O Pecado da Incredulidade

Sermão nº 03


Ministrado na manhã do domingo de 4 de janeiro de 1855, pelo
Rev. C. H. Spurgeon, na Capela da 
New Park Street, Southwark, Londres, Inglaterra



Aquele capitão respondera ao homem de Deus: Ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia suceder isso, segundo essa palavra? Dissera o profeta: Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. ━ 2 Reis 7:19

Um sábio pode livrar uma cidade inteira; um justo pode ser segurança para milhares de outras. Os santos são “o sal da terra”, o meio de preservação dos perversos. Sem aqueles que temem a Deus para conservá-la, a raça humana seria totalmente destruída. Na cidade de Samaria havia um homem temente a Deus — Eliseu, o servo do Senhor. Toda piedade fora extinta da corte. O rei era um pecador da pior espécie, sua iniquidade era flagrante e infame. Jeorão andava nos caminhos de seu pai, Acabe, e tinha feito para si falsos deuses. O povo de Samaria estava caído como seu monarca: eles tinham se afastado de Jeová; tinham abandonado o Deus de Israel; não mais se lembravam do lema de Jacó: “o Senhor teu Deus é o único Deus”; e, em vil idolatria, tinham se dobrado aos deuses dos ímpios; por isso, o Senhor dos Exércitos os entregou à opressão de seus inimigos até a maldição de Ebal se cumprir nas ruas de Samaria, pois “a mais mimosa das mulheres e a mais delicada do teu meio, que de mimo e delicadeza não tentaria pôr a planta do pé sobre a terra”, olhava com maldade para seus próprios filhos e devorava sua descendência por causa da fome extrema (Dt. 28:56-58). Nessa situação terrível, aquele único santo foi o meio de salvação. Aquele único grão de sal preservou toda uma cidade; aquele único guerreiro de Deus foi o meio para livrar todo um povo sitiado. Por amor a Eliseu, o Senhor prometeu que, no dia seguinte, o alimento que não poderia ser comprado por qualquer preço seria adquirido por preço insignificante — à porta de Samaria. Podemos imaginar a alegria daquela multidão quando ouviu o vidente fazendo esta predição. Eles sabiam que ele era profeta do Senhor; ele tinha as credenciais divinas; todas as suas profecias anteriores tinham se cumprido. Eles sabiam que ele era um homem enviado por Deus e que proclamava a mensagem de Jeová. Com certeza, os olhos do monarca brilhavam de prazer, e a multidão esfomeada dava pulos de alegria ante a perspectiva de se ver livre da fome com tanta rapidez. “Amanhã”, gritavam, “amanhã nossa fome será saciada e faremos uma grande festa”.
            No entanto, o capitão em cujo braço o rei se apoiava, manifestou sua incredulidade. O texto não diz que foi uma pessoa do povo, um plebeu, que não acreditou, mas sim um aristocrata. Pode parecer estranho, mas Deus raramente escolhe os grandes homens deste mundo. Cargos elevados e a fé em Cristo raramente combinam. Aquele homem importante disse: “Impossível!” e, com um insulto ao servo de Deus, acrescentou: “Ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia suceder isso, segundo essa palavra”? Seu pecado reside no fato de que, mesmo após repetidos sinais no ministério de Eliseu, ele ainda não acreditava na garantia dada pelo profeta em nome do Senhor. Sem dúvida, ele tinha visto a maravilhosa derrota de Moabe; tinha ficado perplexo diante da notícia da ressurreição do filho da sunamita; ele sabia que Eliseu tinha revelado os segredos de Ben-Hadade e ferido seu exército de cegueira; ele tinha visto o bando de sírios atraídos para o meio de Samaria; e, provavelmente, conhecia a história da viúva, cujo azeite encheu todas as vasilhas e resgatou seus filhos. Além do mais, a cura de Naamã devia ser a conversa mais corriqueira da corte. Ainda assim, mesmo com todas essas evidências, e com todas as credenciais do profeta, aquele homem duvidou e, de forma ofensiva, disse-lhe que os céus precisavam se tornar janelas abertas antes da promessa poder se cumprir. Por isso, Deus pronunciou sua sentença pela boca do mesmo homem que tinha acabado de declarar a promessa: “Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. E a Providência, que sempre cumpre a profecia, assim como o papel sempre leva a marca do tipo impresso — destruiu o homem. Um tropel desceu pelas ruas de Samaria e ele morreu às suas portas, vendo toda a fartura, mas sem poder prová-la. Talvez sua carruagem tenha sido imponente demais e tenha insultado o povo; ou talvez ele tenha tentado impedir o tumulto; ou ainda, como diríamos, talvez tenha sido apenas um acidente, mas o certo é que ele foi pisoteado até a morte, para que visse a profecia cumprida mas não pudesse desfrutá-la. No seu caso, ver foi crer, mas não desfrutar.
            Nesta manhã, quero chamar sua atenção para duas coisas — o pecado do homem e seu castigo. Talvez eu fale um pouco sobre este homem, já que tenho os detalhes das circunstâncias, mas o foco será o pecado da incredulidade e sua punição.
I.  Em primeiro lugar, o PECADO
            O pecado daquele homem foi a incredulidade. Ele duvidou da promessa de Deus. No seu caso específico, a incredulidade assumiu a forma de dúvida quanto à veracidade divina, ou desconfiança sobre o poder de Deus. Ou ele não acreditou que Deus queria dizer realmente o que disse, ou achou que a promessa estava dentro de uma série de possibilidades. A incredulidade tem mais fases que a lua e mais cores que um camaleão. O povo costuma dizer que às vezes vê o diabo de uma forma, outras de outra. Estou certo de que isso é verdade quanto à primogênita de Satanás — a incredulidade, pois suas formas são legião. Às vezes, eu a vejo disfarçada de anjo de luz. Ela chama a si mesma de humildade, e diz: “Seria presunção da minha parte. Não ouso pensar que Deus possa me perdoar. Tenho pecados demais”. Chamamos a isso de humildade e agradecemos a Deus por nosso amigo estar em tão boas condições. Eu não agradeço a Deus por esse tipo de ilusão. É o mal disfarçado de anjo de luz. No fim das contas, é pura incredulidade. Outras vezes, detectamos a incredulidade na forma de uma dúvida sobre a imutabilidade de Deus. “O Senhor me ama, mas talvez amanhã me abandone. Ele me ajudou ontem e, debaixo de Suas asas, posso confiar; mas talvez eu não receba Seu auxílio da próxima vez. Talvez Ele me abandone ou não se lembre da Sua aliança, e Se esqueça de ser gracioso”. Às vezes, esse tipo de infidelidade está embutido na dúvida sobre o poder de Deus. Todos os dias enfrentamos novos problemas e nos envolvemos com uma série de dificuldades, e pensamos: “Com certeza, Ele não pode nos ajudar”. Nós lutamos para nos livrar dos nossos fardos e descobrimos que nada podemos fazer, aí, então, pensamos que o braço de Deus é tão curto quanto o nosso, e Seu poder tão fraco quanto o nosso. Uma forma assustadora de incredulidade é a dúvida que impede as pessoas de virem a Cristo, que leva o pecador a desconfiar da capacidade de Deus de salvá-lo, a duvidar da disposição de Jesus de aceitar tamanho pecador. Mas, a forma mais abominável de todas é a do traidor em suas verdadeiras cores, blasfemando contra Deus e negando insanamente Sua existência. A infidelidade, o deísmo e o ateísmo são os frutos maduros dessa árvore perniciosa; são as erupções mais terríveis do vulcão da incredulidade. A incredulidade atinge sua estatura completa quando abandona a máscara e deixa de lado o disfarce, percorrendo de modo profano a terra, gritando em alta voz a sua rebelião: “Não há Deus”, lutando em vão para sacudir o trono da divindade, levantando o braço contra Jeová e, em sua arrogância
“arrebatando da Sua mão a balança e a vara
revertendo a Sua justiça — sendo o deus de Deus”
E então, finalmente, a incredulidade atinge a perfeição, e vemos como ela realmente é, pois sua menor forma é da mesma natureza da maior.
            Fico surpreso e, com certeza vocês também ficarão, quando lhes disser que há algumas pessoas esquisitas neste mundo que não acreditam que incredulidade é pecado. Eu as chamo de esquisitas porque são sadias na fé em todos os outros aspectos, mas, para tornar consistentes os artigos da sua confissão de fé, como imaginam, negam a pecaminosidade da incredulidade. Lembro-me de um jovem que entrou numa roda de amigos e ministros que discutiam sobre se quem não acredita no evangelho tem pecado. Enquanto debatiam, o rapaz lhes disse: “Cavalheiros, estou na presença de cristãos? Vocês acreditam na Bíblia, ou não”? Eles responderam: “Sim, somos cristãos, é claro”. “Então”, disse ele, “a Escritura não diz do pecado: ‘porque não creram em mim’? E o pecado não condena os pecadores porque não acreditam em Cristo”? É difícil acreditar que haja pessoas tão tolas a ponto de dizer que “não é pecado um pecador não crer em Cristo”. Por mais que queiram valorizar seus sentimentos, não dá para imaginar que possam dizer uma mentira para sustentar uma verdade e, em minha opinião, é exatamente  isso o que elas estão fazendo. A verdade é uma torre poderosa e jamais terá necessidade de ser apoiada pelo erro. A Palavra de Deus se opõe a todo artifício humano.  Eu nunca inventaria um sofisma para provar que não é pecado o ímpio não crer, pois tenho certeza de que é, quando as Escrituras me ensinam: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo. 3:19), e quando leio: “o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”. Eu afirmo, e a Palavra de Deus declara: a incredulidade é pecado, sim! Certamente, para pessoas racionais e imparciais, não é preciso uma discussão para provar esse ponto. Por ventura, não é pecado uma criatura duvidar da palavra de quem o fez? Não é um crime e insulto à Divindade que eu, um átomo, um grãozinho de pó, ouse negar Suas palavras? Não é o cúmulo da arrogância e do orgulho um filho de Adão dizer, mesmo no seu íntimo: “Deus, duvido da tua graça; duvido do teu amor; duvido do teu poder”? Ah, cavalheiros, creiam-me, mesmo que todos os pecados — assassinato, blasfêmia, luxúria, adultério, fornicação, e tudo o que há de mais abjeto — sejam unidos numa única e vasta bola negra de corrupção, ainda assim isso não é igual ao pecado da incredulidade. A incredulidade é a rainha de todos os pecados, a quintessência da culpa, a mistura do veneno de todos os crimes, a borra do vinho de Gomorra, o pecado acima de todos os outros pecados, a obra-prima de Satanás, o trabalho de mestre do diabo.
            Nesta manhã, portanto, tentarei mostrar por alguns momentos a terrível natureza do pecado da incredulidade.
            1.  Em primeiro lugar, o pecado da incredulidade irá parecer extremamente hediondo quando nos lembrarmos de que ele é a origem de todas as outras iniquidades. Não há crime que não seja gerado por ele. A queda do homem, em grande parte, creio ter sido devido a ele. Foi exatamente onde o diabo tentou Eva. Ele lhe disse: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim”? Ele sussurrou e lançou a dúvida: “É assim que Deus disse”? Isso equivale a dizer: “Tem certeza de que foi isso mesmo”? Foi pela incredulidade — uma brechinha de nada — que vieram todos os outros pecados; a curiosidade e tudo o mais; Eva tocou o fruto e a destruição entrou no mundo. Desde aquela época, a incredulidade tem sido a origem prolífica de toda culpa. Um incrédulo é capaz dos crimes mais hediondos já cometidos. Incredulidade, cavalheiros! Este foi o motivo do coração endurecido de faraó; a incredulidade deu licença à língua blasfema de Rabsaqué; sim, e se tornou deicida e assassinou Jesus. Incredulidade! Ela afia a faca do suicida! Prepara taças de veneno; leva milhares à forca; e muitos chegam a uma sepultura vergonhosa por matarem a si mesmos e se apresentarem diante do tribunal do Criador com as mãos sujas de sangue; tudo por causa da incredulidade. Mostre-me um incrédulo — diga-me que ele duvida da Palavra de Deus — que não acredita nas Suas promessas e nas Suas ameaças e, com esta premissa, chegarei à conclusão de que ele se tornará, pouco a pouco, culpado dos crimes mais vis e hediondos, a menos que haja um incrível poder restritivo sobre ele. Ah, sim, esse também é um pecado de Belzebu; como Belzebu, ele é o líder de todos os espíritos malignos. Está escrito que Jeroboão pecou e fez pecar a Israel; e também se pode dizer que a incredulidade não somente peca por si mesma, mas gera outros pecados. Ela é a origem de todos os crimes, a semente de todas as transgressões. Na verdade, tudo que é vil e maligno se encontra numa só palavra — incredulidade.
Deixem-me dizer ainda que a incredulidade no cristão tem a mesma natureza da incredulidade no pecador. Ela não é a mesma no resultado final, pois, no cristão, será perdoada; sim, perdoada: ela foi colocada sobre a cabeça do antigo bode emissário, expulsa e apedrejada; mas é da mesma natureza pecaminosa. Na verdade, se há um pecado ainda mais abominável que a incredulidade de um pecador é a incredulidade de um santo, pois um santo duvidar da palavra de Deus — não confiar nEle — depois de tantas demonstrações do Seu amor, depois de milhares de provas da Sua misericórdia, é pior que qualquer outra coisa. Num santo, além do mais, a incredulidade é a raiz de outros pecados. Quando sou perfeito na fé, serei perfeito em tudo mais; sempre cumprirei os preceitos se sempre acreditar na promessa. No entanto, porque minha fé é fraca, eu peco. Quando estou com problemas, se abro os braços e digo: “Jeová-Jiré, o Senhor proverá”, ninguém me encontrará usando meios espúrios para fugir deles. Mas, se estou com dificuldades e aflições passageiras, e não confio em Deus, o que vem depois? Talvez eu venha a roubar ou fazer algo desonesto para me livrar das garras dos credores; ou, se não fizer esse tipo de coisa, talvez mergulhe em excessos para afogar minha ansiedade. Quando a fé se vai, as rédeas ficam soltas, e quem pode controlar um cavalo desgovernado sem rédeas ou freios? Como o carro do sol, com Fáeton como condutor, é assim que somos sem fé[1]. A incredulidade é a mãe do vício; é a fonte do pecado; e, por isso, digo que é um mal mortífero — é o pecado dos pecados.
            2. Mas, em segundo lugar, a incredulidade não apenas gera o pecado, ela também o fomenta. Como podem os homens continuar em seus pecados sob o trovejar do pregador do Sinai? Como, quando um Boanerges está atrás do púlpito e, pela graça de Deus, vocifera: “maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei” — como, ao ouvir as terríveis ameaças da justiça de Deus, pode o pecador continuar endurecido e andando em seus maus caminhos? Vou lhes dizer: é por causa da incredulidade, que impede as ameaças de surtirem efeito sobre ele. Quando nossos sapadores (soldados que abrem trincheiras) e mineiros vão para Sebastopol, não podem trabalhar defronte os muros se não tiverem alguma coisa para protegê-los dos tiros; por isso, eles levantam trincheiras, atrás das quais podem fazer o que quiserem. Com os ímpios acontece a mesma coisa. O diabo lhes dá incredulidade e eles a usam como trincheira para se esconder atrás dela. Ah, pecadores, quando o Espírito Santo derrubar sua incredulidade — quando Ele trouxer à tona a verdade, em demonstração e poder, como a lei irá fustigar a sua alma! Se pelo menos o homem cresse que a lei é santa, e os mandamentos santos, justos e bons, seria sacudido sobre a boca do inferno e não haveria tanta gente esquentando banco e dormindo na casa de Deus; não haveria ouvintes desatentos; nem pessoas indo embora e logo se esquecendo de como é a natureza humana. Ah, uma vez expulsa a incredulidade, os canhões de artilharia da lei atacariam o pecador e seriam muitos os mortos da parte do Senhor. Além do mais, como os homens podem ouvir o convite da cruz do Calvário e não vir a Cristo? Como é que, quando falamos sobre os sofrimentos de Jesus e concluímos dizendo: “ainda há tempo”; quando falamos sobre a cruz e a paixão de Cristo, não há quebrantamento no coração das pessoas? Dizem que
A lei e os terrores só fazem endurecer
Em todo o tempo trabalham sozinhos
A sensação do perdão comprado pelo sangue
Até o coração de pedra pode dissolver
Creio que a história do Calvário é suficiente para arrebentar uma rocha. As pedras realmente se partiram ao ver a morte de Jesus. Creio que a tragédia do Gólgota é suficiente para fazer até uma pedreira romper em lágrimas e o mais duro pecador chorar de arrependimento; no entanto, mesmo falando e repetindo isso muitas e muitas vezes, quem se preocupa? Quem se importa? Cavalheiros, vós vos sentais aí despreocupados, como se isso não tivesse nenhum significado para vós. Ora, olhai e vede tudo que tendes ignorado. A morte de Jesus não vos diz nada? Vós pareceis dizer: “Não, nada”. Por quê? É porque há incredulidade entre vós e a cruz. Se não houvesse esse espesso véu entre vós e os olhos do Salvador, seríeis derretidos pelo Seu olhar de amor. A incredulidade é o pecado que impede o poder do evangelho de trabalhar na vida do pecador: só quando o Espírito Santo quebra essa incredulidade — só quando o Espírito Santo acaba com essa infidelidade e coloca tudo abaixo — é que podemos ver o pecador se aproximar e depositar sua confiança em Jesus.
            3. Há, ainda, um terceiro ponto. A incredulidade incapacita o homem de realizar qualquer boa obra. “Tudo o que não provém de fé é pecado” é uma grande verdade em mais de um sentido. “Sem fé é impossível agradar a Deus”. Vocês nunca me ouvirão dizer uma palavra contra a moral; nem me ouvirão afirmar que a honestidade não é boa; nem que sobriedade também não é; pelo contrário, eu diria que tudo isso é muito louvável; contudo, vou lhes contar o que direi mais adiante: essas coisas são exatamente como as conchas coloridas e brilhantes do Industão: talvez sirvam como dinheiro nas regiões da Índia, mas não na Inglaterra; estas virtudes podem servir aqui embaixo, não lá em cima. Se não temos nada melhor que a nossa própria bondade, jamais entraremos no céu. Algumas tribos hindus usam tirinhas de tecido em lugar de moedas, e eu não teria problema com isso se vivesse por lá; mas, quando venho à Inglaterra, tiras de tecido não são suficientes. Por isso, honestidade, sobriedade e coisas assim, podem ser muito boas entre os homens — e quanto mais, melhor. E vou lhes dizer, tudo que é amável e puro, e de boa reputação, nós devemos ter — mas nada disso nos levará para cima. Tudo isso junto, sem fé, não agrada a Deus. As virtudes, sem fé, são pecados caiados. A obediência, sem fé, se é que é possível, é desobediência disfarçada. Não crer anula tudo. É a mosca no unguento; o veneno na panela. Sem fé, mesmo com todas as virtudes da pureza, toda a benevolência da filantropia, toda a bondade da compaixão altruísta, todos os talentos espetaculares, toda a bravura do patriotismo, e todas as decisões tomadas com convicção — “sem fé é impossível agradar a Deus”. Percebem, então, como a incredulidade é ruim, como ela impede as pessoas de praticar boas obras? Sim, a incredulidade incapacita até os próprios cristãos. Vou lhes contar uma história — uma história da vida de Cristo. Certo homem tinha um filho atormentado, possuído por um espírito maligno. Jesus estava no monte Tabor, transfigurado; por isso, o pai levou o filho aos discípulos do Mestre. O que os discípulos fizeram? Eles disseram: “Vamos expulsá-lo”. Colocaram as mãos sobre o rapaz e tentaram; mas sussurraram entre si: “Será que vamos conseguir”? Logo o jovem perturbado começou a espumar, a rilhar os dentes e se jogar por terra, prisioneiro do seu ataque. O espírito demoníaco dentro dele estava vivo. O diabo estava lá. Em vão eles repetiram o exorcismo, o espírito maligno continuava como um leão na cova, e todas as tentativas feitas não conseguiram tirá-lo de lá. “Saia!”, disseram, mas ele não saiu. “Fora daí!”, gritaram, mas ele continuou imóvel. Os lábios da incredulidade não podem assustar o Maligno, que talvez tenha dito: “A fé eu conheço, Jesus eu conheço, mas vós, quem sois? Vós não tendes fé”. Se eles tivessem fé, como um grão de mostarda, talvez tivessem expulsado o diabo; mas sua fé se fora, por isso, nada puderam fazer. Vejamos também o caso de Pedro. Enquanto teve fé, Ele andou por sobre as ondas do mar. Aquela foi uma caminhada esplêndida; quase o invejo andando por sobre as águas, pois, se ele tivesse continuado, poderia ter cruzado o Atlântico até chegar à América. No entanto, em dado momento, um vagalhão chegou por trás dele, e ele disse: “vou cair”; depois, veio outro e mais outro e ele gritou: “vou afundar”, e pensou — “como posso ser tão presunçoso a ponto de andar por sobre as ondas”? E lá se foi Pedro água abaixo. A fé era seu salva-vidas — seu talismã — ela o sustentava; mas a incredulidade o puxou para baixo. Sabiam que vocês e eu teremos de andar por sobre as águas durante toda a vida? A vida do cristão é um contínuo andar por sobre as águas — a minha, pelo menos, é — e ele seria tragado e devorado por cada onda, não fosse a fé para mantê-lo de pé. No momento em que deixamos de crer, vem a tribulação e nos leva para baixo. Então, por que duvidar?
            A fé alimenta cada virtude; a incredulidade mata todas elas. Milhares de orações são estranguladas ainda no embrião pela incredulidade. A incredulidade é culpada de infanticídio; ela tem aniquilado muitas súplicas infantes; muitas canções de louvor, que teriam embelezado o coro dos céus, têm sido sufocadas por um murmúrio incrédulo; muitas nobres iniciativas, concebidas no coração, têm sido destruídas pela incredulidade antes mesmo de nascer. Muitas pessoas teriam sido missionárias, teriam resistido e pregado com ousadia o evangelho do Mestre, não fosse sua incredulidade. Uma vez que um gigante perde a fé, ele se torna um anão. A fé é o cabelo de Sansão do cristão; quando cortado, seus olhos podem ser vazados — e ele não pode fazer nada.
            4. Nosso próximo ponto é — a incredulidade é punida com rigor. Vamos olhar as Escrituras! Vejo um mundo belo e encantador; os montes sorriem ao sol e os campos se regozijam na luz dourada. Vejo donzelas dançando e jovens cantando. Que linda visão! Mas, vejam, um senhor sério e reverente levanta as mãos e apregoa: “Um dilúvio está vindo para inundar a terra; as fontes do grande abismo se romperão e tudo será coberto. Vejam aquela arca! Há cento e vinte anos venho trabalhando com estas mãos para construí-la; entrem nela e ficarão a salvo”. “Ora, velho, fora com suas profecias malucas! Queremos ser felizes enquanto podemos! Se vier um dilúvio, nós construímos a arca; só que não virá nada; vá dizer isso aos tolos; nós não acreditamos”. Vejam os incrédulos dançando alegremente. Ouvi, incrédulos! Não estais escutando esse barulho estrondoso? As entranhas da terra já começaram a se mover, suas costelas rochosas estão tensas pelas horríveis convulsões em seu interior; vede, elas se rompem sob a enorme pressão e por entre elas jorram torrentes desconhecidas, pois Deus as ocultou no centro da terra. As comportas dos céus se abrem! E chove. Não apenas alguns pingos, mas o céu desaba. Uma verdadeira catarata, como a velha Niágara, rola dos céus com forte estrondo. Ambos — abismo e firmamento — abaixo e acima — juntam as mãos. Incrédulos, onde estais agora? Eis um último remanescente. Um homem — com a esposa agarrada à sua cintura — está no último cume acima d’água. Vocês o veem? A água já está em seus quadris. Ouçam seu último grito de pavor! Ele está flutuando — está se afogando. E, quando Noé olha da arca, não vê mais nada. Nada! É um vazio profundo. “Monstros marinhos procriam e se alojam nos palácios dos reis”. Tudo está destruído, coberto e submerso. O que provocou isso? O que trouxe o dilúvio sobre a terra? A incredulidade. Pela fé Noé escapou do dilúvio. Pela incredulidade o resto do mundo ficou submerso.
Sabiam também que a incredulidade deixou Moisés e Arão fora de Canaã? Eles não deram glória a Deus; bateram na rocha quando deveriam ter falado com ela. Eles não acreditaram: por isso, o castigo caiu sobre eles, eles não herdaram aquela boa terra, pela qual tanto tinham lutado e trabalhado.
            Deixem-me levá-los até onde Moisés e Arão estavam — no vasto e árido deserto. Vamos caminhar por lá durante algum tempo; filhos de pés cansados, seremos como os beduínos errantes e andaremos pelo deserto por alguns momentos. Eis uma ossada embranquecida pelo sol; outra ali e mais outra acolá. O que significam esses ossos secos? Que corpos são esses — de um homem, de uma mulher? E todos aqueles outros? Como vieram parar aqui? Com certeza, algum magnífico acampamento esteve aqui e foi varrido durante a noite por uma ventania, ou por um derramamento de sangue. Ah, não! Não pode ser! Esses ossos são do povo de Israel; são os esqueletos das antigas tribos de Jacó. Eles não puderam entrar em Canaã por causa da sua incredulidade. Não confiaram em Deus. Os espias disseram que eles não podiam conquistar a terra. A incredulidade foi a causa da sua morte. Não foram os anaquins que destruíram Israel; não foi a aridez do deserto que os consumiu; não foi o Jordão que se tornou uma barreira; muito menos os heveus ou jebuseus; foi única e exclusivamente a incredulidade que os manteve do lado de fora de Canaã. Que sentença foi pronunciada sobre Israel, depois de quarenta anos andando pelo deserto: não puderam entrar por causa da sua incredulidade!
Sem me deter em muitos exemplos, vamos nos lembrar também de Zacarias. Ele duvidou e o anjo o deixou mudo. Sua boca foi fechada porque ele não acreditou. Contudo, se quiserem ter a pior imagem dos efeitos da incredulidade — se quiserem ver como Deus a castiga, preciso levá-los ao cerco de Jerusalém, o pior massacre de todos os tempos, quando os romanos derrubaram suas muralhas e mataram os habitantes ao fio da espada, ou os venderam no mercado de escravos. Já ouviram falar da destruição de Jerusalém pelo imperador Tito? Conhecem a tragédia de Massada, quando os judeus mataram uns aos outros a facadas para não cair nas mãos dos romanos? Sabiam que até hoje[2] eles andam errantes pela terra, sem lar e sem pátria? Eles foram cortados, como um ramo é cortado da videira; e por quê? Por causa da sua incredulidade. Quando virem um judeu de semblante triste e sombrio — quando notarem que ele é natural de outro país, andando como exilado em nossa pátria — quando o virem, parem e digam: “Ah, foi a incredulidade que te fez matar a Cristo, e agora te leva a andar como errante; e somente a fé — a fé no nazareno crucificado — pode te devolver à tua pátria, e restaurá-la à sua antiga grandeza”. Vejam, a incredulidade tem na testa a marca de Caim. Deus a odeia; Ele tem desferido duros golpes contra ela e, um dia, vai acabar com ela de uma vez por todas. A incredulidade desonra a Deus. Todos os outros crimes tocam nas coisas de Deus, mas a incredulidade atinge a Sua divindade, contesta a Sua veracidade, nega a Sua bondade, blasfema contra os Seus atributos, mancha o Seu caráter; por isso, de todas as coisas, a que Deus mais odeia é a incredulidade, seja ela qual for.
            5. Agora, para encerrar a questão — pois já me estendi demais neste ponto — deixem-me dizer onde se pode observar a natureza hedionda da incredulidade: ela é um pecado que traz condenação. Existe um pecado pelo qual Cristo não morreu; é o pecado contra o Espírito Santo. Mas há ainda outro pecado pelo qual Cristo nunca fez expiação. Citem qualquer crime do catálogo do mal e vou lhes mostrar pessoas que podem encontrar perdão para ele. Contudo, perguntem-me se quem morreu na incredulidade pode ser salvo, e lhes direi que não há expiação para essa pessoa. Há expiação para a incredulidade do cristão, pois ela é temporária; mas, para a incredulidade final — aquela com a qual a pessoa morre — não há expiação. Vocês podem procurar na Bíblia inteira e descobrirão que não há expiação para quem morre na incredulidade; para essa pessoa não existe misericórdia. Se ela fosse culpada de todos os outros pecados, se tivesse cometido cada um deles, mas cresse, seria perdoada; no entanto, a exceção que traz condenação é esta: ela não tinha fé. Que o diabo a carregue! Ó espíritos malignos, levem-na para baixo! Ela não tem fé, é incrédula; é para tais pessoas que o inferno foi construído. O inferno é a sua porção, a sua prisão; essas pessoas são suas principais prisioneiras, os grilhões estão gravados com seus nomes, e para sempre elas saberão que “quem não crer será condenado”.
II. Isto nos leva a concluir com o CASTIGO.
“Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás” (2 Reis 7:2). Ouve, ó incrédulo! Já viste o teu pecado esta manhã; agora ouve a tua sentença: “Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. Isso é muito comum entre os próprios santos de Deus. Quando não têm fé, eles veem a misericórdia com seus próprios olhos, mas não a comem. Ora, há cereal nesta terra do Egito, mas alguns santos de Deus vêm aqui aos domingos e dizem: “Não sei se o Senhor será comigo ou não”. Outros falam: “Bem, o evangelho foi anunciado, mas não sei se fará alguma diferença”. Eles estão sempre com dúvidas e com medo. Ouça-os quando saem da capela: “Você foi bem alimentado esta manhã?” “Não, eu não”. É claro que não. Tu vês, mas não comes, porque não tens fé. Se tivesses vindo com fé, teríeis recebido pelo menos um bocado. Conheço cristãos que se tornaram tão críticos que, se a porção de alimento que devem receber, na época certa, não estiver cortada em pedaços exatamente iguais, e não for colocada no seu prato de porcelana favorito, eles não a comem. Por isso, saem sem nada, e vão sair até ficarem anêmicos. Eles passarão por aflições, as quais agirão como remédio amargo, e serão obrigados a comer com um gosto horrível na boca; ficarão na prisão por um dia ou dois até seu apetite voltar e, então, quando voltarem a comer, se satisfarão até com o alimento mais comum, servido no prato mais simples, ou até mesmo sem prato. No entanto, a verdadeira razão pela qual o povo de Deus não se alimenta com o ministério do evangelho é porque eles não têm fé. Quando se crê, mesmo não havendo promessa alguma, isso é suficiente; quando se ouve apenas uma coisa boa vinda do púlpito, isso se torna alimento para a alma, pois não é o quanto se ouve, mas o quanto se crê que faz bem para nós — é o que recebemos em nosso coração com fé viva e verdadeira, este é o nosso benefício.
            Contudo, deixem-me aplicar estas coisas principalmente aos não convertidos. Quase sempre eles veem as grandes obras de Deus com os olhos, mas não as comem. Uma porção de gente veio aqui nesta manhã para ver com os olhos, mas duvido muito que todas elas comam. As pessoas não podem comer com os olhos, pois, se pudessem, a maioria estaria bem alimentada. E, espiritualmente, também não podem se alimentar só com os ouvidos ou simplesmente olhando para o pregador; por isso, descobrimos que a maior parte das nossas congregações vem só para ver: “Ah, vamos ouvir o que este tagarela tem a dizer, este caniço agitado pelo vento”. Só que essa gente não tem fé; eles chegam, veem, veem, veem e nunca comem. Tem alguém lá na frente que é convertido; e ali ao lado outro que é chamado pela graça soberana; acolá tem um pobre pecador que chora por estar convicto da sua culpa; outro clama pela misericórdia de Deus, e ainda outro diz: “Sê propício a mim, pecador”. Uma grande obra está sendo realizada nesta capela, mas algumas pessoas não têm a mínima noção do que está acontecendo; pois não há uma obra sendo realizada no seu coração; e por quê? Porque vós pensais que isso é impossível; pensais que Deus não está agindo. Ele não prometeu agir em quem não O honra. A incredulidade vos faz sentar aqui em tempos de reavivamento e derramamento da graça de Deus, impassíveis, sem chamado e sem salvação.
            No entanto, cavalheiros, o pior ainda está por vir! O grande George Whitefield às vezes costumava levantar as mãos e bradar, como eu poderia fazer, mas me falta voz: “A ira vindoura! A ira vindoura!” Não é a ira de agora que vocês devem temer, mas a ira vindoura; e haverá destruição quando “vires com os teus olhos, porém disso não comereis”. Posso até ver aquele último grande dia. A hora da última badalada. Ouço o sino tocando sua melodia fúnebre — o tempo acabou, a eternidade chegou; o mar está agitado, as ondas se elevam com esplendor sobrenatural. Vejo um arco-íris — uma nuvem passando, e nela há um trono, e no trono está assentado um semelhante ao Filho do Homem. Eu o conheço. Ele tem uma balança na mão; bem diante dele estão os livros — o livro da vida, o livro da morte, o livro da lembrança. Vejo Seu esplendor e me regozijo nEle; olho Sua aparência majestosa e sorrio cheio de júbilo, pois Ele vem para ser “admirado por todos os santos”. Mas, eis ali uma multidão de miseráveis, encolhendo-se repulsivamente, tentando se esconder, e ainda assim olhando para Ele, pois seus olhos não conseguem se desviar dAquele a quem traspassaram; mas quando olham, eles gritam “Esconde-nos da face”. Que face? “Rochas, escondam-nos da face”. Que face? A face de Jesus, o homem que morreu, mas que agora vem para julgar. Contudo, não podeis vos esconder da Sua face; precisais ver com os vossos olhos: porém não vos assentareis à Sua direita, vestidos com vestiduras magníficas; e quando o cortejo triunfal de Jesus vier por entre as nuvens, não marchareis com Ele; vós o vereis, mas não estareis lá. Oh, agora me parece que vejo o poderoso Salvador em Sua carruagem, cruzando o firmamento num arco-íris. Vejam como o trotar de seus corcéis faz estremecer o céu, enquanto Ele os dirige por suas colinas. Uma comitiva cingida de branco segue após Ele, e sob as rodas da Sua carruagem Ele arrasta o diabo, a morte e o inferno. Ouçam como aplaudem. Ouçam como proclamam em alta voz: “Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro” (Efésios 4:8). Ouçam como cantam com solenidade: “Aleluia! Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 19:6). Vejam o esplendor da sua aparência; atentem para a coroa nas suas frontes; observem suas vestes alvas como a neve; reparem no êxtase do seu semblante, ouçam como seus cânticos sobem ao céu enquanto o Eterno Se une a eles, dizendo a cada um: “Deleitar-Me-ei em ti com alegria; regozijar-Me-ei em ti com júbilo; desposar-te-ei comigo para sempre com benignidade eterna”. E onde estais vós esse tempo todo? Podeis vê-los lá em cima, mas onde estais vós? Vendo com vossos olhos, mas sem poder comer de tudo aquilo. O banquete de casamento é imenso; as garrafas dos bons vinhos envelhecidos da eternidade são abertas; todos se assentam para festejar com o rei; mas lá estais vós, miseráveis e famintos, sem poder comer. Ah, como torceis as mãos em desespero. Se pelo menos tivésseis uma migalha — seríeis como os cachorrinhos debaixo da mesa de seus donos. No entanto, vós sereis cães no inferno, nunca no céu.
            Para concluir. Parece-me ver-te em algum lugar do inferno, preso a uma rocha, e o abutre do remorso consumindo teu coração; e lá em cima, Lázaro no seio de Abraão. Tu levantas os olhos e vês quem é: “É aquele pobre que ficava no meu monte de lixo e os cães vinham lamber-lhe as feridas; ei-lo lá no céu, enquanto eu estou aqui aflito. É Lázaro, sim, é ele; e eu, que era rico em vida, agora estou aqui no inferno. Pai Abraão, ‘manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua’”. Só que não é assim! Não pode ser assim, não pode! Se existir no inferno alguma coisa pior que todas as outras será a visão dos santos no céu. Dói só de pensar em ver minha mãe no céu enquanto sou banido! Ó, pecador, pensa bem, ver teu irmão no céu — aquele que foi embalado no mesmo berço que tu e que brincava sob a mesma copa das árvores — enquanto tu és banido. Marido, lá está tua esposa no céu, e tu entre os condenados ao inferno. Vês, pai, o teu filho diante do trono? E tu? Maldito de Deus e maldito dos homens, estás no inferno. Ah, o inferno dos infernos será ver nossos amigos no céu e nós mesmos perdidos. Rogo-vos, meus ouvintes, pela morte de Cristo — pela Sua agonia e pelo Seu sangue — pela Sua cruz e pela Sua paixão — por tudo que é santo — por tudo que é sagrado no céu e na terra — por tudo que é solene no tempo e na eternidade — por tudo que é horrível no inferno, ou glorioso no céu — por aquele terrível pensamento, “para sempre” — rogo-vos que guardeis estas coisas no vosso coração, e vos lembreis, se fordes condenados, de que foi a incredulidade que vos condenou. Se vos perderdes, será por não terdes crido em Cristo; e se perecerdes, esta será a gota mais amarga de fel: não crestes no Salvador.
Tradução: Mariza Regina de Souza


[1] Phaeton era filho de Hélios [deus do sol] e da ninfa Climene. Um dia o pai lhe entregou as rédeas do carro do sol e ele aproximou-se tanto da Terra que criou um enorme incêndio, dando o fogo ao homem. Zeus fulminou-o com um raio, e Phaeton precipitou-se sobre o rio Eridano [rio Pó].
[2] Século XIX, época em que Spurgeon pregou este sermão. O estado de Israel foi criado em 1948.

O Sacerdócio Real dos Santos

Sermão nº 10

Ministrado na manhã do domingo de 28 de janeiro de 1855 pelo Rev. Charles H. Spurgeon na Capela da New Park Street, Southwark, Londres, Inglaterra.


“Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra.” Apocalipse 5:10 (NVI)
MÚSICA é uma coisa fascinante. Sei que a música sacra é, pois sinto seu encanto ao entoar este hino maravilhoso. Há uma força na harmonia, um poder mágico na melodia que, ou consomem a alma em contrição ou a enlevam em indizível alegria. Não sei como é com outras pessoas; talvez consigam resistir à influência da música; mas eu não consigo. Quando os santos de Deus, em coro, “entoam a melodia solene” e, quando ouço as doces sílabas brotando dos seus lábios, com ritmo e compasso, sinto-me cheio de júbilo; e, esquecendo-me por um momento das coisas terrenas, pairo no ar em direção ao céu. Se tal é a doçura da música dos santos aqui embaixo, onde há tanta discórdia e pecado para estragar a harmonia, quão doce deve ser o cântico lá de cima, junto com os querubins e serafins. Ah, que canções devem ser aquelas ouvidas pelo Eterno do Seu trono! Quão sublimes devem ser os sonetos que vibram dos lábios dos seres puros e imortais, sem a mácula do pecado, sem a mistura de gemidos: onde gorjeiam hinos de júbilo e alegria, sem a presença de um único suspiro ou gemido ou cuidado mundano. Ah, músicos benditos! Quando irei me juntar a esse coro? Há um hino que diz ━
Ouçam como cantam diante do trono!
e, por vezes, penso poder “ouvir como eles cantam diante do trono”. Fico imaginando o som crescente da melodia do coro, retumbando dos céus como trovão e o som de muitas águas, e quase ouço as notas afinadíssimas, quando os músicos dedilham suas harpas diante do trono de Deus. Ah, mas que pena, era só a minha imaginação. Não podemos ouvi-los agora; estes ouvidos não são adequados para esse tipo de música; se pudéssemos ouvir o som das harpas dos anjos, nossa alma não poderia ser contida em nosso corpo. Temos de esperar até estarmos lá em cima. E, então, purificados, como prata depurada sete vezes, das imundícies terrenas, lavados no precioso sangue do Salvador, santificados pela ação purificadora do Espírito Santo ━
“Todos nós, inculpáveis e perfeitos
Com maravilhosa e divina alegria,
Ante o trono do Pai estaremos”.
“E, no ressoar das mansões celestes
Pelo fragor da divina soberania,
Mais alto que a multidão cantaremos”.
          Nosso amigo João, o mui favorecido apóstolo do Apocalipse, nos deu apenas uma nota da canção do céu; tocaremos essa nota e ela soará repetidamente. Farei vibrar esse diapasão do céu e seus ouvidos ouvirão o tom. “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra”. Que o grande e gracioso Espírito, o qual é a única luz nas trevas, ilumine a minha mente enquanto tento, de forma breve e sucinta, falar sobre esse texto. Vejo três coisas nele: primeiro, os feitos do Redentor ━  “os constituíste”; segundo, as glórias dos santos ━ “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”; terceiro, o futuro do mundo ━ “e eles reinarão sobre a terra”.
            I. Em primeiro lugar, então, temos OS FEITOS DO REDENTOR. Aqueles que estão diante do trono cantam sobre o Cordeiro ━ o Leão da Tribo de Judá, que abriu o livro e desatou os selos ━ “Tu nos constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”. No céu eles não cantam
“Glória, honra, louvor e poder
Sejam a nós para sempre
Pois somos os nossos próprios Redentores ━ Aleluia!”
Eles não louvam a si mesmos; não glorificam a sua própria força; não falam do seu livre-arbítrio e dos seus feitos; eles atribuem a sua salvação, do início ao fim, a Deus. Perguntem-lhes como foram salvos e eles dirão: “Foi  o Cordeiro quem nos tornou o que somos”. Perguntem-lhes de onde vieram suas glórias, e eles falarão: “Elas nos foram dadas por herança pelo Cordeiro que foi morto”. Perguntem-lhes como conseguiram o ouro das suas harpas, e eles contarão: “Foi extraído por Jesus nas minas de agonia e amargura”. Perguntem quem colocou as cordas em suas harpas e eles afirmarão que Jesus usou cada tendão do Seu próprio corpo para fazê-las.  Perguntem-lhes onde lavaram e alvejaram suas vestes, e eles responderão ━
“Naquela fonte cheia do sangue
Derramado das veias do Emanuel”
Algumas pessoas aqui na terra não sabem onde colocar a coroa; mas as do céu sabem. Eles colocam o diadema na cabeça certa; e cantam ━ “Foi Ele quem nos tornou o que somos”.
Bem, amados, não conviria fazer uma observação neste ponto? Pois, “o que temos que não tenhamos recebido”? Quem nos tornou diferentes? Sei que sou um homem justificado; tenho plena certeza disso
“Os terrores da lei e de Deus,
Nada me podem fazer;
Pelo sangue e obediência do meu Salvador
Todas as minhas transgressões foram ocultas”.
Não há pecado contra mim no livro de Deus; todos foram apagados pelo sangue de Cristo; e cancelados pela Sua própria mão. Nada tenho a temer; não posso ser condenado. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus”? Deus não, pois é Ele quem justifica; nem Cristo; pois foi Ele quem morreu. No entanto, se sou justificado, quem me tornou assim? Eu digo ━ “Ele me tornou o que sou”. A justificação, do início ao fim, é de Deus. A salvação vem de Deus somente.
Muitas pessoas aqui são santificadas, mas não totalmente, ainda não foram completamente libertas da sujeira da terra; ainda têm outra lei em seus membros lutando contra a lei da mente; e ainda terão essa lei enquanto forem tabernáculos da fé; não serão perfeitas em sua santificação até estarem lá, diante do trono santo de Deus, onde até mesmo essa imperfeição da alma será tirada, e a depravação carnal, desarraigada. No entanto, amados, há um caráter interior que lhes foi dado; vocês estão crescendo na graça ━ estão progredindo em santidade. Bem, mas quem os fez ter esse progresso? Quem os libertou dessa concupiscência? Quem os resgatou desse vício? Quem os fez dizer adeus às práticas em que estavam mergulhados? Vocês ainda não podem dizer: “Jesus nos fez”! Mas foi Cristo quem fez tudo; ao Seu nome seja a honra, a glória, o louvor e o domínio.
Vamos nos deter por alguns momentos nesta ideia e mostrar como se pode dizer que foi Jesus quem nos tornou assim. Quando foi que Cristo constituiu Seu povo como reis e sacerdotes? Quando se pôde dizer: “e nos constituiu reis e sacerdotes para o nosso Deus”?

  1. Antes de qualquer outra coisa, Ele, praticamente, nos constituiu reis e sacerdotes quando assinou o pacto da graça. Há muito, muito tempo, lá na eternidade, foi escrita pela mão de Deus, a Carta Magna dos santos, e era preciso uma assinatura para validá-la. Havia uma cláusula nesse pacto, a de que o Mediador deveria se encarnar, viver uma vida de sofrimento e, por fim, suportar uma morte de ignomínia; e era preciso uma única assinatura, a assinatura do Filho de Deus, para validar essa aliança, eterna e “em tudo bem definida e segura”. Parece-me até que O vejo neste momento, conforme minha mente imagina o glorioso Filho Deus segurando a pena. Vejam como Seus dedos escrevem o nome; e lá está, em letras eternas━ “O FILHO”! A sagrada ratificação do pacto, o qual é selado e lacrado com o poderoso sinete do Pai celeste. Ó gloriosa aliança, para sempre segura! No momento da assinatura desse magnífico documento, os espíritos diante do trono ━ quero dizer, os anjos ━ talvez tenham retomado o cântico e dito dos eleitos: “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”; e se toda a companhia dos eleitos já tivesse vindo à existência, poderia aplaudir e cantar: “Eis-nos aqui, pois essa assinatura nos constituiu reis e sacerdotes para o nosso Deus”.
  2. Mas Ele não parou por aí. Ele não concordou simplesmente com os termos do pacto; no devido tempo, Ele o satisfez completamente ━ sim, o pacto foi cumprido até o último pingo no i. Jesus disse: “Tomarei o cálice da salvação”; e Ele tomou ━ o cálice da nossa libertação. Suas gotas eram amargas; no fundo havia fel, e na mistura vermelha, havia gemidos, suspiros e lágrimas; mas Ele tomou tudo, cada gole intragável, até a última gota. Tudo se foi. Ele bebeu o cálice da salvação e comeu o pão de aflição. Vejam-nO, enquanto Ele bebe o cálice no Getsêmani, quando o líquido se mistura ao Seu sangue e torna cada gota um veneno cáustico. Vejam como os pés tórridos da dor percorrem Suas veias. Observem como cada nervo é torcido e retorcido em Sua agonia. Reparem na Sua fronte coberta de suor; reparem nas agonias que se seguem nas profundezas da Sua alma. Que os perdidos falem e digam como é o tormento do inferno, mas eles não podem contar como foram os tormentos do Getsêmani. Oh, aquele abismo indescritível! Abriu-se um grande abismo quando o Redentor inclinou a cabeça, quando Se colocou entre a mó superior e a mó inferior da vingança do Pai, e quando Sua alma inteira foi reduzida a pó. Ah! a luta do Homem-Deus ━ o Homem sofredor do Getsêmani! Chorem por Ele, santos ━ chorem por Ele; quando O virem Se erguer no jardim de oração e marchar para a cruz; quando pensarem nEle pendurado no madeiro durante quatro longas horas sob o sol escaldante, oprimido pela ira do Pai ━ quando virem o sangue brotando do Seu lado ━ quando ouvirem o grito de morte: “está consumado!” ━ e quando virem Seus lábios ressecados serem umedecidos somente com fel e vinagre ━ ah! então, prostrem-se diante dessa cruz, curvem-se diante desse sofrimento e digam: “Tu nos fizeste ━ tu nos fizeste como somos; nada somos sem Ti”. A cruz de Jesus é o fundamento da glória dos santos; o Calvário é a terra natal do céu; o céu tem seu berço na manjedoura de Belém; não fossem os sofrimentos e as agonias do Gólgota, jamais teríamos sequer uma bênção. Ah, santos! em cada misericórdia, vejam o sangue do Salvador; olhem para este Livro ━ está respingado com Seu sangue; olhem para esta casa de oração ━ é santificada pelos Seus sofrimentos; olhem para o alimento diário ━ é comprado com Seus gemidos. Que cada misericórdia seja recebida por vocês como um tesouro comprado com sangue; valorizem-no, pois esse sangue vem Dele, e digam sempre: “Tu nos fizeste como somos”.
  3. Amados, nosso Salvador Jesus Cristo completou a grande obra de nos tornar o que somos quando foi assunto ao céu. Se Ele não tivesse subido às alturas e levado cativo o cativeiro, Sua morte teria sido insuficiente. Ele “morreu por causa das nossas transgressões”, mas “ressuscitou por causa da nossa justificação”. A ressurreição do nosso Salvador, em Sua majestade, quando Ele rompeu os grilhões da morte, foi para nós a garantia de que Deus tinha aceitado o Seu sacrifício; e Sua ascenção às alturas foi um tipo e uma figura da verdadeira e real ascenção dos santos, quando Ele vier nas nuvens do julgamento e chamar para Si o Seu povo. Observem o Homem-Deus enquanto Ele sobe para o céu; vejam Sua marcha triunfal no firmamento, enquanto as estrelas O louvam e os planetas dançam em ordem solene; vejam-nO atravessar os territórios desconhecidos do éter até chegar ao sétimo céu, ao trono de Deus; então, ouçam-nO dizer ao Pai: “Já terminei a obra que Me confiaste; aqui estou e os filhos que Me deste; combati o bom combate; completei minha carreira; fiz tudo; cumpri todos os tipos; cumpri todos os itens da aliança; não há um til que eu não tenha realizado, nada foi deixado de fora, tudo está feito”. Enquanto Ele fala, ouçam como eles cantam diante do trono de Deus: “Tu nos constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus: e nós reinaremos sobre a terra”.

Assim, fiz uma breve exposição dos preciosos feitos do Redentor. Lábios impuros não podem se expressar de forma mais elevada; um coração fraco não está à altura desse grandioso tema. Ah, se estes lábios tivessem eloquência e grandiosidade, poderiam falar muito mais dos extraordinários feitos do nosso Redentor.
“Coroai-O! Coroai-O!
Coroas caem bem na fronte do Salvador”.
        II. Agora, em segundo lugar, AS GLÓRIAS DOS SANTOS: “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus”. Os monarcas mais ilustres eram aqueles considerados não só com direito real, mas também com direito ao sumo sacerdócio ━ aqueles reis que poderiam usar tanto a coroa da lealdade como a mitra do sacerdócio, que poderiam segurar tanto o incensário quanto o cetro ━ que poderiam oferecer intercessão pelo povo e governar as nações. Quem é rei e sacerdote é realmente extraordinário; e é assim com o santo honrado, ele não tem somente um dos títulos, ou um dos ofícios, ele tem os dois. Ele não foi constituído somente rei, mas rei e sacerdote; não somente sacerdote, mas sacerdote e rei. O santo tem os dois ofícios conferidos a ele ao mesmo tempo; ele é constituído monarca sacerdotal e sacerdote real.
Falarei primeiro do ofício real dos santos. Eles são REIS. Eles não se tornarão reis lá no céu, eles são reis aqui na terra; pois se o meu texto não diz isso, em outra passagem a Bíblia declara: “sois raça eleita, sacerdócio real”. Nós somos reis. Gostaria que entendessem esse ponto antes de explicar essa ideia. Todo santo do Deus vivo não tem apenas a perspectiva de se tornar rei lá no céu, mas, à vista de Deus, ele já é rei, e deve dizer, em relação a seus irmãos e a si mesmo: Ele “nos constituiu reino e sacerdotes para o nosso Deus; e nós reinaremos sobre a terra”. O cristão é rei. Ele não é semelhante a um rei, ele é rei, de fato e de verdade. Entretanto, tentarei lhes mostrar como ele é rei.
Lembrem-se da sua ascendência real. É incrível como algumas pessoas dão importância aos avós e a outros antepassados distantes. Lembro-me de que no Trinity College, a genealogia de um grande aristocrata ia até Adão, e Adão estava lá, arando o solo ━ o primeiro homem. A descendência era traçada até ele. É claro que não acredito nisso. Já ouvi falar de linhagens que remontam a um passado bem distante. Deixo a critério de vocês, acreditar nisso ou não. Uma linhagem com duques, marqueses, reis e príncipes. Ah, o que algumas pessoas não dariam por uma dinastia dessas! Creio, no entanto, não serem os nossos antepassados, mas nós mesmos o que nos fará brilhar diante de Deus; e não é por saber que temos sangue real ou sacerdotal nas veias, mas por saber que somos uma honra para a nossa raça ━ por andarmos nos caminhos do Senhor e honrarmos Sua igreja e a graça que nos torna dignos de honra. Contudo, como alguns homens se gloriam na sua descendência, eu me gloriarei no fato de os santos terem o antepassado mais magnífico do mundo. Sejam Césares, Alexandres ou mesmo a nossa amada Rainha ━ eu digo que tenho uma linhagem tão nobre quanto a de Sua Majestade, ou do monarca mais imponente deste mundo. Sou descendente do Rei dos reis. O santo pode falar da sua linhagem ━ pode exultar nela, pode se gloriar nela ━ pois ele é filho de Deus, de fato e de verdade. Sua mãe, a igreja, é a noiva de Jesus; ele é um filho do céu nascido de novo: alguém com sangue real do universo. Mesmo a mulher ou homem mais pobre da terra, quando ama a Cristo, é descendente real. Quem tem a graça de Deus no coração tem nobre ascendência. Posso retroceder na minha genealogia e lhe dizer que ela é tão antiga que não tem começo; é mais antiga que todos os registros de homens poderosos juntos, pois meu Pai existe desde a eternidade: portanto, eu realmente tenho direito real e ascendência ancestral.
Por outro lado, os santos, como monarcas, têm uma esplêndida comitiva. Reis e monarcas não podem viajar sem um pouco de pompa. Antigamente, os cortejos eram muito mais suntuosos do que são agora; mas ainda hoje vemos muito esplendor quando a realeza aparece em público. É preciso um tipo especial de cavalo, uma carruagem esplêndida e cavaleiros, com todos os detalhes de grande pompa. Ah, sim, os reis de Deus, aqueles a quem Jesus constituiu reis e sacerdotes para Deus, também têm uma comitiva real. “Oh!”, diz você, “mas vejo alguns deles em andrajos, andando por aí sozinhos, às vezes sem amigos ou alguém para ajudá-los”. Bem, há algum problema com a sua visão. Se tivesse olhos para ver, iria perceber que há uma multidão de anjos sempre guardando cada membro da família comprada pelo sangue. Lembra-se do servo de Elias, que não conseguia divisar o que estava à volta do seu mestre até este lhe abrir os olhos? Só então ele passou a ver os carros e cavalos em torno de Elias. Veja, há cavalos e carros ao meu redor. E, tu, santo do Senhor, aonde quer que estejas, também há cavalos e carros ao teu redor. Naquele quarto, onde nasci, havia anjos para anunciar o meu nascimento nas alturas. Nos mares da tribulação, quando ondas e mais ondas parecem querer me encobrir, os anjos estão lá para levantar minha cabeça; quando eu morrer, quando os amigos enlutados estiverem, chorando, carregando-me para o túmulo, os anjos estarão ao lado do meu caixão e, quando eu for colocado na sepultura, um anjo poderoso ficará e guardará meus restos mortais, e contenderá com o diabo pelo meu corpo. Por que preciso temer? Tenho comigo a companhia dos anjos; e aonde quer que eu vá, magníficos querubins irão à minha frente. Os homens não podem vê-los, mas eu posso, pois “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem”. Nós temos uma comitiva real: somos reis, não só por ascendência, mas também pela nossa comitiva”.
Agora, observem os símbolos e os privilégios dos santos. Reis e príncipes têm certas coisas que, por prerrogativa, são suas. Por exemplo, Sua Majestade, a Rainha da Inglaterra, tem o Palácio de Buckingham, outros palácios, a coroa, o cetro e assim por diante. Mas será que o santo tem um palácio? Tem sim. Eu tenho um palácio! E suas paredes não são de mármore, são de ouro; suas muralhas são de carbúnculos e pedras preciosas; seus baluartes são de rubis; suas pedras são assentadas com argamassa colorida; e ao redor dele há uma profusão de coisas valiosas; os rubis cintilam aqui e ali; sim, as pérolas são as pedras mais comuns em seu interior. Alguns o chamam de mansão; mas também posso chamá-lo de palácio, pois sou um rei. É uma mansão quando olho para Deus, e é um palácio quando olho para os homens; pois é a morada de um príncipe. Observe onde fica este palácio. Não sou um príncipe das Índias ━ não tenho herança em qualquer lugar longínquo imaginado pelos homens ━ não tenho o Eldorado, nem o reino do Preste João; mas ainda tenho o palácio mais importante. Ele fica lá longe, nas colinas do céu; não sei sua posição entre as outras mansões celestiais, mas ele está lá; e eu “sei que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus”.
Será que os cristãos também têm uma coroa? Oh, sim, eles têm; mas não a usam todos os dias. Eles têm uma coroa, mas o dia da sua coroação ainda não chegou. Eles já foram ungidos monarcas, e também já têm certa autoridade e dignidade de monarcas, mas ainda não foram coroados. No entanto, a coroa já está pronta. Deus não tem de mandar os ourives do céu fazê-la; ela já foi feita e está guardada na glória. Deus “guarda para mim a coroa de justiça”. Ah, santo, se pudesses abrir uma porta secreta no céu e entrar na câmara dos tesouros, verias como ela está cheia de coroas. Quando Cortes entrou no palácio de Montezuma, encontrou uma câmara secreta atrás de uma parede, na qual supôs estivesse toda riqueza do mundo, tantas coisas diferentes se encontravam nela. Se você pudesse entrar na casa do tesouro secreta de Deus, quanta riqueza não veria! E perguntaria: “Será que há tantos reis, tantas coroas, tantos príncipes”? Sim, há, e um anjo brilhante lhe diria: “Vê esta coroa? É sua”. E se olhasse na parte interna, você leria: “Feita para um pecador salvo pela graça, cujo nome é…”, e então, mal acreditaria em seus olhos quando visse seu próprio nome gravado nela. Você realmente é rei diante de Deus, pois tem uma coroa guardada no céu. Os santos terão quaisquer símbolos pertencentes a um monarca. Terão mantos brancos; terão harpas de glória; e todas as coisas que fazem a sua realeza; de modo que somos realmente reis; não monarcas de brincadeira, vestidos com mantos púrpura de escárnio e zombaria, saudados com “Salve, rei dos judeus!”, mas monarcas de verdade. “Para o nosso Deus nos constituíste reino e sacerdotes”.
Há ainda outra ideia. Os reis são considerados os mais dignos de honra entre os homens. Eles são sempre admirados e respeitados. Se você disser: “um monarca está aqui”, a multidão abre caminho. Eu mesmo não imponho muito respeito se tentar passar pelo meio de uma multidão; mas, se alguém gritar: “aí vem a Rainha!”, todos se afastam e lhe dão passagem. Um monarca geralmente impõe respeito. Ah, queridos, para nós, os príncipes terrenos são os homens mais dignos do mundo; no entanto, se perguntássemos para Deus, Ele diria: “os meus santos, nos quais me comprazo, estes são os mais dignos de honra”. Não me falem de bijuterias e badulaques; nem de ouro e prata; ou de pérolas e diamantes; não me falem de ancestrais e classes sociais; nem preguem sobre luxo e poder; mas me falem de alguém que é santo do Senhor, e eis aí uma pessoa digna de honra. Deus o respeita, os anjos o respeitam, e o universo um dia também irá respeitá-lo, quando Cristo vier chamá-lo para prestar contas e lhe disser: “Muito bem, servo bom e fiel; entra no gozo do teu senhor”. Talvez você, pecador, despreze um filho de Deus; talvez ria dele; talvez diga que é hipócrita; talvez o chame de santarrão, fanático, beato ou qualquer outra coisa, mas saiba que esses títulos não irão macular sua dignidade ━ ele é a pessoa mais digna da terra, e Deus o considera como tal.
No entanto, algumas pessoas irão dizer: “Gostaria que você pudesse provar a afirmação de que os santos são reis; pois, se fôssemos reis não teríamos tristezas; os reis não são pobres como nós, nem sofrem como nós”. Quem lhe disse isso? Quer dizer que, se fôssemos reis, a vida seria mais fácil? Então os reis não sofrem? Davi não era um rei ungido? E não foi caçado como uma perdiz pelas montanhas? O próprio rei não atravessou chorando o ribeiro de Cedrom, assim como seus companheiros, quando era perseguido por seu filho Absalão? E ele já não era monarca, quando dormiu no chão frio, sem ter onde deitar a não ser a relva úmida? Oh, sim, os reis também sofrem ━ cabeças coroadas também têm aflições. Pois, “que pesada sempre se encontra a fronte coroada!”(1).
Não espere que, por ser rei, você não tenha tristezas. “Não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte”. E é quase sempre assim. Aqui, neste mundo, os santos bebem pouco vinho. Não é próprio dos reis beber o vinho do prazer; não é próprio dos reis embriagar-se e fartar-se das delícias deste mundo. Eles terão alegria suficiente no além, quando o beberão, novo, no reino do Pai. Pobre santo! Pensa nisso. Tu és rei! Eu te rogo, não permitas que isso saia da tua mente; mas, em meio às tuas tribulações, regozija-te nisso. Se tiveres de atravessar o escuro túnel da infâmia, pelo nome de Cristo; se fores ridicularizado e desprezado, regozija-te nisto: “Eu sou rei e todos os domínios da terra serão meus!”
Um último pensamento e fecho este ponto. Os reis têm domínios. Sabem que sou um homem da quinta monarquia? Na época de Cromwell, diziam ter havido quatro monarquias e que uma quinta viria e destruiria todas as outras. Bem, não desejo falar como eles; mas, como eles, creio na vinda de uma quinta monarquia. Até agora houve grandes impérios reclamando o domínio universal, e não haverá outro governo mundial até a volta de Cristo. Jesus, nosso Senhor, será o Rei de toda a terra e governará todas as nações de forma espiritual ou pessoal. Os santos, sendo reis em Cristo, têm direito ao mundo inteiro. Eis-me aqui, nesta manhã, e minha congregação diante de mim. Alguns dizem: “fique onde está e pregue”, e tenho ouvido este conselho, “não saia da sua congregação”. Roland Hill costumava dizer que nunca saiu da sua paróquia; sua paróquia era a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales, e ele nunca a deixou. Suponho que esta seja a minha congregação e de cada ministro do evangelho. Quando virmos uma cidade cheia de pecado e iniquidade, o que devemos fazer? Ela é nossa, devemos ir até lá e avançar contra ela. Quando virmos uma rua ou lugar cheio de gente, onde as pessoas são de má índole, devemos dizer: “Este beco é nosso, vamos até e o tomemos”. Quando virmos uma casa onde as pessoas não receberão o evangelho, devemos dizer: “É a nossa casa, vamos até lá e invistamos contra ela”. Não iremos com o braço forte da lei, nem chamaremos a polícia ou o governo para nos ajudar; mas levaremos conosco “as armas da nossa milícia”, as quais “não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas”. Nós iremos e, pelo Espírito de Deus, venceremos. Se há uma cidade onde as crianças correm pelas ruas, sem educação; nós iremos até lá e pegaremos essas crianças ━ vamos sequestrá-las para Cristo. Teremos uma escola dominical. Se forem crianças pobres que não podem vir à escola dominical, faremos uma escola simples, sem luxo. Nos lugares do mundo onde as pessoas estão mergulhadas na ignorância e na superstição: mandemos missionários para lá. Ah, quem não gosta de missões não conhece a dignidade dos santos. Vejam a Índia, vejam a China. “São nossas”, dizem os santos. Todos os reinos da terra são nossos. “A África é minha bacia de lavar ━ vou conquistar a Ásia. Elas são minhas! Minhas”! “Quem me conduzirá à cidade fortificada”? Não és Tu, Senhor? Deus nos dará o reino de Cristo. O mundo inteiro é nosso; e, pelo poder do Espírito Santo, Baal se dobrará, Nebo se curvará e os deuses dos ímpios, Buda e Brahma, serão subjugados, e todas as nações se dobrarão diante do cetro de Cristo. “Ele nos constituiu reis”.
O segundo ponto, sobre o qual serei muito breve, é: “Tu os constituíste reino e SACERDOTES”. Os santos não são apenas reis, são também sacerdotes. Vou direto ao ponto, sem nenhum prefácio.
Somos sacerdotes, pois os sacerdotes são pessoas divinamente escolhidas, e nós somos. “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”. E nós temos esse chamado e eleição; todos fomos ordenados desde a fundação do mundo. Fomos predestinados para sermos sacerdotes e, no devido tempo, recebemos o chamado especial e eficaz, ao qual não pudemos resistir, e não resistimos, o qual enfim nos conquistou e nos tornou, imediatamente, sacerdotes de Deus. Somos sacerdotes, divinamente constituídos. Quando dizemos isso, não falamos como algumas pessoas, as quais se dizem sacerdotes com o desejo de arrogar para si preeminência. Sempre me oponho ━ preciso deixar isso bem claro ━ a chamar um clérigo, ou qualquer outro pregador, de sacerdote. Não somos melhores do que ninguém. Todos são sacerdotes. Pois, se alguém chegar e disser que é sacerdote, superior àqueles a quem prega ━ isso é falsidade. Detesto a distinção entre clérigos e leigos. Gosto do tipo de sacerdócio bíblico, pois é o ofício ou trabalho do povo, onde todos são sacerdotes; mas abomino os outros tipos. Cada santo do Senhor é um sacerdote no altar de Deus e pode adorá-lO com o incenso da oração e do louvor. Nós somos sacerdotes, cada um de nós, se somos chamados pela graça divina; pois assim somos sacerdotes por divina constituição.
A seguir, somos sacerdotes porque podemos desfrutar das honras divinas. Ninguém, exceto um sacerdote, poderia adentrar ao véu; havia um pátio dos sacerdotes onde ninguém podia entrar, a não ser os chamados. Os sacerdotes tinham certos direitos e privilégios que outras pessoas não tinham. Santo de Jesus. Herdeiro do céu! Tu tens altos e honrosos privilégios, os quais as pessoas do mundo não têm! Porventura, já estiveste dentro do véu em comunhão com Cristo? Já estiveste no átrio da casa do Senhor, o pátio dos sacerdotes, onde Ele tem ensina e Se manifesta a ti? Já? Sim, tu sabes que já; tu desfrutas de constante acesso ao trono de Deus; tens direito de ir lá e dizer tuas mágoas e tristezas nos ouvidos do Senhor. Os desventurados deste mundo não podem ir até lá; os pobres filhos da ira não têm Deus para contar seus problemas. Eles não podem adentrar ao véu; e nem querem entrar: mas tu podes; tu podes se aproximar do ouvido de Deus, balançar o incensário diante do trono e fazer tua petição em nome de Jesus. Outras pessoas não têm tais honras divinas. Tu és divinamente honrado e divinamente abençoado.
          E, para encerrar este ponto, uma última observação: temos um serviço divino a realizar; quero que todos vocês, nesta manhã, pensem nesta capela como um grande altar ━  e, enquanto os torno sacerdotes em exercício e este lugar um templo para sacrifícios ━ observem cuidadosamente o seu ofício. Todos são sacerdotes, pois amam o doce nome do Senhor e têm um grande sacrifício a realizar; não uma propiciação pelos seus pecados, pois isso já foi feito de uma vez por todas, mas um sacrifício de ações de graça. Oh, como é doce aos ouvidos do Senhor as orações do Seu povo! Este é o sacrifício que Ele aceita; e quando os santos hinos sobem em direção ao céu, como são aprazíveis aos Seus ouvidos; pois assim Ele pode dizer: “Meus sacerdotes fazem sacrifícios de louvor”. Mas, vocês sabem, amados, que há uma coisa na qual a maioria de nós tem falhado em nossas oblações diante de Deus? Nós oferecemos as nossas orações e apresentamos o nosso louvor, mas quase não oferecemos os nossos bens para Deus! Hoje cedo, vendo como fazer para torná-los mais liberais, pensei neste texto: “Honra ao SENHOR com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda; e se encherão fartamente os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares”; pensei em lhes mostrar que os nossos bens são do Senhor, que é nosso dever tributar-Lhe uma pequena parte deles e, assim fazendo, poderíamos esperar ter sucesso até nos negócios deste mundo, pois Ele encheria os nossos celeiros e faria transbordar de vinhos os nossos lagares. No entanto, acho desnecessário pregar um sermão sobre coleta ━ é melhor falar sobre a honra e a dignidade do ofertante, pois, assim, vocês podem dar o quanto quiserem, pois o único livre-arbítrio que eu gosto é o livre-arbítrio para ofertar. Permitam-me, então, amados, umas poucas palavras. Deus disse em Sua Palavra que devemos honrá-lO com os nossos bens. Como sacerdote do Senhor, você não vai sacrificar alguma coisa a Ele no dia de hoje? Temos um grande objetivo diante de nós; queremos mais espaço para as pessoas que vêm ouvir o evangelho. Parece importante que, quando tantas pessoas estão reunidas, ninguém vá embora. Não devemos bendizer a Deus por sua vinda? Há um tempo atrás éramos muito poucos e o nosso clamor era: “Quem creu em nossa pregação”? No entanto, Deus nos tem nos concedido grande êxito, nosso ministério tem sido abençoado com a conversão de não poucas almas; temos muitos casos, aqui nesta capela, de corações quebrantados e espíritos contritos; sem dúvida, há muitos mais que desconheço, os quais creio que o bendito Espírito trará no devido tempo. Ah, vocês não lamentam quando algumas pessoas não ouvem a voz do ministério ━ quando vêm e têm de ir embora, talvez para passar o domingo em pecado? Não sabemos para onde elas vão quando não conseguem entrar. O fato é, temos de pensar que esta capela precisa ser ampliada, a fim de haver acomodação para um número maior de pessoas. Ora, sacerdotes, sacrifiquem ao Senhor. Edifiquem a casa do Senhor; que aqueles que cultuam neste santuário ponham a mão na massa; que os tijolos e a argamassa sejam assentados e esta casa fique ainda mais cheia com a glória do Senhor e uma grande congregação.
          III. Agora, vou concluir com O FUTURO DO MUNDO. “E eles reinarão sobre a terra”. Não tenho muito tempo para me deter neste ponto, e tenho certeza de que vocês esperam que eu fale sobre o milênio e o reinado de Cristo. No entanto, de forma alguma falarei sobre isso, pois nada sei a esse respeito. Já ouvi muitas pessoas discutindo sobre esse assunto e, se alguém me mostrar um livro a esse respeito, eu digo: “Ainda não posso lê-lo”. Há pouco tempo, um bom homem escreveu um livro sobre a questão, e um senhor insistiu tanto para eu lê-lo que o comprei só por cortesia; contudo, coloquei o livro na área nobre da minha biblioteca, nas prateleiras mais altas, e lá ele descansa em repouso tranquilo. Não me sinto capaz de trilhar os labirintos desse assunto, e também não creio que aquele respeitável autor possa fazê-lo. É um tema obscuro e tenho lido tantas opiniões diferentes sobre ele que, para mim, tudo é fantasmagoria. Creio em tudo o que a Bíblia diz sobre um futuro glorioso, mas não tenho a intenção de ficar fazendo gráficos o tempo todo. Só uma coisa tomo como certa: um dia os santos reinarão sobre a terra. Para mim, essa verdade parece clara o suficiente, sejam quais forem os diferentes pontos de vista sobre o milênio. Agora os santos não reinam de forma visível; eles são desprezados. Nos tempos antigos, eles foram levados às covas e às cavernas da terra: mas virá o tempo quando os santos serão reis, e os chamados de Deus, príncipes ━ quando as amas serão rainhas, e os aios da igreja de Cristo, reis. A hora está chegando, quando o santo será honrado, não desprezado; e os monarcas, antes inimigos da verdade, serão seus amigos. Os santos reinarão. Eles serão maioria, o reino de Cristo terá a supremacia; não será humilhado ━ este não será mais o mundo de Satanás ━ ele cantará novamente com suas irmãs, as estrelas, e o louvor jamais cessará. Ah, eu creio que virá o dia quando os sinos de domingo ressoarão pelas planícies da África ━ quando as profundezas das selvas da Índia verão os santos de Deus subindo para o santuário; e, estou certo de que as multidões fervilhantes da China irão se reunir nos templos para orar e, como você e eu fazemos, cantarão ao glorioso e eterno Senhor
“Louvai a Deus de quem as bênçãos vêm.”
Oh, dia feliz! Dia feliz! Que venha logo!
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(1) Shakespeare, Henrique IV - Parte II
Tradução: Mariza Regina de Souza