de vida santificada e serviço consagrado. Também está escrito que o sumo sacerdote “estava diante do Anjo do Senhor”, ou seja, ele estava lá para ministrar. Esta deveria ser a posição de todo verdadeiro crente. Cada lugar agora é templo de Deus, e Seu povo pode verdadeiramente servi-lo tanto nas tarefas de trabalho como nos afazeres domésticos. Eles devem estar sempre “ministrando”, oferecendo sacrifício espiritual de louvor e adoração e apresentando-se como “sacrifício vivo”. Contudo, observe ainda onde Josué está, ele está diante do Anjo do Senhor. É só por meio de um mediador que nós, pobres impuros, podemos nos tornar sacerdotes para Deus. Eu dou o que tiver ao mensageiro, o Anjo da aliança, o Senhor Jesus; por Ele, minhas orações são aceitas, junto com as Suas; meus louvores se tornam suaves quando estão ligados ao feixe de mirra, aloés e cássias do jardim de Cristo. Se não posso levar nada a Ele, exceto minhas lágrimas, Ele as recolherá em Seu próprio odre, onde já estão as Suas; se levar a Ele apenas meus suspiros e gemidos, Ele os receberá como sacrifício aceitável, pois já esteve com o coração quebrantado e suspirou profundamente em espírito. Eu, estando nEle, sou aceito no Amado; e minhas obras impuras, embora sejam abomináveis para Deus, são recebidas como aroma suave por Ele. Ele fica satisfeito e eu, abençoado. Vejam, então, a posição do cristão ━ “um sacerdote ━ que está ━ diante do Anjo do Senhor”.
Tradução: Mariza Regina de Souza

Liberdade Espiritual

SERMÃO Nº 9

SERMÃO MINISTRADO NA MANHÃ DE DOMINGO DO DIA 18 DE FEVEREIRO DE 1855 PELO REV. CHARLES H. SPURGEON, EM EXETER HALL, STRAND, INGLATERRA

“Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” — 2 Coríntios 3:17

A LIBERDADE é o direito natural de toda pessoa. Ela pode ter nascido na pobreza; pode ter sido abandonada; seus pais podem ser desconhecidos; mas a liberdade é seu direito inalienável. Ela pode ter a pele negra; pode viver sem educação e sem instrução; pode ser tão pobre quanto a própria pobreza; pode não ter sequer um palmo de chão para chamar de seu; pode não ter roupas para vestir, salvo os trapos que a cobrem — mas, por mais pobre que seja, a natureza a fez para ser livre — ela tem o direito de ser livre, e se não for, é um direito seu e ela não pode sossegar até conquistá-lo!
A liberdade é a herança de todos os filhos e filhas de Adão. Contudo, onde se pode encontrar liberdade sem religião? É verdade que todos os homens têm direito à liberdade, mas é igualmente verdade que não a encontramos em qualquer lugar, exceto onde está o Espírito do Senhor. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”. Graças a Deus, a Inglaterra é um país livre! Esta é uma pátria onde posso respirar e dizer que o ar não está poluído com o gemido de um único escravo. Quando meus pulmões inspiram, sei que o ar não está misturado com o vapor das lágrimas de uma só escrava, derramadas pelo filho que lhe foi tomado. Esta terra é o lar da liberdade. Mas, por que é assim? Para mim, não é tanto pelas nossas instituições quanto o é pelo Espírito do Senhor presente aqui — o espírito da religião pura e verdadeira! Houve uma época, lembrem-se, quando a Inglaterra não era mais livre que qualquer outro país, quando os homens não podiam falar abertamente sobre seus sentimentos, quando os reis eram déspotas, quando o Parlamento era apenas um símbolo. Quem conquistou a liberdade para nós? Quem abriu as nossas cadeias? Com a direção de Deus, digo que foram os homens religiosos — homens como o grande e ilustre Cromwell, os quais ou tinham a liberdade de consciência ou morriam — homens que, se não pudessem alcançar o coração dos reis, por serem insondáveis em sua astúcia, preferiam derrubar governos a serem escravos. Devemos nossa liberdade a esses homens — homens da estirpe dos Puritanos — homens que desprezaram o jogo dos covardes e não submeteram seus princípios ao controle do homem. E se alguma vez tivermos de manter a liberdade na Inglaterra (enquanto Deus permitir), será pela liberdade religiosa — pela religião. A Bíblia é a Carta Magna da antiga Bretanha! Suas leis, suas doutrinas quebraram nossos grilhões, e eles não podem ser religados enquanto homens, com o Espírito de Deus no coração, proclamarem suas verdades. Em lugar algum, salvo onde a Bíblia é aberta — em reino algum, salvo onde o evangelho é pregado — a liberdade pode ser encontrada! Andando por outros países, fala-se com apreensão; sente-se medo; sente-se como se uma mão de ferro estivesse sobre sua cabeça; como se uma espada pairasse no ar; não se é livre. Por quê? Porque se está sob a tirania causada pela falsa religião — ali não existe a liberdade do protestantismo e, até que ela chegue, não pode haver liberdade! Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade, e em nenhum outro lugar. Os homens falam sobre ser livre — descrevem governos ideais, repúblicas platônicas ou paraísos owenistas(1), mas eles são apenas teóricos sonhadores. Pois, não pode haver liberdade no mundo, salvo “onde está o Espírito do Senhor”.
Comecei com esta ideia porque acho que as pessoas do mundo devem saber que, se a religião não as salvar, mesmo fazendo muito por elas, sua influência pode conquistar sua liberdade.
No entanto, a liberdade presente em nosso texto não é desse tipo — é uma liberdade infinitamente maior e melhor! Por melhor que seja a liberdade civil ou religiosa, a liberdade do nosso texto é muito mais transcendente. É uma liberdade, caros amigos, que só os cristãos podem desfrutar. Mesmo na Grã-Bretanha, há pessoas que ainda não provaram o doce sabor da liberdade. Há quem tenha receio de falar como homem, que se encolhe e se rebaixa, que se dobra e se humilha diante de qualquer um. Tal pessoa não tem vontade própria, não tem princípios, não tem voz; não tem coragem e não consegue se portar com independência! Livre é quem a Verdade torna livre. Quem tem a graça divina no coração é livre, não precisa se dobrar diante ninguém, tem o direito ao seu lado; tem Deus dentro do coração — é habitação do Espírito Santo. É alguém de sangue real do céu. É um nobre, cujo título de nobreza é verdadeiro; é um dos eleitos, distintos e escolhidos filhos de Deus, que não se curva nem se encolhe indignamente. Não! Essa pessoa, junto com  Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, vai mais rápido para a fornalha de fogo ardente — e junto com Daniel — vai mais rápido para a cova dos leões, do que abre mão dos seus princípios. Ela é livre, “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”, no mais pleno, elevado e amplo sentido! Que Deus lhes conceda, meus amigos, esse “Espírito do Senhor”, pois sem ele, mesmo num país livre, vocês podem ser cativos; e, mesmo onde não há servos no corpo, vocês podem ser escravos na alma. O texto fala de liberdade espiritual; portanto, agora, me dirijo aos filhos de Deus. A liberdade espiritual, meus irmãos, é desfrutada por mim e por você quando temos dentro de nós “o Espírito do Senhor”. No que isso implica? Implica em ter havido uma época quando não tínhamos tal liberdade — quando éramos escravos. Até há pouco tempo, todos nós que agora somos livres em Cristo, éramos escravos do diabo: éramos levados cativos por sua vontade. Falávamos em livre-arbítrio, mas o livre-arbítrio é um escravo. Nós nos orgulhávamos de poder fazer o que quiséssemos; mas, ah, que liberdade humilhante e ilusória nós tínhamos. Era uma liberdade fantasiosa. Éramos escravos das nossas paixões e concupiscências — escravos do pecado; mas agora estamos livres dele; fomos libertos do nosso tirano; alguém mais forte expulsou o poderoso homem armado e nós estamos livres.

Vamos, então, examinar um pouco mais de perto em que consiste a nossa liberdade.

1. Em primeiro lugar, meus amigos, “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” da escravidão do pecado. Ah! Sei que alguns ficarão emocionados quando eu falar sobre a escravidão do pecado. Vocês conhecem o significado desse sofrimento. De todos os tipos de escravidão e servidão deste mundo, nenhum é mais horrendo que a escravidão do pecado. Podemos falar de Israel no Egito, preparando tijolos sem palha. Podemos falar dos negros sob a chibata de feitores cruéis, e confesso serem estas servidões horríveis de suportar; mas há um tipo de escravidão ainda pior — a escravidão do pecador convicto quando é levado a sentir o peso da sua culpa; a escravidão de alguém cujos pecados ladram sobre ele como cães de caça sobre um cervo indefeso; a escravidão de alguém cujo peso do pecado está sobre seus ombros — um fardo pesado demais para sua alma suportar — um fardo que o levará para sempre às profundezas do tormento eterno, a menos que ele consiga escapar. Vamos dar uma olhada numa pessoa assim. Ela nunca tem um sorriso no rosto; está sempre carrancuda; está sempre séria e circunspecta; suas palavras são nostálgicas; suas canções parecem lamúrias; seu sorriso é triste; e, mesmo nos melhores dias, lágrimas quentes de angústia sulcam seu rosto como lava incandescente. Pergunte-lhe o que ela é e ela dirá: sou uma “infeliz”. Pergunte-lhe como ela é e ela confessará: sou a “miséria encarnada”. Pergunte-lhe o que será dela e ela afirmará: “estarei perdida para sempre nas chamas eternas, sem nenhuma esperança”. Ei-la sozinha em sua intimidade: quando deita a cabeça no travesseiro, levanta e começa tudo de novo; à noite, os tormentos povoam seus sonhos, e de dia, ela quase pode sentir aquilo com que sonhou. Assim é o pecador convicto sob a escravidão. Eu já fui assim, e vocês também, meus amigos. Falo com quem pode entender isso. Quem já passou pelo sombrio “Desfiladeiro do Desespero”, quem já atravessou o negro vale da penitência, quem já teve de beber o cálice amargo do arrependimento, sei que dirá “amém” quando eu disser que, de todos os tipos de escravidão, esta é a mais dolorosa — a escravidão da lei, o cativeiro da corrupção. “Desventurado homem que sou! Quem me livrará” dessa servidão? Entretanto, o cristão é livre; agora ele pode sorrir, embora antes tenha chorado; ele pode se regozijar, embora antes tenha lamentado. “Agora”, diz ele, “não há mais pecado em minha consciência; não há mais crime sobre o meu peito; não preciso mais caminhar pela terra com receio de cada sombra e de cada homem que encontrar, pois meu pecado foi lavado; não há mais culpa em meu espírito; ele é puro, é santo; não mais repousa sobre mim o desprazer de Deus; meu Pai está sorrindo: vejo Seus olhos — eles me olham com amor; ouço Sua voz — está cheia de ternura. Estou perdoado, estou perdoado, estou perdoado! Salve, Tu que quebras os grilhões! Glorioso Jesus! Ah! Ainda me lembro de quando senti o fim da escravidão. Vi Jesus na cruz bem diante de mim; pensei nEle e, quando meditei na Sua morte e no Seu sofrimento, pareceu-me vê-lO olhando para mim; e quando Ele me viu, olhei para Ele e disse:

“Jesus, amado da minh’alma,
Deixa-me reclinar a cabeça em Teu peito”.

E Ele disse: “Vem”, eu corri para Ele e O abracei; e quando Ele me soltou, fiquei me perguntando onde estava o meu fardo. Ele se fora! Lá, no sepulcro, lá estava ele, e me senti leve como o ar; como um silfo alado eu podia voar sobre as montanhas dos problemas e do desespero; ah, quanta liberdade e felicidade eu senti! Eu podia saltar de alegria, pois tinha muito a ser perdoado e fui liberto do pecado. Amados, esta é a primeira liberdade dos filhos de Deus. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” da escravidão do pecado.

          2. Liberdade da condenação do pecado O que é isso? A morte eterna — o sofrimento sem fim — esta é a triste condenação do pecado. Não é bom recear que, se eu morresse hoje, poderia estar no inferno. Para mim, não é uma coisa agradável ficar aqui e acreditar que, se eu caísse, iria parar direto nos braços de Satanás, e ele me atormentaria por toda a eternidade. Porque, senhores, este pensamento ia me torturar; ia ser a pior maldição da minha existência. De bom grado, preferiria estar morto e apodrecendo no túmulo a andar pela terra com a simples ideia de sofrer uma condenação como essa. Algumas pessoas sabem muito bem que, se morrerem agora, sua porção será o inferno. Não tente negar essa realidade; acredite na Bíblia e leia nela o seu destino: “quem, porém, não crer será condenado”. Você não pode se colocar entre os crentes. Ainda está sem Cristo. Você já está convicto dos seus pecados, a ponto de pensar que Deus não seria justo se não o punisse? Já sentiu o quanto tem se rebelado contra Ele com seus pecados ocultos, ah, os pecados ocultos, e com suas transgressões flagrantes, a ponto de achar que, se Ele não o punir, deveria deixar de ser Deus e abandonar Seu cetro? E, então, você treme, geme e clama com medo da condenação do pecado. Enquanto dormia, você sonhou que viu o lago de ondas de fogo, cujos vagalhões ardem com enxofre; e todos os dias andava na terra com pavor de que o próximo passo o lançasse no poço sem fundo. Mas você cristão, você está livre da condenação do pecado. Sabia disso? Consegue reconhecer isso? Neste exato momento você está livre da condenação do pecado. Você não só está perdoado, mas também nunca será punido por conta dos seus pecados, não importa o quão grandes ou assustadores eles sejam.

"No momento em que crê o pecador
E confia no Deus crucificado
Pela salvação no sangue redentor
Seu pecado é de vez perdoado."

E, assim, o crente nunca será punido por conta dos seus pecados. Crente punido? Não existe isso! As aflições desta vida mortal não são punições para os cristãos; são correções paternais, não condenações de um juiz. Para mim não haverá inferno; que ele queime e fumegue; se sou crente em Cristo, jamais minha porção será lá. Para mim não haverá tortura eterna, não haverá tormento, pois se sou justificado, não posso ser condenado. Jesus sofreu o castigo em meu lugar e Deus seria injusto se me punisse novamente; pois Cristo já padeceu e satisfez Sua justiça para sempre. Quando minha consciência me diz que sou pecador, eu digo a ela que estou no lugar de Cristo e Ele está no meu lugar. É verdade, sou pecador, mas Cristo morreu pelos pecadores. É verdade, mereço a punição; mas, se meu resgatador morreu, irá Deus cobrar duas vezes a mesma dívida? Impossível! Ele a cancelou. Nunca houve e nunca haverá um crente no inferno. Estamos livres da condenação e não precisamos mais tremer por conta dela. No entanto, por mais horrível que seja transgressões se é eterna, e sabemos que é, nada é para nós, pois nunca iremos sofrê-la. O céu abrirá suas portas de pérola para nos deixar entrar; mas os portões de ferro do inferno estão trancados para sempre para todos os crentes. Ah, gloriosa liberdade dos filhos de Deus!

3. Mas existe outro fator ainda mais surpreendente, e ouso dizer que algumas pessoas irão fazer objeções a ele; contudo, é a verdade de Deus e, se você não gosta, é melhor ler. Existe também a liberdade da culpa do pecado. Esta é a maravilha das maravilhas. A partir do momento em que passa a crer, o cristão não é mais culpado. Ora, se Sua Majestade, a Rainha da Inglaterra, em sua bondade, poupa um assassino, dando-lhe gratuitamente o perdão, esse homem não pode ser punido, mas ainda será culpado; a Rainha pode lhe conceder mil perdões, e a lei não pode tocá-lo, mas ele ainda será culpado; o crime estará sempre pairando sobre sua cabeça e ele será tido por assassino enquanto viver. O cristão, no entanto, não é apenas liberto da escravidão e do castigo, ele é também completamente absolvido da sua culpa. Ora, isso é surpreendente. “O quê?”, você diz, “Então o cristão não é mais pecador aos olhos de Deus?”. Eu lhe digo que ele, em si mesmo, ainda é pecador, mas, na pessoa de Cristo, não é mais pecador que o anjo Gabriel; pois, assim como são brancas as asas dos anjos, e impecáveis as vestes dos querubins, um anjo não pode ser mais puro que um pecador que se tornou mais alvo que a neve por ter sido lavado no sangue de Cristo. Entende, agora, como a própria culpa é tirada do pecador? Eis-me aqui, um traidor culpado e condenado; Cristo vem para me salvar; Ele me convida a sair da minha cela: “Ficarei no seu lugar; serei seu substituto; serei o pecador; toda a sua culpa será imputada a Mim; morrerei por isso; sofrerei por isso; assumirei todos os seus pecados”. Então, Ele se despoja das Suas vestes e diz: “Tome, vista-as; você será considerado como se fosse Cristo; você será o justo. Tomarei o seu lugar e você tomará o meu”. A seguir, Ele lança sobre mim o Seu manto glorioso de perfeita justiça e, quando o vejo, exclamo: “Que estranho, minh’alma, estás vestida com as roupas do meu irmão mais velho”. A coroa de Jesus está sobre minha cabeça, Seus trajes imaculados cingem meus lombos e Suas sandálias douradas calçam meus pés. E agora, existe algum pecado? O pecado está em Cristo; e a justiça está em mim. Justiça, chame o pecador! E a voz da Justiça diz: “Tragam o pecador!” O pecador é trazido. Quem é apresentado pelo carrasco? O Filho de Deus encarnado. É verdade, Ele não cometeu pecado; Ele não teve culpa; mas o pecado Lhe foi imputado: ficar no lugar do pecador. A justiça agora grita: “Tragam o justo, o perfeitamente justo”. Quem vejo? Ah, a Igreja é trazida, cada crente é trazido. A Justiça pergunta: “São estes os perfeitamente justos?”. “Sim, são eles”. O que Cristo fez é deles; o que eles fizeram foi colocado sobre Cristo; Sua justiça é deles; e seus pecados são Dele. Ímpios, eu lhes pergunto: “Isso não parece estranho e surpreendente?" Podem rir e dizer que é hipercalvinismo. Podem dizer o que quiserem. Deus o estabeleceu como Sua verdade; Ele nos fez justos por meio da justiça imputada de Cristo. E agora, se sou mesmo crente, estou livre de todo e qualquer pecado. Não há crime contra mim no livro de Deus; o registro foi apagado para sempre; foi cancelado; e não só não posso ser punido, como não tenho nada para ser punido. Cristo expiou o meu pecado e recebi a Sua justiça. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”.

           4. Fora isso, o cristão, além de liberto da culpa e da condenação do pecado, é liberto também do domínio do pecado. Todo mundo, antes de ser convertido, é escravo das concupiscências. Os ímpios se gloriam de viver e pensar livremente. Eles chamam a isso de liberdade — um copo cheio, orgias, gritarias, impudicícias e dissoluções — liberdade, senhor! Que o escravo mostre seus grilhões e os faça tinir em meus ouvidos, e diga: “Isto é música e eu sou livre”. Mas o coitado é um pobre maníaco. Que o homem acorrentado em sua cela, o louco de Belém, me diga que é rei e dê uma gargalhada horrível; e eu digo, “Ah, pobre coitado, sei que se considera rei, mas é néscio e louco”. Assim é com a pessoa do mundo que se diz livre. Livre? Ela é escrava. Ela acha que é feliz, mas de noite, quando se deita, quantas vezes não fica rolando na cama, insone e inquieta; e quando desperta, não diz: “Ufa, que dia foi ontem — que dia!” E, embora mergulhe em mais um dia de pecado, o “dia de ontem”, como um cão do inferno, rosna para ela e a persegue. Sabe, senhor — pecado significa cativeiro e escravidão. Já tentou se livrar dessa servidão? “Sim”, você diz, “já tentei”. No entanto, vou lhe dizer como terminou. Quando tentou, seus grilhões ficaram ainda mais presos; suas correntes ficaram mais apertadas. Um pecador sem a graça de Deus, tentando endireitar a si mesmo, é como Sísifo rolando a pedra morro acima, a qual sempre voltava com mais força. Um pecador sem a graça de Deus, tentando salvar a si mesmo, está empenhado numa tarefa tão desesperadora quanto a das filhas de Danau, que tentavam encher um grande tonel com baldes sem fundo. É como se tivesse um arco sem corda, uma espada sem lâmina, uma arma sem munição. Ele precisa de força. Concordo que até possa melhorar; mas será como se tivesse aterrado um vulcão para semear flores ao redor da sua cratera; quando o vulcão entrasse novamente erupção, jogaria a terra pra longe, e a lava incandescente rolaria sobre as belas flores plantadas e devastaria tanto suas obras quanto sua justiça. Um pecador sem a graça de Deus é um escravo: ele não pode libertar a si mesmo dos seus pecados. No entanto, com o cristão não é assim! Será ele escravo do seu pecado? É escravo quem é verdadeiramente nascido de Deus? Não, não é! Ele não pode pecar, pois é nascido de Deus; não pode viver na impureza, pois é herdeiro da imortalidade. Vós, miseráveis da terra, podeis ter propensão às obras do mal, mas os príncipes de sangue celestial perseguem os atos de justiça. Vós, pobres mundanos — vis e desprezíveis aos olhos de Deus — podeis viver desonesta e injustamente, mas não o herdeiro do céu; ele ama o Senhor, e está livre do poder do pecado; seu trabalho é justo e seu fim é a vida eterna. Somos livres do domínio do pecado.

5. Mais uma vez: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” em todas as atitudes santas de amor liberdade do medo servil da lei. Muitas pessoas são honestas por terem medo da polícia. Muitas se comportam por temerem a opinião dos outros. Muitas são aparentemente religiosas por causa dos seus vizinhos. Muita virtude é como o suco de uva — precisa ser espremida antes que se possa obtê-la; não é uma como uma generosa gota de mel, pronta para destilar livremente do favo. Ouso dizer que, se alguém não tem a graça de Deus, seu trabalho é apenas trabalho escravo; ele tem de fazê-lo. Sei que antes de receber a liberdade dos filhos de Deus, quando eu ia à Sua casa, era por achar que devia ir; quando orava, era por temer a ocorrência de algum infortúnio se não o fizesse; quando agradecia a Deus pela bênção recebida, era por achar que não receberia outra se não fosse grato; quando fazia algo de bom, era na esperança de ser galardoado no final e receber uma coroa no céu. Eu era um pobre escravo, um mero gibeonita, rachador de lenha e tirador de água (Josué 9:27). Eu vibrava quando podia deixar de fazer alguma coisa. Se fosse por minha vontade, eu nunca teria ido à igreja e nem teria religião — teria vivido no mundo e seguido os caminhos de Satanás, e teria feito o que bem quisesse. Quanto a justiça, eu era escravo; o pecado era minha liberdade. E você, cristão, qual é a sua liberdade? O que o faz ir à casa de Deus?

“O amor faz seus pés
Rapidamente obedecerem”

Qual o motivo para dobrar os joelhos em oração? É o prazer de falar com o Pai que o vê em secreto. Qual o motivo para por a mão no bolso e ser generoso? É o amor pelos filhos necessitados de Deus e o privilégio de poder devolver algo para Cristo pelo tanto que Ele já lhe deu. Qual o motivo para ser constrangido a viver honesta, justa e sobriamente? Seria uma cela de prisão? Não, a prisão poderia ser destruída, as sentenças condenatórias aniquiladas e as correntes lançadas no mar, e ainda assim seríamos tão santos quanto somos agora. Alguns dizem: “Então o senhor quer dizer que os cristãos podem viver como quiserem?” Gostaria que pudessem, senhor. Se eu pudesse viver como desejo, sempre viveria em santidade de vida. Se um cristão pudesse viver como deseja, iria viver como deve. O pecado, para ele, é escravidão; mas a retidão, um prazer. Ah, se pudesse viver como desejo, desejaria viver como devo. Se pudesse viver como anseio, viveria como Deus me ordena. A maior felicidade do cristão é ser santo. Não há escravidão para ele. Seja qual for a situação, ele não irá pecar; seja qual for a tentação, não fosse pelo mal que ainda resta em seu coração, ele jamais seria encontrado em pecado. A santidade é seu prazer; o pecado, sua escravidão. Ah, pobres cativos que vêm à igreja e à capela por obrigação; ah, pobres moralistas servis, honestos devido às algemas e sóbrios devido à prisão; ah, pobres escravos! Nós não somos assim; não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça. Podem nos chamar de antinomianos, se quiserem, e nos gloriaremos ainda mais nesse título escandaloso; estamos livres da lei, mas fomos libertos dela para obedecê-la ainda mais. O verdadeiro filho nascido de Deus serve o Mestre como nunca o fez. Como diz o velho Erskine:

“Sua adorável presença não se pode desprezar
Quando guiados por Sua bondade sem par
Tão logo o amor eterno mostre o seu poder,
Todos são constrangidos a obedecer;
Tal amor os faz em retidão andar
Mais puros que Adão antes de pecar.”

6. Para concluir: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” do medo da morte. Ó morte! Quantas delícias não amargaste! Ó morte! Quantas farras não terminaste! Ó morte! Quantos banquetes não estragaste! Ó morte! Quantos prazeres pecaminosos não tornaste em dor! Amigos, peguem um telescópio e olhem para o passado, para alguns anos atrás — o que veem? Lá longe, segurando sua foice, está a morte implacável. Ela vem vindo, vem vindo, vem vindo; e o que vem atrás dela? Bem, isso depende de cada um. Se vocês são filhos de Deus, há um ramo de palmeira; se não são, sabem o que vem depois da morte — o inferno. Ó morte! Teu fantasma tem assombrado muitas casas onde o pecado de outra forma teria reinado. Ó morte! Tua mão fria tem tocado muitos corações lascivos, fazendo-os começar a temer o seu crime. Ah, quanta gente é escrava do medo da morte. Metade das pessoas do mundo tem medo de morrer. Alguns loucos entram na boca de um canhão e alguns tolos se apresentam com as mãos ensanguentadas diante do tribunal do Criador; mas a maioria tem medo da morte. Quem não tem medo de morrer? Vou lhe dizer. O crente. Medo da morte! Graças a Deus, eu não tenho. A cólera pode vir novamente no próximo verão — rogo a Deus que isso não aconteça; mas se acontecer, não faz diferença para mim: vou trabalhar e visitar os doentes todos os dias e todas as noites, até cair; e se ela me pegar, morte repentina é glória repentina. E é assim com o mais fraco dos crentes neste recinto; o fantasma da separação não o faz tremer. Às vezes podemos temer, mas quase sempre nos regozijamos. Sentamos calmamente e pensamos na morte. O que é a morte? É uma portinhola pela qual você tem de se dobrar para entrar no céu. O que é a vida? É uma tela fina que nos separa da glória, a qual é gentilmente removida pela morte! Lembro-me da frase de uma boa senhora que dizia: “Se tenho de morrer? Tenho mergulhado meus pés no Jordão todos os dias antes do café da manhã nos últimos cinquenta anos e o senhor acha que só agora tenho medo da morte?” Morrer, amados, nós morremos centenas de vezes; “morremos dia após dia”; morremos toda manhã; morremos toda noite ao dormir; pela fé nós morremos; e, assim, quando a morte vier, será coisa do passado. Diremos: “Ah, morte! Somos velhos amigos; tens estado no meu quarto todas as noites; falo contigo todas as manhãs; tenho teu crânio em minha penteadeira; estou sempre pensando em ti. Morte! Tu virás, afinal, mas és uma convidada benvinda; és um anjo de luz e a melhor amiga que já tive”. Por que, então, temer a morte, se não existe o temor de Deus deixá-lo quando você morrer? Vou contar uma anedota sobre uma senhora do País de Gales que, quando estava às portas da morte, recebeu a visita de seu pastor. Ele lhe perguntou: “Irmã, a senhora está afundando?(2)” Ela não disse uma palavra, mas olhou para ele com um olhar incrédulo. Ele repetiu a pergunta: “Irmã, a senhora está afundando?” Ela olhou para ele novamente, como se não acreditasse nas suas palavras. Por fim, levantando-se um pouco da cama, ela disse: “Afundando? Afundando? O senhor já viu um pecador afundar através de uma rocha? Se eu estivesse na areia, poderia afundar; mas, graças a Deus, estou sobre a Rocha Eterna, e sobre ela, ninguém afunda”. Como é gloriosa a morte! Venham, anjos, venham! Oh, coortes do Senhor dos exércitos, abram, abram suas asas e nos levem da terra; oh, serafins alados, levem-nos acima do alcance das coisas inferiores; mas até que venham, eu cantarei:

“Uma vez que Jesus é meu, não temerei ser despido,
E, com prazer, das vestes de barro desprovido;
Morrer no Senhor é bênção da aliança,
Com Jesus na glória, mesmo na morte há segurança.”

            E agora, caros amigos, preciso rapidamente lhes mostrar o outro lado dessa liberdade. Tentei lhes dizer, em poucas palavras, de que somos libertos. No entanto, toda questão tem dois lados. Há também algumas coisas gloriosas para as quais fomos libertos. Não só fomos libertos do pecado, no que se refere à lei e ao medo da morte; também fomos libertos para fazer alguma coisa. Não vou me delongar muito, apenas discorrer sobre algumas coisas para as quais somos livres; pois, caros irmãos, “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” e essa liberdade nos dá certos direitos e privilégios.

Em primeiro lugar, somos libertos para o estatuto do céu. O céu tem um estatuto — uma Carta Magna — a Bíblia; e você, meu irmão, tem direito a ela. Eis uma passagem escolhida: “Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão”. Você tem direito a isso. Eis outra passagem: “Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão removidos; mas a minha misericórdia não se apartará de ti”. A isso também. Eis outro trecho: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. E ainda a isso. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”. A Bíblia fala sobre eleição: você tem direito a ela se for eleito. Fala também sobre a não condenação dos justos e sobre a justificação: são seus direitos também. Você tem direito a tudo quanto está na Bíblia. Ela é um tesouro inesgotável da infinita provisão da graça. Ela é o banco do céu; você pode retirar o quanto quiser, sem qualquer obstáculo ou impedimento. Não precisa levar nada com você, exceto sua fé. Tenha tanta fé quanto puder e você será bem-vindo a tudo quanto está na Bíblia. Nela não há promessa nem palavra que não sejam suas. Nas profundezas da tribulação, ela lhe dará consolo. Em meio às ondas de aflição, ela lhe dará ânimo. Quando as tristezas o rodearem, ela será o seu auxílio. Ela é o símbolo do amor do Pai: que ela nunca seja calada ou fique empoeirada. Você tem direito a ela — use, então, a sua liberdade.

           A seguir, lembre-se de que você tem acesso ao trono da graça. Para os ingleses, é um privilégio poder sempre recorrer ao Parlamento e, para os crentes, um privilégio poder sempre recorrer ao trono da graça. Tenho livre acesso ao trono de Deus. Se quiser falar com Ele amanhã de manhã, eu posso. Se hoje à noite tiver o desejo de conversar com meu Mestre, posso ir até Ele. Tenho livre acesso ao Seu trono. Não importa o quanto eu tenha pecado. Posso ir ao trono de Deus e pedir perdão. Não importa quão pobre eu seja, posso ir e reivindicar Sua promessa, e Ele providenciará tudo quanto for necessário. Tenho acesso ao trono em todos os momentos — na escuridão da noite ou no calor do meio-dia. Onde quer que eu esteja, mesmo se o destino me mandar para os confins da terra, sempre serei admitido ao Seu trono. Use esse direito, amado, use esse direito. Ninguém está à altura desse privilégio. Muitos vivem além de suas posses, gastando mais do que recebem, mas nenhum cristão faz isso — quero dizer, nenhum cristão vive à altura do seu rendimento espiritual. Ah, mas seu rendimento é infinito — um rendimento de promessas — um rendimento de graça; e nenhum cristão jamais viveu à altura desse rendimento. Alguns dizem: “Se tivesse mais dinheiro, eu teria uma casa maior, teria cavalos, carros e outras coisas”. Tudo bem, mas eu gostaria que os cristãos dissessem o mesmo. Gostaria que quisessem uma casa maior e coisas melhores para Deus; que se mostrassem mais felizes e enxugassem dos olhos suas lágrimas.

“A religião nunca foi designada
Para diminuir o nosso deleite.”

Com esse saldo no banco, e muito mais nas mãos, dado por Deus, você não tem o direito de ser pobre. Ânimo! Regozije-se! Regozije-se! O cristão tem de viver à altura da sua renda, não abaixo dela.

       Portanto, se vocês têm o “Espírito do Senhor”, caros amigos, vocês têm direito de adentrar à cidade. Muitos aqui são cidadãos londrinos, e ouso dizer que isso deve ser um grande privilégio. Não sou cidadão de Londres, mas sou cidadão de uma cidade muito melhor.

“Amado Salvador, se da cidade de Sião
Eu, pela graça, membro me tornar,
Mesmo havendo no mundo difamação
Em Teu nome vou me gloriar”.

Você tem livre acesso à cidade de Sião, mas não exerce esse direito. Quero dizer uma coisa para alguns de vocês. Vocês são bons cristãos, mas não querem se unir à igreja. Vocês sabem o que devem fazer, pois quem crê deve ser batizado; no entanto, receio que tenham medo de serem sufocados, pois não se unem. E assim, a mesa do Senhor é disposta todos os meses e é de livre acesso a todos os filhos de Deus, mas vocês não participam dela. Por quê? Ela é um banquete. Não creio que se eu fosse vereador da cidade iria perder o banquete municipal, e, sendo cristão, não posso perder o banquete cristão, pois a Santa Ceia é o banquete dos santos.

“Nem os anjos dos céus provaram amor maior
Que a graça redentora do nosso Salvador”

Algumas pessoas nunca participaram da mesa do Senhor; por isso, estão menosprezando Sua ordenança. Ele diz: “fazei isto em memória de mim”. Você tem acesso à cidade, mas não entra. Você tem direito de adentrar aos seus portões, mas continua do lado de fora. Entre, irmão, eu lhe dou a mão. Não fique mais do lado de fora da igreja, pois você tem direito de entrar.

             Assim, para concluir, você tem livre acesso a Jerusalém, a mãe de todos nós. Este é o melhor de todos os presentes. Somos livres para entrar no céu. Quando um cristão morre, ele conhece o “abre-te sésamo” para poder abrir as portas do céu; ele sabe a senha para escancarar seus portões; ele tem a pedrinha branca pela qual será reconhecido como um dos redimidos e poderá passar pelo bloqueio; ele tem o passaporte para deixá-lo entrar nos domínios de Jeová; ele tem liberdade para entrar no céu. E tu, não convertido, parece-me ver-te na terra das sombras, vagando para cima e para baixo à procura da tua porção. Chegas à porta do céu. Ela é grande e imponente. Nela está escrito: “Só os justos podem entrar”. Ali parado, procuras o porteiro. Um arcanjo alto aparece por cima do portão e tu dizes: “Anjo, deixa-me entrar”. “Onde está a tua veste?” Tu procuras, mas não achas nenhuma; tens apenas alguns trapos da tua própria confecção, mas nenhuma veste nupcial. “Deixa-me entrar”, tu dizes, “pois os demônios estão no meu encalço para me atirar no abismo do além. Por favor, deixa-me entrar”. No entanto, com um olhar silencioso, o anjo levanta o dedo e diz: “lê o que está escrito ali”, e tu lês, “Ninguém, exceto os justos, pode entrar”. Então, tu estremeces; teus joelhos batem um contra o outro; tuas mãos tremem. Teus ossos de bronze se derretem; tuas costelas de ferro se dissolvem. Ah! Lá estás tu, arrepiado, trêmulo e palpitante; mas não por muito tempo, pois uma voz horripilante te lança por terra e grita: “Aparta-te de mim, maldito, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Ah, caros leitores, será essa a vossa porção? Meus amigos, porque vos amo, digo-vos hoje e espero sempre dizer: será essa a vossa sorte? Não tereis liberdade de entrar na cidade? Não buscareis o Espírito que dá liberdade? Ah! Sei que, por vós mesmos não o tereis; e alguns, talvez, jamais o tenham. Ó Deus, concede que este número seja bem pequeno e que o número dos salvos seja muito grande!

“Descansa, minh’alma, no resgate
Do grande Sumo Sacerdote
Do cativeiro Ele te libertou
Confia no sangue que derramou
Não temas ser banida por Deus
Pois, Jesus por ti morreu.”

(1) Robert Owen: rico industrial inglês nascido em Newtown, Montgomeryshire, País de Gales, que se transformou em um dos mais importantes socialistas utópicos mediante a criação de várias comunidades industriais.

(2) trocadilho intraduzível para o português, uma vez que o verbo sink pode significar tanto “afundar” como “piorar, decair” (4 4 become worse/sad ━ http://online.macmillandictionary.com/mc_au2/macmil.htm)
 

Tradução: Mariza Regina de Souza