13 de julho - Devocional Matutina

"Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira?"— Jonas 4:9.

A ira nem sempre, ou necessariamente, é pecaminosa, mas, toda vez que ela se revela, tende a aumentar, por isso, é preciso questionar de imediato a sua natureza fazendo a seguinte pergunta: “É razoável essa tua ira?” Nossa resposta pode ser “SIM”. Com frequência, a ira é o estopim dos loucos, mas, por vezes, é o fogo do céu de Elias. É bom quando ficamos irados com o pecado, devido à ofensa cometida contra o nosso bondoso e gracioso Deus; ou com nós mesmos, por continuarmos tão tolos depois de receber tanta instrução divina; ou ainda com os outros, quando a única causa da sua ira é o mal que praticam. Quem não fica com raiva diante da transgressão torna-se coparticipante dela. O pecado é uma coisa odiosa e repulsiva, e nenhum coração renovado pode tolerá-lo com paciência. O próprio Deus Se ira com os ímpios todos os dias, e está escrito em Sua Palavra: “Vós que amais o SENHOR, detestai o mal” (Salmo 97:10). No entanto, com muito maior frequência, deve ser o receio de que a nossa ira não seja recomendável ou justificável; por isso, precisamos responder: “NÃO”. Por que ficamos irritados com as crianças, exaltados com nossos empregados e irados com nossos companheiros? Será que essa ira honra a nossa profissão de fé ou glorifica a Deus? Será que nosso velho coração dominado pelo mal está tentando ganhar terreno, e precisamos resistir a ele com o poder da nossa nova natureza? Muitas pessoas professas dão lugar a seu temperamento como se fosse inútil tentar resistir; no entanto, o crente deve se lembrar de que precisa ser mais que vencedor em todos os sentidos, ou não poderá ser coroado. Se não conseguimos controlar o nosso temperamento, o que a graça fez por nós? Alguém disse ao Sr. Jay que a graça muitas vezes foi enxertada no toco de um caranguejo. “Sim”, disse ele, “mas o resultado não será caranguejos”. Não podemos usar nossa fraqueza natural como desculpa para o pecado, mas precisamos correr para a cruz e orar para que o Senhor crucifique o nosso temperamento e nos renove em bondade e mansidão conforme a Sua própria imagem.

12 de julho - Devocional Vespertina

“Seu reino celestial” ━ 2 Timóteo 4:18
Pense: a cidade do grande Rei é um lugar de serviço ativo. Dia e noite os espíritos redimidos O servem no Seu templo. Eles nunca cessam de realizar a boa vontade do seu Rei. Eles sempre “descansam”, no que diz respeito à tranquilidade e liberdade de preocupações; e nunca “descansam”, no sentido de indolência e inatividade. A Jerusalém de ouro é lugar de comunhão entre todo o povo de Deus. Lá nos assentaremos com Abraão, Isaque e Jacó em comunhão eterna. Lá manteremos conversas em alto nível com a nobre multidão dos eleitos, todos reinando com Aquele que, por Seu amor e braço forte, os conduziu em segurança para casa. Lá não haverá solo, pois no coro todos louvarão ao nosso Rei. O céu é lugar de vitória conquistada. Sempre que tu, cristão, és vitorioso sobre as tuas concupiscências ━ sempre que, após árdua batalha, abates a tentação ━ nessa hora antecipas a alegria que te espera quando o Senhor calcar Satanás a teus pés, e tu fores mais que vencedor por meio dAquele que te amou. O paraíso é um lugar de segurança. Quando desfrutas a plena certeza da fé, tens a garantia daquela gloriosa segurança que será tua quando fores cidadão perfeito da Jerusalém celestial. Ó Jerusalém, doce lar, porto venturoso de minh’alma! Graças, mesmo agora, Àquele cujo amor me ensinou a ansiar por ti; mas, graças ainda mais alto na eternidade, quando eu te possuir.
Minh’alma as uvas provou
E agora anela alcançar
As vinhas do meu Senhor
Onde todos os cachos se pode achar
Na vinha viva e verdadeira
Minh’alma faminta irá festejar
E no fruto divino se banquetear
Uma hóspede eterna da videira.

Tradução: Mariza Regina de Souza

Um Teste para Quem Realmente Busca a Deus



Sermão Nº 2566
Sermão programado para ser lido no Dia do Senhor, 17 de abril de 1898. Pregado por C. H. Spurgeon no Tabernáculo Metropolitano, em Newington, na noite de quinta-feira de 15 de fevereiro de 1883.
“Perguntarão pelo caminho de Sião, de rostos voltados para lá.”
Jeremias 50:5
Esta foi uma profecia de Jeremias a respeito da destruição da Babilônia. Israel e Judá tinham sido levados para o cativeiro pelo poder dominante da época. Os cativos viviam na distante Babilônia e choravam ao se lembrar de Sião. O profeta anuncia que, no dia em que Deus quebrasse o poder da Babilônia e derrubasse seus falsos deuses, chegaria o tempo da volta dos cativos à sua terra natal. Parece uma simples observação, mas, quando nos lembramos do seu significado simbólico, vemos como é cheia de consolo. Por natureza, somos todos cativos do poder de Satanás, do pecado e da morte. Esta é a grande Babilônia que tem mantido cativos até mesmo os eleitos de Deus! E existem multidões, redimidas pelo precioso sangue de Cristo, que ainda estão em cativeiro, sob o poder das trevas. Ora, assim como Israel encontrou consolo e esperança, e tinha expectativa de voltar à terra prometida quando o poder da Babilônia fosse quebrado, também há conforto para todo pecador que deseja escapar do poder do pecado e de Satanás no fato de Cristo ter quebrado o poder do antigo dragão. Eles entraram em combate mortal. Todas as hostes do inferno foram reunidas na terrível e tenebrosa hora em que nosso Campeão, sozinho, O qual foi ungido por Deus para lutar as nossas batalhas, opôs-Se a todos elas e as derrotou! Elas feriram Seu calcanhar, pois Ele deixou Seu corpo sangrando na cruz, mas Ele esmagou a cabeça do Seu arqui-inimigo. Quando bradou “está consumado”, Ele anulou os poderes que se levantaram contra Ele — e a Babilônia foi imediatamente subjugada! Eis a nossa esperança.
Ouça, você que está nas garras de Satanás, você ainda pode vencê-lo pelo sangue do Cordeiro, pois o próprio Cordeiro já o venceu e, todo aquele que confia no Seu grande sacrifício, será mais que vencedor! Ele levou cativo o cativeiro! Ele é o senhor da situação e Seus adversários já foram totalmente derrotados. Adversários Dele, eu disse, mas eles também são seus adversários — portanto, todo pecador que deseja escapar da escravidão de Satanás, crie coragem na esperança das boas novas de que, na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, Yaweh já triunfou sobre o nosso grande inimigo! Ele quebrou o jugo de ferro, para Seus redimidos poderem ir em liberdade! Assim, a destruição da Babilônia está na salvação de Israel.
Observe a seguir as palavras do versículo quatro: “Naqueles dias, naquele tempo, diz o SENHOR, voltarão os filhos de Israel, eles e os filhos de Judá juntamente” — das quais concluo que, quando o coração dos homens se dispõe a buscar ao Senhor, é maravilhoso como eles se tornam amigáveis! Sabemos que os filhos de Israel e os filhos de Judá há muito estavam separados. Cada qual tinha seu próprio rei e quase sempre estavam em guerra. Eles tinham inveja um ao outro, embora devessem ser irmãos. Mas agora, quando Deus começa a lidar com eles e eles começam a buscar a Deus novamente, eles se tornam amigos! Que nós também possamos esquecer as nossas inimizades quando começarmos a nos arrepender da nossa inimizade contra Deus! O momento de perdoar um irmão é quando, nós mesmos, pedimos ao Senhor: “Perdoa as minhas transgressões”. E isso precisa ser feito! Será um grande empecilho para qualquer um que busque a Deus, tentar encontrar o Senhor mas, em seu coração, nutrir ressentimento contra quem o tenha ofendido. Creio haver muitas pessoas que anelam pela paz com Deus; mas elas nunca a encontrarão se antes não fizerem as pazes com seus semelhantes. Lembre-se das palavras de nosso Senhor: “Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta” (Mt. 5:23-24).
Será que você pediria ao grande Rei para perdoar sua dívida colossal quando você mesmo está prestes a pegar seu irmão pelo pescoço só porque ele lhe deve alguns trocados? Bom, certamente você não pensa que Deus ouvirá sua súplica! Não, mas, quando o Senhor atrai as pessoas para Si, é incrível como elas se aproximam umas das outras! Israel e Judá, então, estarão orando e chorando juntos — e buscando o mesmo Senhor. Isso é muito comum em época de avivamento. Alguém se levanta pedindo oração e fica espantado ao descobrir que um irmão, com quem tinha brigado alguns meses antes, também está suplicando por misericórdia! Vizinhos que haviam se desentendido vêm ao Tabernáculo e encontram, juntos, o Salvador, e a partir daí se tornam bons amigos — pois é certo que o Deus que nos reconcilia Consigo mesmo também nos tornará afetuosos uns para com os outros! Atente para isto, então, você que busca o Salvador! Você que é encorajado pelo fato de o poder de Satanás ter sido quebrado: cuide para resolver todas as suas diferenças e ponha um fim a toda inveja e disputa, pois só assim você terá socorro ao buscar o Senhor.
Veja, pois, que o jeito certo de um pecador voltar é buscando ao Senhor em primeiro lugar; e depois, buscando a Sião — ou seja, a igreja, ou o céu, ou o que quer que você entenda por Sião. O versículo quatro diz: “virão e buscarão ao SENHOR, seu Deus”. O livro O Peregrino, de João Bunyan, mostra o caminho para o céu, mas devemos sempre nos lembrar de que ele não escreveu para mostrar aos pecadores o caminho para Cristo, e sim para mostrar o caminho para o céu. Mesmo sendo coisas diferentes, em alguns aspectos são semelhantes, apesar dessa diferença. O caminho para Cristo é: “creia e viva”. O caminho para o céu é, primeiro “creia no Senhor Jesus Cristo”, e então, depois disso, pela Sua graça, continue a conhecer o Senhor, indo de força em força, de graça em graça, até, finalmente, estar preparado para a felicidade eterna. Há uma diferença entre buscar a Cristo e buscar o povo de Cristo que sempre deve ser observada: não se pode buscar o povo de Cristo para se unir a ele, sem, antes de qualquer outra coisa, ter encontrado a Cristo! Quando você crê no Senhor Jesus Cristo, então Cristo é seu e você é salvo! Só depois, vá e una-se à igreja militante aqui embaixo; e, no devido tempo, você se unirá à igreja triunfante lá de cima. No entanto, lembre-se sempre: a primeira coisa que um pecador deve fazer não é buscar o céu, nem unir-se à igreja, mas buscar ao Senhor. Você tem de se reconciliar com o Deus que o fez — você tem de experimentar o poder do único Deus que pode recriá-lo e torná-lo nova criatura em Cristo — você tem de buscar ao Senhor.
“Mas”, diz alguém, “Deus é fogo consumidor”. Sei que é. Portanto, vá Àquele que tudo pode consumir, para que Ele consuma tudo o que em você pode ser consumido e lhe dê uma vida inconsumível, a qual continuará a existir mesmo em meio ao fogo, sem ser consumida! Não há céu sem Deus, não há consciência em paz sem Deus, não há purificação dos pecados sem Deus. O Senhor diz: “Buscai a Minha face”. No entanto, muitos cometem o erro de ir e se unir aos cristãos. Não, não! Voltem — não se pode ir a Deus desse jeito! Primeiro, se entregue ao Senhor e, só depois, “a nós, pela vontade de Deus” (2 Co. 8:5). Antes de qualquer outra coisa, você precisa se unir ao Cabeça; depois aos membros! Em primeiro lugar, Cristo; depois, a Sua igreja. Coloque as coisas na ordem certa — comece e continue como Deus quer que você faça. “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc. 16:16). Que isso fique em sua memória, se você está buscando o Senhor.
Outra observação que se levanta do contexto é: quem busca ao Senhor O busca chorando. “Voltarão os filhos de Israel, eles e os filhos de Judá juntamente; andando e chorando”. Repare na combinação “andando e chorando”. Alguns estão chorando, mas não andando; outros estão andando, mas não chorando. É uma bênção quando temos as duas coisas juntas — aproximando-se de Deus de forma ativa e sentindo profunda tristeza pelo pecado de forma passiva. Existem dois tipos de lágrimas, e creio que quem busca realmente ao Senhor derrama os dois tipos: uma é a lágrima de tristeza por causa do pecado, a outra é a lágrima de alegria por causa do perdão. Gostaria de ter meus olhos cheios de ambas; que, com minha alegria pelo pecado perdoado, eu chore por ter transpassado o Senhor, lamente por ter transgredido a lei de Deus, e ainda assim me regozije por ter sido perdoado! Que vocês também, caros amigos, tenham essas lágrimas em seus olhos! Elas não cegam, pois são como uma lupa reluzente por meio da qual podemos enxergar com mais clareza a misericórdia de Deus.
Alguém aqui já começou a se voltar para o Senhor e sentiu-se mais triste do que nunca? Bem, se isso aconteceu, não fico triste por você, pois é assim que muitas pessoas chegam a Cristo — “andando e chorando”. Os antigos Puritanos costumavam dizer que “o caminho para o céu é uma Cruz de Lágrimas” — com isso eles queriam dizer que o arrependimento é necessário à salvação — e é mesmo! Quem nunca se entristeceu por causa do seu pecado nunca se regozijará no Salvador! E, quanto mais nos alegramos em Cristo, mais tristeza sentimos por causa do pecado. Talvez o derradeiro arrependimento de um homem seja o mais profundo que ele jamais sentiu. Quero dizer, seu ódio pelo pecado será muito maior quando ele estiver às portas do céu do que quando ele viu pela primeira vez o caminho do perdão pelo sacrifício expiatório de Cristo. O arrependimento não é algo manifestado apenas uma vez, cujo efeito é para sempre — arrependimento e fé seguem de mãos dadas durante todo o caminho para o céu! O bom e velho Sir Rowland Hill (professor e reformista britânico, idealizador do selo postal) disse que havia apenas uma coisa sobre o céu que ele lamentava: lá ele não poderia derramar lágrimas de arrependimento, pois Deus enxugará dos olhos toda lágrima. Mas, de qualquer forma, até chegarmos ao céu, que sempre nos arrependamos do pecado, lamentando por sempre cair nele e, ao mesmo tempo, regozijando-nos por sempre sermos perdoados! —
Meus pecados, meus pecados, Salvador!
Quão triste é terem caído sobre Ti,
Vistos por meio da Tua doce paciência
Sinto dez vezes cada um deles.
Sei que todos foram perdoados,
Mas ainda experimento em mim a dor
De toda a angústia e tristeza
Causadas em Ti, meu Senhor.

Bem, com todas estas considerações como preliminar, embora, de fato, façam parte do sermão, chego à porção da Escritura que realmente forma o meu texto — “Perguntarão pelo caminho de Sião, de rostos voltados para lá”. Esta passagem pode ser usada como um teste para quem verdadeiramente busca ao Senhor. Vou apresentar-lhes quatro ou cinco tipos de pessoas que O buscam e algumas que não O buscam de forma alguma.
1. Em primeiro lugar, algumas PESSOAS NÃO PERGUNTAM O CAMINHO DE SIÃO NEM VOLTAM SEUS ROSTOS PARA LÁ.
Talvez haja alguém assim entre aqueles a quem me dirijo agora. Seu relacionamento com Cristo é de total indiferença. Há milhões de pessoas ao nosso redor nessa triste condição. Elas não se opõem abertamente — não pensam o suficiente nas coisas de Cristo para assumir essa posição. Elas se referem às questões eternas como se fossem coisas banais e veem as questões temporais como se fossem muito importantes. Elas chamam a isso de “agarrar a oportunidade” e “buscar o que é mais importante”. No entanto, quanto à sua alma, a Deus, ao céu e à eternidade, elas são totalmente indiferentes.
Vamos pensar, por um minuto ou dois, em relação a que elas são indiferentes. Elas são totalmente indiferentes a Deus. Ele as fez, mas mesmo assim elas acham que não devem nada ao Criador. A cada minuto que vivem, o ar em suas narinas é dom Dele; contudo elas não Lhe dão nenhum retorno — Ele nem sequer está em seus pensamentos. Você sabe que há muitas pessoas vivendo como se Deus não existisse. Isso é terrível, pois Deus irá requerer tudo isso de suas mãos. Tão certo quanto elas vivem, se quebram Suas leis, elas serão punidas. Se negligenciam Sua grande salvação, Ele as castigará. Ele conhece toda a sua indiferença e Se entristece com isso. Ouça, como Ele próprio coloca isso: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Isaías 1:2-3). Não é coisa de somenos ser totalmente indiferente a Cristo, Aquele que amou tanto ao mundo que teve de deixar o céu para não deixá-los perecer; e teve de vir à terra para ser um Homem humilhado, sofredor, desprezado e crucificado, a fim de redimir os homens. Contudo, apesar de tudo o que Ele fez, que deve ter surpreendido os anjos do céu e cativado o coração de todos os homens bons da terra, essas pessoas não se importam —
Nada é para ti, que tudo ignoras?
Nada é para ti que Jesus devesse morrer?
Elas também são totalmente indiferentes com relação a si mesmas. Elas esperam ter problemas na vida, mas, quanto àquilo que nos consola quando passamos por provações, elas não querem nem saber. Elas veem muitas pessoas do povo de Deus passarem por sofrimento, privação e tristeza com calma e tranquilidade, e às vezes ficam curiosas para saber qual é o segredo — mas sua curiosidade não é grande o suficiente para tirá-las da sua indiferença. Muita gente nunca entrou num lugar onde Cristo é pregado. Alguns vizinhos sabem, pelo badalar dos sinos, que é domingo, mas isso é tudo o que o domingo significa para eles. Ah, como isso é triste! Deve ser um peso enorme para cada coração sensível que existam multidões que não perguntam o caminho de Sião, nem se voltam para ele. Como é triste tanta gente ser tão indiferente à sua própria condição eterna! Elas sabem que um dia irão morrer — é raro encontrar alguém que não saiba — e alguns acreditam que, ao morrer, haverá outro estado e um julgamento final e terão de prestar contas diante do tribunal de Deus. No entanto, ainda assim continuam no seu dia a dia “como gado mudo conduzido”. Como o boi vai para o matadouro e como o cordeiro vai para o mercado, do mesmo modo tais pessoas descem à sepultura sem ansiedade e sem pensar.
Infelizmente elas não pensam no despertamento que é tão certo quanto a própria morte, na ressurreição que é um fato indubitável e na temível manifestação diante do trono de Deus, onde os olhos de fogo lerão seus corações e a língua de trovão proclamará suas obras registradas no memorial de Deus. Ah, não, elas não se importam com tudo isso; para elas, tudo é insignificante! E como há gente assim. Tenham compaixão delas, caros amigos, e orem por elas — e façam tudo o que for possível, pois “tais fostes alguns de vós”. Ontem, conversei com uma porção de trabalhadores que, segundo creio, tinham realmente colocado sua fé em Cristo, e fiquei encantado pela forma como foram levados ao Salvador por seus colegas. No entanto, alguns deles, os quais contavam com pelo menos quarenta anos de idade, me disseram não ter orado ou elevado o pensamento a Deus até que o tivesse Se encontrado com eles. E Aquele que pode Se encontrar com alguns, pode Se encontrar com outros também; por isso, sejam as nossas orações para que Ele faça assim para o louvor da glória da Sua graça!
Muitas vezes, quando alguém é indiferente às coisas divinas, é porque em vão imagina ser sábio. Não acho que você e eu devamos nos meter em tudo. Existem coisas que podemos muito bem deixar de lado, mas não em relação a Deus e a eternidade! Posso ser indiferente a Deus, mas Ele não é indiferente a mim. Posso esquecê-lO, mas Ele nunca Se esquece do que eu faço, penso e digo. Tão certo quanto vivo, terei de me apresentar diante do Seu tribunal de justiça. Posso desdenhar de Cristo, mas terei de vê-lO assentado no Seu grande trono branco. E se não O tiver como meu Salvador, então, terei de aparecer diante Dele como meu Juiz — de modo que a minha indiferença seja vã!
Outro pensamento que deveria ocorrer às pessoas é que essa indiferença é uma grande tolice. Quando alguém é indiferente à sua própria felicidade, é realmente um tolo! Se uma pessoa está doente e há um medicamento que pode curá-la, mas ela não liga para isso, ficaríamos muito preocupados e lhe diríamos que ela é muito imprudente. Se uma pessoa extremamente pobre pudesse ficar rica, mas não desse importância a isso, pensaríamos que ela é louca. Ora, não há alegria como a alegria da salvação em Cristo. Não há felicidade debaixo do céu como a felicidade do homem que se coloca nas mãos de Cristo e descansa nEle! Contudo, essas pessoas não se importam com isso. Pobres almas, elas não conhecem o valor de Cristo. Bem disse o poeta —
Se todas as nações conhecessem o Seu valor,
Com certeza o mundo todo O amaria.
E, se conhecessem o prazer da religião, também gostariam de desfrutá-lo. Dizem que somos um povo pobre, melancólico, deprimido. Não acho que pareçamos assim! Parecemos? De qualquer forma, não nos sentimos assim —
Os homens da graça encontraram
Glória mesmo aqui embaixo.
Nossa religião é vibrante, nossa fé é alegre e nos ajuda a superar as tribulações de cada momento. Ah, que essas pessoas não sejam indiferentes a isso, mas comecem a perguntar o caminho de Sião com os rostos voltados para lá!
2. Agora, em segundo lugar, há um grupo de pessoas que PERGUNTA O CAMINHO DE SIÃO COM OS ROSTOS VOLTADOS PARA O OUTRO LADO.
De vez em quando, encontramos algumas pessoas — algumas aqui mesmo — com o rosto voltado para o outro lado, para longe de Deus, mas elas vêm e gostam de ouvir sobre o evangelho. Não consigo compreendê-las — elas se dão ao trabalho de sair no domingo para ouvir o caminho para o céu, contudo andam deliberadamente na direção oposta! Não vou dizer novamente o que disse uma vez, que quase desejava que quem ouve o evangelho durante anos e nunca o aceita deveria ficar longe daqui se não fosse para recebê-lo — a fim de dar lugar a quem quisesse. Sempre lamento ter dito isso, pois, desde então, existe alguém que se afastou — e por cuja conversão sempre oro — o qual me disse haver bom senso em minha observação e, como ele não pretendia receber a salvação, não viria mais ouvir sobre ela. E, até onde sei, ele não veio mesmo. Às vezes tenho a esperança de que sua própria franqueza o ajude a pensar — pois, embora não venha mais, ele ama este lugar e a mim — e peço a Deus que, mesmo o que pareceu uma consequência tão triste do que eu disse, no final das contas, possa resultar em uma coisa boa. Mas não direi aquilo outra vez.
Ainda assim, é muito estranho alguém dizer “fale-me sobre o caminho para o céu”, e quando lhe falamos, a pessoa começa a andar para o outro lado. “Vá para leste”, você diz. Mas ela vai direto para oeste. Qual será a razão disso? Algumas pessoas têm o vício secreto da bebida, ou são lascivas, ou têm vida dupla, mas sempre são vistas ouvindo o evangelho. Por quê? Será que desejam aumentar sua própria condenação? Será que pretendem deliberadamente que o evangelho, o qual não permitirá ser para eles aroma de vida, seja cheiro de morte? Será que realmente preferem isso? Não posso acreditar!
Espero que vocês não venham aqui para ouvir coisas para dar início a uma discussão e criticar o que ouviram. Não se pergunta o caminho de Sião para reclamar dele, ou para encontrar defeitos na resposta de quem tenta responder a pergunta — longe de vocês tal coisa! No entanto, existem alguns que, sem dúvida, são culpados desse pecado. Bem, deixe-me lhes dizer uma coisa: mesmo se vierem para ouvir o sermão e zombar dele, venham e ouçam! Lembro-me de alguém que, posteriormente, tornou-se um cristão muito conhecido, mas quando foi ouvir George Whitefield pela primeira vez foi por ser um grande imitador. Essa pessoa queria ouvir Whitefield para depois imitá-lo num clube que chamavam de “Clube do Fogo do Inferno”. “E agora, companheiros”, disse ele, “vou lhes apresentar um sermão que ouvi ontem de George Whitefield”. E o homem começou a repetir o sermão; no entanto, ele mesmo foi convertido enquanto pregava — e o mesmo aconteceu com vários de seus colegas, os quais tinham se reunido por blasfêmia! Portanto, venha, mesmo que seja por um objetivo tão vil quanto esse! Ainda assim, é muito triste que as pessoas perguntem o caminho de Sião e voltem seus rostos para a direção oposta. Muda-os, ó Deus, e eles serão mudados!
3. Há ainda uma terceira classe de pessoas que PERGUNTA O CAMINHO DE SIÃO, MAS NÃO VOLTA O ROSTO PARA LÁ.
Tais pessoas não são contra a religião, mas seus rostos não estão voltados para ela. Eu não as entendo — estão sempre querendo saber como podem ser salvas e outras coisas relativas à salvação, mas não parecem querer recebê-la — seus rostos não estão nessa direção.
Qual é o significado da sua conduta? Apenas curiosidade? Será que elas querem entender teologia como outras pessoas desejam entender astronomia ou botânica? Isso é quase como tomar um gole de vinho dos cálices sagrados, como fez Belsazar — e todos sabem como naquela mesma noite ele foi morto. Quando alguém, que não tem parte nem interesse neste ministério, discute doutrina e coisas assim, é como se estivesse brincando com o pão dos filhos de Deus, ou deixando-o em migalhas.
Qual é a razão dessas pessoas perguntarem sobre salvação? Será por pensarem que um simples conhecimento do assunto as salvará? Há alguém aqui pensando que um credo ortodoxo pode salvá-lo? Sinto muito, mas creio não haver ninguém mais ortodoxo que o diabo; contudo, com certeza, ninguém está mais perdido do que ele! Você pode ter uma mente brilhante, mas se não tiver um coração puro, ela lhe será de nenhuma valia no final. Você pode conhecer os Catecismos de Westminster de cor e salteado e, com todo entusiasmo, confrontar quem se desvia da sã doutrina; no entanto, se não nascer de novo, isso de nada lhe adiantará. Você diz crer nos 39 artigos da Religião (da Igreja Anglicana)? Um deles é indispensável — “é preciso nascer de novo” — e ai do homem que não passou por essa mudança importantíssima!
Pode ser, no entanto, que alguns que perguntam o caminho de Sião, mas não voltam seus rostos para lá, estejam perguntando apenas para aquietar sua consciência. Isso os faz se sentir melhor ao ouvir um sermão. Mas que gente estranha! Eis um homem faminto — será que seu apetite é saciado quando ele sente o cheiro da comida, quando vê os pratos serem colocados na mesa e quando ouve o tinir dos talheres? Será que se alguém for extremamente pobre, ficará rico só de andar pelos corredores do Banco da Inglaterra e saber que há ali grande quantidade de dinheiro? É muito estranho pensar desse modo, pois isso pode aumentar, não diminuir, a sensação de pobreza — saber que há tanta riqueza e não ter parte nela.
Será que você está tentando acumular um pouco de conhecimento para ir usando aos poucos? Você está perguntando pelo caminho de Sião para andar por ele quando lhe for conveniente? Ah, meu caro, está tentando se aproveitar de Deus? Está pretendendo deixá-lO em stand-by enquanto você cuida de coisas mais importantes? O que por vir antes de Deus? Conheci um homem que, em diversos aspectos, era muito religioso; no entanto, havia uma meretriz entre ele e Deus. Conheci outro que pensava muito em Deus, mas, no seu caso, era um copo de vinho e a companhia de certos amigos que se interpunham entre ele e Deus. Ah, tantas coisas são terrenas, sensuais e malignas — mas, ainda assim, as pessoas dizem que Deus precisa esperar até que tenham aproveitado todas elas! Cavalheiro, Deus não lhe servirá de lacaio! E pode até acontecer o que aconteceu com Félix (Atos 24) — você nunca terá uma hora conveniente para Deus — e Deus nunca terá uma hora conveniente para você! Oh! Não deixe ser assim! Se perguntar o caminho de Sião, volte seu rosto para lá.
4. Há também um quarto grupo de pessoas que VOLTAM SEUS ROSTOS PARA SIÃO, MAS NÃO PERGUNTAM O CAMINHO.
Talvez nesta categoria não haja tantas pessoas quanto nas anteriores, mas há algumas. Elas estão decididas a ser salvas. Estão ansiosas para ter um encontro com Cristo. Querem se unir à igreja. Desejam, acima de tudo, alcançar o céu… mas não perguntam o caminho para lá. Será que imaginam haver tantos assim? Quantos caminhos levam ao céu? Este Livro declara que há um só! Ele diz: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co. 3:11). E o próprio Cristo afirma: “Eu sou o caminho”. Ele não diz “Eu sou um dos caminhos”, mas “Eu sou O caminho”. Acabei de citar uma das últimas declarações de Cristo: “quem crer e for batizado será salvo” (Mc. 16:16). Bem, suponha que a pessoa não creia, o que vem então? “Quem, porém, não crer será condenado”. Veja, portanto, que o ensino de Jesus não tolera qualquer tipo de concessão! Ele não admite haver outros caminhos para o céu e outros meios de salvação. “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (Atos 16:31). “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (João 3:18). Muitas pessoas, se forem filhos de pais crentes, seguirão o pai e a mãe no bom caminho. Mas, se forem filhos de pais ímpios, elas os imitam. Se meu pai fosse cego, não vejo razão pela qual deveria arrancar meus olhos. E, se alguém tem pais extremamente pobres, será que diria: “Bem, nem vou tentar melhorar minha condição. Vou ser tão pobre quanto eles e ser feliz desse jeito”? É óbvio que não! Então, por que você deveria seguir seus pais em pecar contra Deus? Se o pai está errado, quanto maior razão para o filho ser determinado a fazer o que é certo! Já existe muita gente perdida na sua família — por que não ser o primeiro a ser salvo, se não houver outros? Pense nisto, é importante. Pergunte o caminho de Sião.
Então, você diz: “Onde devo perguntar”? Bem, em primeiro lugar, pergunte ao Livro —
Eis o árbitro que põe fim à discussão,
Onde faltam a lógica e a razão,
Nosso guia para a eterna vida
Pelo vale escuro desta lida.
Após consultar o Livro, ajoelhe-se e consulte o Espírito bendito que inspirou o Livro! Se você não consegue entender a Bíblia, peça ao Seu Autor para explicá-la a você. Ele dá sabedoria, por isso, peça orientação ao Espírito Santo. Peça ao Senhor Jesus Cristo para Se manifestar a você como Ele não Se manifesta ao mundo, e para guiá-lo em Seu caminho. Também posso lhe dizer, mas isso é totalmente secundário, consulte os Seus servos. Vá e ouça o evangelho! Não vá aonde a pregação é legal e inteligente — a menos que o verdadeiro evangelho esteja sendo pregado lá. O povo da Inglaterra conseguiu junto ao Parlamento a aprovação de leis contra a venda de produtos adulterados — e, em Londres, as pessoas tentam comprar leite que contenha pelo menos um pouco de leite — mas, mesmo assim, elas vão ao culto e dizem: “Esse pregador é inteligente”. Sim, ele é, mas e o evangelho pregado por ele? “O órgão daqui é muito bom!” E o evangelho, é proclamado na íntegra? “Podemos ver as cores do arco-íris nas costas dos irmãos que ministram no altar”. Sim, mas o evangelho é pregado nesse altar? Tudo depende disso — o resto pouco importa. Eles podem tentar nos vender o que quiserem, mas se não for um artigo genuíno, nós não compraremos — se não for o evangelho, o que podemos querer com ele? Queremos aquilo que realmente irá nos salvar, agora e por toda a eternidade; é isso que pedimos a quem prega o evangelho, que pregue nada além do evangelho.
Também posso acrescentar que você fará muito bem em perguntar sobre o caminho para pessoas que fazem parte do povo de Deus. Embora não sejam pregadoras, de bom grado poderão lhe dizer o que sabem e, muitos homens e mulheres piedosas podem lhe explicar justamente o que você precisa saber. Gosto de ver as pessoas quando elas, sinceramente, procuram algum amigo cristão e dizem: “Você pode me dizer como posso ter um encontro com Cristo”? É muito bom ouvir uma jovem perguntar à professora da sua classe ou a alguma crente mais madura: “Irmã, você pode tirar minhas dúvidas? A senhora tem uma boa carreira a caminho do céu — pode me dizer o que tenho de fazer”? É uma coisa boa, portanto, fazer perguntas àqueles que já estão na estrada. Muitas vezes, desta forma, você pode ter suas concepções erradas corrigidas, e antes de se desviar muito, pode ser dirigido para o caminho certo.
5. Agora, para encerrar, os melhores indagadores são aqueles que VOLTAM SEUS ROSTOS PARA SIÃO E TAMBÉM ESTÃO DISPOSTOS A PERGUNTAR O CAMINHO.
É esta a sua condição, caro amigo? Já voltou seu rosto para Cristo, para a uma vida de santidade e para o céu, e está perguntando o caminho para lá? Bem, então, deixe-me lhe dizer duas ou três coisas para encorajá-lo. A primeira é: agradeça a Deus por seu rosto estar voltado para lá e por você estar perguntando o caminho
Minha busca pela Sua face
É somente pela Sua graça,
disse alguém. E é exatamente isso. Agradeça a Deus pela graça que o faz sentir-se inquieto ao pecar, pela graça que o faz desejar mais graça, pela graça que o faz almejar ser cristão! Dê muito valor a essa pequena graça, pois, de forma alguma, ela é pequena; e, quando pensar nela, bendiga a Deus por ela!
Lembre-se, em seguida, de que você deve agir como sabe que deve agir. Se o Senhor lhe mostrou o caminho certo, siga por ele. Talvez você diga: “Mas é muito difícil”. As dificuldades não importam — cruze cada ponte quando chegar nela. “Mas há muitas coisas que não entendo”! Sem dúvida que há! E há muitas coisas que eu também não entendo. E algumas delas, em particular, nem quero entender! Se eu compreender aquilo que diz respeito ao meu bem-estar eterno, ao bem dos meus amigos e à glória Deus, para mim isso é suficiente. Até aqui, posso dizer, com Jack, o vendedor ambulante[1]
Sou um pobre pecador, nada mais,
Cristo, porém, é meu Tudo em Tudo.
O mapa da estrada me trouxe até aqui e eu gostaria de lhe dizer para segui-lo, pelo menos por enquanto. “Mas eu quero conhecer tudo sobre a doutrina da eleição e outras coisas mais”. Quer mesmo? Bem, um dia você conhecerá, mas, neste momento, não é preciso pensar tanto nessa gloriosa verdade de Deus quanto no fato de que Deus enviou Seu Filho ao mundo para que os homens pudessem viver por meio Dele! Siga essa linha da Verdade por enquanto. Você tem o rosto voltado para Sião, portanto, siga em frente! Você me perguntou o caminho e eu lhe ensinei o suficiente para saber que Cristo é o caminho — então, deixe-O ser o seu caminho. E, se houver algo mais a aprender — e há — Deus há de lhe mostrar.
De algumas das grandes doutrinas do evangelho, nosso Senhor poderia lhe falar como falou a Seus discípulos: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12). Você irá suportá-las, mas aos poucos. Quando seu filho ganha sua primeira cartilha, ele começa a choramingar e dizer: “Não quero aprender o alfabeto, mamãe; meu irmão já está aprendendo outra língua, por que eu também não posso?” E aí, você diz: “Querido, aprenda o alfabeto agora e, com o tempo, se for necessário, aprenderá outra língua”. Por isso, caro amigo, guarde apenas textos como estes: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Tm. 1:15); “quem crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36). Se você está perguntando o caminho de Sião com o rosto voltado para lá, lembre-se de que o Senhor já preparou o caminho. Ele sabia que pés trôpegos passariam por ele, por isso, removeu todas as pedras. Ele sabia que haveria alguns viajantes de olhos embotados, por isso Ele pôs no alto um lampião reluzente e Ele, Ele mesmo, é a sua Lâmpada! Ele sabia que você teria de suportar um fardo pesado até começar a trilhar o caminho estreito, por isso, Ele tinha um sepulcro aberto perto da cruz, para que quem quer que olhasse para Ele lá no Calvário pudesse sentir o fardo sendo tirado das suas costas e enterrado naquele sepulcro, para nunca mais ser encontrado! Ah, caro amigo, corra pelo caminho que Jesus preparou! Creia, creia, CREIA, CREIA! Este é o caminho — CREIA! Creia em Deus como seu Pai! Creia em Cristo como seu Redentor! Creia no Espírito Santo como seu Renovador! Isso tem a ver com você! Isso tem a ver com seu Deus, seu Salvador, seu Consolador! Creia em Jesus Cristo e você encontrou o caminho! Você está salvo, seus pecados estão perdoados, você é “aceito no Amado”. Você ainda não foi para o céu, mas irá, no tempo de Deus. Você ainda não se uniu à igreja visível de Cristo, mas será bem-vindo nela — não deixe para depois. Você ainda não se uniu à igreja triunfante, mas um dia se unirá. Portanto, tenha bom ânimo, e que o Senhor o abençoe! Amém e amém.
Tradução e Revisão: Mariza Regina de Souza


[1] Famoso bêbado blasfemo que vendia quinquilharias de porta-em-porta, o qual ouviu uma mulher cantando esse refrão e, quando chegou em casa, começou a repeti-lo, sendo convertido a Cristo. Essa história era sempre repetida por Spurgeon em seus sermões (fonte: http://www.sermonaudio.com/new_details3.asp?ID=25463)

O Pecado da Incredulidade

Sermão nº 03


Ministrado na manhã do domingo de 4 de janeiro de 1855, pelo
Rev. C. H. Spurgeon, na Capela da 
New Park Street, Southwark, Londres, Inglaterra



Aquele capitão respondera ao homem de Deus: Ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia suceder isso, segundo essa palavra? Dissera o profeta: Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. ━ 2 Reis 7:19

Um sábio pode livrar uma cidade inteira; um justo pode ser segurança para milhares de outras. Os santos são “o sal da terra”, o meio de preservação dos perversos. Sem aqueles que temem a Deus para conservá-la, a raça humana seria totalmente destruída. Na cidade de Samaria havia um homem temente a Deus — Eliseu, o servo do Senhor. Toda piedade fora extinta da corte. O rei era um pecador da pior espécie, sua iniquidade era flagrante e infame. Jeorão andava nos caminhos de seu pai, Acabe, e tinha feito para si falsos deuses. O povo de Samaria estava caído como seu monarca: eles tinham se afastado de Jeová; tinham abandonado o Deus de Israel; não mais se lembravam do lema de Jacó: “o Senhor teu Deus é o único Deus”; e, em vil idolatria, tinham se dobrado aos deuses dos ímpios; por isso, o Senhor dos Exércitos os entregou à opressão de seus inimigos até a maldição de Ebal se cumprir nas ruas de Samaria, pois “a mais mimosa das mulheres e a mais delicada do teu meio, que de mimo e delicadeza não tentaria pôr a planta do pé sobre a terra”, olhava com maldade para seus próprios filhos e devorava sua descendência por causa da fome extrema (Dt. 28:56-58). Nessa situação terrível, aquele único santo foi o meio de salvação. Aquele único grão de sal preservou toda uma cidade; aquele único guerreiro de Deus foi o meio para livrar todo um povo sitiado. Por amor a Eliseu, o Senhor prometeu que, no dia seguinte, o alimento que não poderia ser comprado por qualquer preço seria adquirido por preço insignificante — à porta de Samaria. Podemos imaginar a alegria daquela multidão quando ouviu o vidente fazendo esta predição. Eles sabiam que ele era profeta do Senhor; ele tinha as credenciais divinas; todas as suas profecias anteriores tinham se cumprido. Eles sabiam que ele era um homem enviado por Deus e que proclamava a mensagem de Jeová. Com certeza, os olhos do monarca brilhavam de prazer, e a multidão esfomeada dava pulos de alegria ante a perspectiva de se ver livre da fome com tanta rapidez. “Amanhã”, gritavam, “amanhã nossa fome será saciada e faremos uma grande festa”.
            No entanto, o capitão em cujo braço o rei se apoiava, manifestou sua incredulidade. O texto não diz que foi uma pessoa do povo, um plebeu, que não acreditou, mas sim um aristocrata. Pode parecer estranho, mas Deus raramente escolhe os grandes homens deste mundo. Cargos elevados e a fé em Cristo raramente combinam. Aquele homem importante disse: “Impossível!” e, com um insulto ao servo de Deus, acrescentou: “Ainda que o SENHOR fizesse janelas no céu, poderia suceder isso, segundo essa palavra”? Seu pecado reside no fato de que, mesmo após repetidos sinais no ministério de Eliseu, ele ainda não acreditava na garantia dada pelo profeta em nome do Senhor. Sem dúvida, ele tinha visto a maravilhosa derrota de Moabe; tinha ficado perplexo diante da notícia da ressurreição do filho da sunamita; ele sabia que Eliseu tinha revelado os segredos de Ben-Hadade e ferido seu exército de cegueira; ele tinha visto o bando de sírios atraídos para o meio de Samaria; e, provavelmente, conhecia a história da viúva, cujo azeite encheu todas as vasilhas e resgatou seus filhos. Além do mais, a cura de Naamã devia ser a conversa mais corriqueira da corte. Ainda assim, mesmo com todas essas evidências, e com todas as credenciais do profeta, aquele homem duvidou e, de forma ofensiva, disse-lhe que os céus precisavam se tornar janelas abertas antes da promessa poder se cumprir. Por isso, Deus pronunciou sua sentença pela boca do mesmo homem que tinha acabado de declarar a promessa: “Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. E a Providência, que sempre cumpre a profecia, assim como o papel sempre leva a marca do tipo impresso — destruiu o homem. Um tropel desceu pelas ruas de Samaria e ele morreu às suas portas, vendo toda a fartura, mas sem poder prová-la. Talvez sua carruagem tenha sido imponente demais e tenha insultado o povo; ou talvez ele tenha tentado impedir o tumulto; ou ainda, como diríamos, talvez tenha sido apenas um acidente, mas o certo é que ele foi pisoteado até a morte, para que visse a profecia cumprida mas não pudesse desfrutá-la. No seu caso, ver foi crer, mas não desfrutar.
            Nesta manhã, quero chamar sua atenção para duas coisas — o pecado do homem e seu castigo. Talvez eu fale um pouco sobre este homem, já que tenho os detalhes das circunstâncias, mas o foco será o pecado da incredulidade e sua punição.
I.  Em primeiro lugar, o PECADO
            O pecado daquele homem foi a incredulidade. Ele duvidou da promessa de Deus. No seu caso específico, a incredulidade assumiu a forma de dúvida quanto à veracidade divina, ou desconfiança sobre o poder de Deus. Ou ele não acreditou que Deus queria dizer realmente o que disse, ou achou que a promessa estava dentro de uma série de possibilidades. A incredulidade tem mais fases que a lua e mais cores que um camaleão. O povo costuma dizer que às vezes vê o diabo de uma forma, outras de outra. Estou certo de que isso é verdade quanto à primogênita de Satanás — a incredulidade, pois suas formas são legião. Às vezes, eu a vejo disfarçada de anjo de luz. Ela chama a si mesma de humildade, e diz: “Seria presunção da minha parte. Não ouso pensar que Deus possa me perdoar. Tenho pecados demais”. Chamamos a isso de humildade e agradecemos a Deus por nosso amigo estar em tão boas condições. Eu não agradeço a Deus por esse tipo de ilusão. É o mal disfarçado de anjo de luz. No fim das contas, é pura incredulidade. Outras vezes, detectamos a incredulidade na forma de uma dúvida sobre a imutabilidade de Deus. “O Senhor me ama, mas talvez amanhã me abandone. Ele me ajudou ontem e, debaixo de Suas asas, posso confiar; mas talvez eu não receba Seu auxílio da próxima vez. Talvez Ele me abandone ou não se lembre da Sua aliança, e Se esqueça de ser gracioso”. Às vezes, esse tipo de infidelidade está embutido na dúvida sobre o poder de Deus. Todos os dias enfrentamos novos problemas e nos envolvemos com uma série de dificuldades, e pensamos: “Com certeza, Ele não pode nos ajudar”. Nós lutamos para nos livrar dos nossos fardos e descobrimos que nada podemos fazer, aí, então, pensamos que o braço de Deus é tão curto quanto o nosso, e Seu poder tão fraco quanto o nosso. Uma forma assustadora de incredulidade é a dúvida que impede as pessoas de virem a Cristo, que leva o pecador a desconfiar da capacidade de Deus de salvá-lo, a duvidar da disposição de Jesus de aceitar tamanho pecador. Mas, a forma mais abominável de todas é a do traidor em suas verdadeiras cores, blasfemando contra Deus e negando insanamente Sua existência. A infidelidade, o deísmo e o ateísmo são os frutos maduros dessa árvore perniciosa; são as erupções mais terríveis do vulcão da incredulidade. A incredulidade atinge sua estatura completa quando abandona a máscara e deixa de lado o disfarce, percorrendo de modo profano a terra, gritando em alta voz a sua rebelião: “Não há Deus”, lutando em vão para sacudir o trono da divindade, levantando o braço contra Jeová e, em sua arrogância
“arrebatando da Sua mão a balança e a vara
revertendo a Sua justiça — sendo o deus de Deus”
E então, finalmente, a incredulidade atinge a perfeição, e vemos como ela realmente é, pois sua menor forma é da mesma natureza da maior.
            Fico surpreso e, com certeza vocês também ficarão, quando lhes disser que há algumas pessoas esquisitas neste mundo que não acreditam que incredulidade é pecado. Eu as chamo de esquisitas porque são sadias na fé em todos os outros aspectos, mas, para tornar consistentes os artigos da sua confissão de fé, como imaginam, negam a pecaminosidade da incredulidade. Lembro-me de um jovem que entrou numa roda de amigos e ministros que discutiam sobre se quem não acredita no evangelho tem pecado. Enquanto debatiam, o rapaz lhes disse: “Cavalheiros, estou na presença de cristãos? Vocês acreditam na Bíblia, ou não”? Eles responderam: “Sim, somos cristãos, é claro”. “Então”, disse ele, “a Escritura não diz do pecado: ‘porque não creram em mim’? E o pecado não condena os pecadores porque não acreditam em Cristo”? É difícil acreditar que haja pessoas tão tolas a ponto de dizer que “não é pecado um pecador não crer em Cristo”. Por mais que queiram valorizar seus sentimentos, não dá para imaginar que possam dizer uma mentira para sustentar uma verdade e, em minha opinião, é exatamente  isso o que elas estão fazendo. A verdade é uma torre poderosa e jamais terá necessidade de ser apoiada pelo erro. A Palavra de Deus se opõe a todo artifício humano.  Eu nunca inventaria um sofisma para provar que não é pecado o ímpio não crer, pois tenho certeza de que é, quando as Escrituras me ensinam: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (Jo. 3:19), e quando leio: “o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus”. Eu afirmo, e a Palavra de Deus declara: a incredulidade é pecado, sim! Certamente, para pessoas racionais e imparciais, não é preciso uma discussão para provar esse ponto. Por ventura, não é pecado uma criatura duvidar da palavra de quem o fez? Não é um crime e insulto à Divindade que eu, um átomo, um grãozinho de pó, ouse negar Suas palavras? Não é o cúmulo da arrogância e do orgulho um filho de Adão dizer, mesmo no seu íntimo: “Deus, duvido da tua graça; duvido do teu amor; duvido do teu poder”? Ah, cavalheiros, creiam-me, mesmo que todos os pecados — assassinato, blasfêmia, luxúria, adultério, fornicação, e tudo o que há de mais abjeto — sejam unidos numa única e vasta bola negra de corrupção, ainda assim isso não é igual ao pecado da incredulidade. A incredulidade é a rainha de todos os pecados, a quintessência da culpa, a mistura do veneno de todos os crimes, a borra do vinho de Gomorra, o pecado acima de todos os outros pecados, a obra-prima de Satanás, o trabalho de mestre do diabo.
            Nesta manhã, portanto, tentarei mostrar por alguns momentos a terrível natureza do pecado da incredulidade.
            1.  Em primeiro lugar, o pecado da incredulidade irá parecer extremamente hediondo quando nos lembrarmos de que ele é a origem de todas as outras iniquidades. Não há crime que não seja gerado por ele. A queda do homem, em grande parte, creio ter sido devido a ele. Foi exatamente onde o diabo tentou Eva. Ele lhe disse: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim”? Ele sussurrou e lançou a dúvida: “É assim que Deus disse”? Isso equivale a dizer: “Tem certeza de que foi isso mesmo”? Foi pela incredulidade — uma brechinha de nada — que vieram todos os outros pecados; a curiosidade e tudo o mais; Eva tocou o fruto e a destruição entrou no mundo. Desde aquela época, a incredulidade tem sido a origem prolífica de toda culpa. Um incrédulo é capaz dos crimes mais hediondos já cometidos. Incredulidade, cavalheiros! Este foi o motivo do coração endurecido de faraó; a incredulidade deu licença à língua blasfema de Rabsaqué; sim, e se tornou deicida e assassinou Jesus. Incredulidade! Ela afia a faca do suicida! Prepara taças de veneno; leva milhares à forca; e muitos chegam a uma sepultura vergonhosa por matarem a si mesmos e se apresentarem diante do tribunal do Criador com as mãos sujas de sangue; tudo por causa da incredulidade. Mostre-me um incrédulo — diga-me que ele duvida da Palavra de Deus — que não acredita nas Suas promessas e nas Suas ameaças e, com esta premissa, chegarei à conclusão de que ele se tornará, pouco a pouco, culpado dos crimes mais vis e hediondos, a menos que haja um incrível poder restritivo sobre ele. Ah, sim, esse também é um pecado de Belzebu; como Belzebu, ele é o líder de todos os espíritos malignos. Está escrito que Jeroboão pecou e fez pecar a Israel; e também se pode dizer que a incredulidade não somente peca por si mesma, mas gera outros pecados. Ela é a origem de todos os crimes, a semente de todas as transgressões. Na verdade, tudo que é vil e maligno se encontra numa só palavra — incredulidade.
Deixem-me dizer ainda que a incredulidade no cristão tem a mesma natureza da incredulidade no pecador. Ela não é a mesma no resultado final, pois, no cristão, será perdoada; sim, perdoada: ela foi colocada sobre a cabeça do antigo bode emissário, expulsa e apedrejada; mas é da mesma natureza pecaminosa. Na verdade, se há um pecado ainda mais abominável que a incredulidade de um pecador é a incredulidade de um santo, pois um santo duvidar da palavra de Deus — não confiar nEle — depois de tantas demonstrações do Seu amor, depois de milhares de provas da Sua misericórdia, é pior que qualquer outra coisa. Num santo, além do mais, a incredulidade é a raiz de outros pecados. Quando sou perfeito na fé, serei perfeito em tudo mais; sempre cumprirei os preceitos se sempre acreditar na promessa. No entanto, porque minha fé é fraca, eu peco. Quando estou com problemas, se abro os braços e digo: “Jeová-Jiré, o Senhor proverá”, ninguém me encontrará usando meios espúrios para fugir deles. Mas, se estou com dificuldades e aflições passageiras, e não confio em Deus, o que vem depois? Talvez eu venha a roubar ou fazer algo desonesto para me livrar das garras dos credores; ou, se não fizer esse tipo de coisa, talvez mergulhe em excessos para afogar minha ansiedade. Quando a fé se vai, as rédeas ficam soltas, e quem pode controlar um cavalo desgovernado sem rédeas ou freios? Como o carro do sol, com Fáeton como condutor, é assim que somos sem fé[1]. A incredulidade é a mãe do vício; é a fonte do pecado; e, por isso, digo que é um mal mortífero — é o pecado dos pecados.
            2. Mas, em segundo lugar, a incredulidade não apenas gera o pecado, ela também o fomenta. Como podem os homens continuar em seus pecados sob o trovejar do pregador do Sinai? Como, quando um Boanerges está atrás do púlpito e, pela graça de Deus, vocifera: “maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei” — como, ao ouvir as terríveis ameaças da justiça de Deus, pode o pecador continuar endurecido e andando em seus maus caminhos? Vou lhes dizer: é por causa da incredulidade, que impede as ameaças de surtirem efeito sobre ele. Quando nossos sapadores (soldados que abrem trincheiras) e mineiros vão para Sebastopol, não podem trabalhar defronte os muros se não tiverem alguma coisa para protegê-los dos tiros; por isso, eles levantam trincheiras, atrás das quais podem fazer o que quiserem. Com os ímpios acontece a mesma coisa. O diabo lhes dá incredulidade e eles a usam como trincheira para se esconder atrás dela. Ah, pecadores, quando o Espírito Santo derrubar sua incredulidade — quando Ele trouxer à tona a verdade, em demonstração e poder, como a lei irá fustigar a sua alma! Se pelo menos o homem cresse que a lei é santa, e os mandamentos santos, justos e bons, seria sacudido sobre a boca do inferno e não haveria tanta gente esquentando banco e dormindo na casa de Deus; não haveria ouvintes desatentos; nem pessoas indo embora e logo se esquecendo de como é a natureza humana. Ah, uma vez expulsa a incredulidade, os canhões de artilharia da lei atacariam o pecador e seriam muitos os mortos da parte do Senhor. Além do mais, como os homens podem ouvir o convite da cruz do Calvário e não vir a Cristo? Como é que, quando falamos sobre os sofrimentos de Jesus e concluímos dizendo: “ainda há tempo”; quando falamos sobre a cruz e a paixão de Cristo, não há quebrantamento no coração das pessoas? Dizem que
A lei e os terrores só fazem endurecer
Em todo o tempo trabalham sozinhos
A sensação do perdão comprado pelo sangue
Até o coração de pedra pode dissolver
Creio que a história do Calvário é suficiente para arrebentar uma rocha. As pedras realmente se partiram ao ver a morte de Jesus. Creio que a tragédia do Gólgota é suficiente para fazer até uma pedreira romper em lágrimas e o mais duro pecador chorar de arrependimento; no entanto, mesmo falando e repetindo isso muitas e muitas vezes, quem se preocupa? Quem se importa? Cavalheiros, vós vos sentais aí despreocupados, como se isso não tivesse nenhum significado para vós. Ora, olhai e vede tudo que tendes ignorado. A morte de Jesus não vos diz nada? Vós pareceis dizer: “Não, nada”. Por quê? É porque há incredulidade entre vós e a cruz. Se não houvesse esse espesso véu entre vós e os olhos do Salvador, seríeis derretidos pelo Seu olhar de amor. A incredulidade é o pecado que impede o poder do evangelho de trabalhar na vida do pecador: só quando o Espírito Santo quebra essa incredulidade — só quando o Espírito Santo acaba com essa infidelidade e coloca tudo abaixo — é que podemos ver o pecador se aproximar e depositar sua confiança em Jesus.
            3. Há, ainda, um terceiro ponto. A incredulidade incapacita o homem de realizar qualquer boa obra. “Tudo o que não provém de fé é pecado” é uma grande verdade em mais de um sentido. “Sem fé é impossível agradar a Deus”. Vocês nunca me ouvirão dizer uma palavra contra a moral; nem me ouvirão afirmar que a honestidade não é boa; nem que sobriedade também não é; pelo contrário, eu diria que tudo isso é muito louvável; contudo, vou lhes contar o que direi mais adiante: essas coisas são exatamente como as conchas coloridas e brilhantes do Industão: talvez sirvam como dinheiro nas regiões da Índia, mas não na Inglaterra; estas virtudes podem servir aqui embaixo, não lá em cima. Se não temos nada melhor que a nossa própria bondade, jamais entraremos no céu. Algumas tribos hindus usam tirinhas de tecido em lugar de moedas, e eu não teria problema com isso se vivesse por lá; mas, quando venho à Inglaterra, tiras de tecido não são suficientes. Por isso, honestidade, sobriedade e coisas assim, podem ser muito boas entre os homens — e quanto mais, melhor. E vou lhes dizer, tudo que é amável e puro, e de boa reputação, nós devemos ter — mas nada disso nos levará para cima. Tudo isso junto, sem fé, não agrada a Deus. As virtudes, sem fé, são pecados caiados. A obediência, sem fé, se é que é possível, é desobediência disfarçada. Não crer anula tudo. É a mosca no unguento; o veneno na panela. Sem fé, mesmo com todas as virtudes da pureza, toda a benevolência da filantropia, toda a bondade da compaixão altruísta, todos os talentos espetaculares, toda a bravura do patriotismo, e todas as decisões tomadas com convicção — “sem fé é impossível agradar a Deus”. Percebem, então, como a incredulidade é ruim, como ela impede as pessoas de praticar boas obras? Sim, a incredulidade incapacita até os próprios cristãos. Vou lhes contar uma história — uma história da vida de Cristo. Certo homem tinha um filho atormentado, possuído por um espírito maligno. Jesus estava no monte Tabor, transfigurado; por isso, o pai levou o filho aos discípulos do Mestre. O que os discípulos fizeram? Eles disseram: “Vamos expulsá-lo”. Colocaram as mãos sobre o rapaz e tentaram; mas sussurraram entre si: “Será que vamos conseguir”? Logo o jovem perturbado começou a espumar, a rilhar os dentes e se jogar por terra, prisioneiro do seu ataque. O espírito demoníaco dentro dele estava vivo. O diabo estava lá. Em vão eles repetiram o exorcismo, o espírito maligno continuava como um leão na cova, e todas as tentativas feitas não conseguiram tirá-lo de lá. “Saia!”, disseram, mas ele não saiu. “Fora daí!”, gritaram, mas ele continuou imóvel. Os lábios da incredulidade não podem assustar o Maligno, que talvez tenha dito: “A fé eu conheço, Jesus eu conheço, mas vós, quem sois? Vós não tendes fé”. Se eles tivessem fé, como um grão de mostarda, talvez tivessem expulsado o diabo; mas sua fé se fora, por isso, nada puderam fazer. Vejamos também o caso de Pedro. Enquanto teve fé, Ele andou por sobre as ondas do mar. Aquela foi uma caminhada esplêndida; quase o invejo andando por sobre as águas, pois, se ele tivesse continuado, poderia ter cruzado o Atlântico até chegar à América. No entanto, em dado momento, um vagalhão chegou por trás dele, e ele disse: “vou cair”; depois, veio outro e mais outro e ele gritou: “vou afundar”, e pensou — “como posso ser tão presunçoso a ponto de andar por sobre as ondas”? E lá se foi Pedro água abaixo. A fé era seu salva-vidas — seu talismã — ela o sustentava; mas a incredulidade o puxou para baixo. Sabiam que vocês e eu teremos de andar por sobre as águas durante toda a vida? A vida do cristão é um contínuo andar por sobre as águas — a minha, pelo menos, é — e ele seria tragado e devorado por cada onda, não fosse a fé para mantê-lo de pé. No momento em que deixamos de crer, vem a tribulação e nos leva para baixo. Então, por que duvidar?
            A fé alimenta cada virtude; a incredulidade mata todas elas. Milhares de orações são estranguladas ainda no embrião pela incredulidade. A incredulidade é culpada de infanticídio; ela tem aniquilado muitas súplicas infantes; muitas canções de louvor, que teriam embelezado o coro dos céus, têm sido sufocadas por um murmúrio incrédulo; muitas nobres iniciativas, concebidas no coração, têm sido destruídas pela incredulidade antes mesmo de nascer. Muitas pessoas teriam sido missionárias, teriam resistido e pregado com ousadia o evangelho do Mestre, não fosse sua incredulidade. Uma vez que um gigante perde a fé, ele se torna um anão. A fé é o cabelo de Sansão do cristão; quando cortado, seus olhos podem ser vazados — e ele não pode fazer nada.
            4. Nosso próximo ponto é — a incredulidade é punida com rigor. Vamos olhar as Escrituras! Vejo um mundo belo e encantador; os montes sorriem ao sol e os campos se regozijam na luz dourada. Vejo donzelas dançando e jovens cantando. Que linda visão! Mas, vejam, um senhor sério e reverente levanta as mãos e apregoa: “Um dilúvio está vindo para inundar a terra; as fontes do grande abismo se romperão e tudo será coberto. Vejam aquela arca! Há cento e vinte anos venho trabalhando com estas mãos para construí-la; entrem nela e ficarão a salvo”. “Ora, velho, fora com suas profecias malucas! Queremos ser felizes enquanto podemos! Se vier um dilúvio, nós construímos a arca; só que não virá nada; vá dizer isso aos tolos; nós não acreditamos”. Vejam os incrédulos dançando alegremente. Ouvi, incrédulos! Não estais escutando esse barulho estrondoso? As entranhas da terra já começaram a se mover, suas costelas rochosas estão tensas pelas horríveis convulsões em seu interior; vede, elas se rompem sob a enorme pressão e por entre elas jorram torrentes desconhecidas, pois Deus as ocultou no centro da terra. As comportas dos céus se abrem! E chove. Não apenas alguns pingos, mas o céu desaba. Uma verdadeira catarata, como a velha Niágara, rola dos céus com forte estrondo. Ambos — abismo e firmamento — abaixo e acima — juntam as mãos. Incrédulos, onde estais agora? Eis um último remanescente. Um homem — com a esposa agarrada à sua cintura — está no último cume acima d’água. Vocês o veem? A água já está em seus quadris. Ouçam seu último grito de pavor! Ele está flutuando — está se afogando. E, quando Noé olha da arca, não vê mais nada. Nada! É um vazio profundo. “Monstros marinhos procriam e se alojam nos palácios dos reis”. Tudo está destruído, coberto e submerso. O que provocou isso? O que trouxe o dilúvio sobre a terra? A incredulidade. Pela fé Noé escapou do dilúvio. Pela incredulidade o resto do mundo ficou submerso.
Sabiam também que a incredulidade deixou Moisés e Arão fora de Canaã? Eles não deram glória a Deus; bateram na rocha quando deveriam ter falado com ela. Eles não acreditaram: por isso, o castigo caiu sobre eles, eles não herdaram aquela boa terra, pela qual tanto tinham lutado e trabalhado.
            Deixem-me levá-los até onde Moisés e Arão estavam — no vasto e árido deserto. Vamos caminhar por lá durante algum tempo; filhos de pés cansados, seremos como os beduínos errantes e andaremos pelo deserto por alguns momentos. Eis uma ossada embranquecida pelo sol; outra ali e mais outra acolá. O que significam esses ossos secos? Que corpos são esses — de um homem, de uma mulher? E todos aqueles outros? Como vieram parar aqui? Com certeza, algum magnífico acampamento esteve aqui e foi varrido durante a noite por uma ventania, ou por um derramamento de sangue. Ah, não! Não pode ser! Esses ossos são do povo de Israel; são os esqueletos das antigas tribos de Jacó. Eles não puderam entrar em Canaã por causa da sua incredulidade. Não confiaram em Deus. Os espias disseram que eles não podiam conquistar a terra. A incredulidade foi a causa da sua morte. Não foram os anaquins que destruíram Israel; não foi a aridez do deserto que os consumiu; não foi o Jordão que se tornou uma barreira; muito menos os heveus ou jebuseus; foi única e exclusivamente a incredulidade que os manteve do lado de fora de Canaã. Que sentença foi pronunciada sobre Israel, depois de quarenta anos andando pelo deserto: não puderam entrar por causa da sua incredulidade!
Sem me deter em muitos exemplos, vamos nos lembrar também de Zacarias. Ele duvidou e o anjo o deixou mudo. Sua boca foi fechada porque ele não acreditou. Contudo, se quiserem ter a pior imagem dos efeitos da incredulidade — se quiserem ver como Deus a castiga, preciso levá-los ao cerco de Jerusalém, o pior massacre de todos os tempos, quando os romanos derrubaram suas muralhas e mataram os habitantes ao fio da espada, ou os venderam no mercado de escravos. Já ouviram falar da destruição de Jerusalém pelo imperador Tito? Conhecem a tragédia de Massada, quando os judeus mataram uns aos outros a facadas para não cair nas mãos dos romanos? Sabiam que até hoje[2] eles andam errantes pela terra, sem lar e sem pátria? Eles foram cortados, como um ramo é cortado da videira; e por quê? Por causa da sua incredulidade. Quando virem um judeu de semblante triste e sombrio — quando notarem que ele é natural de outro país, andando como exilado em nossa pátria — quando o virem, parem e digam: “Ah, foi a incredulidade que te fez matar a Cristo, e agora te leva a andar como errante; e somente a fé — a fé no nazareno crucificado — pode te devolver à tua pátria, e restaurá-la à sua antiga grandeza”. Vejam, a incredulidade tem na testa a marca de Caim. Deus a odeia; Ele tem desferido duros golpes contra ela e, um dia, vai acabar com ela de uma vez por todas. A incredulidade desonra a Deus. Todos os outros crimes tocam nas coisas de Deus, mas a incredulidade atinge a Sua divindade, contesta a Sua veracidade, nega a Sua bondade, blasfema contra os Seus atributos, mancha o Seu caráter; por isso, de todas as coisas, a que Deus mais odeia é a incredulidade, seja ela qual for.
            5. Agora, para encerrar a questão — pois já me estendi demais neste ponto — deixem-me dizer onde se pode observar a natureza hedionda da incredulidade: ela é um pecado que traz condenação. Existe um pecado pelo qual Cristo não morreu; é o pecado contra o Espírito Santo. Mas há ainda outro pecado pelo qual Cristo nunca fez expiação. Citem qualquer crime do catálogo do mal e vou lhes mostrar pessoas que podem encontrar perdão para ele. Contudo, perguntem-me se quem morreu na incredulidade pode ser salvo, e lhes direi que não há expiação para essa pessoa. Há expiação para a incredulidade do cristão, pois ela é temporária; mas, para a incredulidade final — aquela com a qual a pessoa morre — não há expiação. Vocês podem procurar na Bíblia inteira e descobrirão que não há expiação para quem morre na incredulidade; para essa pessoa não existe misericórdia. Se ela fosse culpada de todos os outros pecados, se tivesse cometido cada um deles, mas cresse, seria perdoada; no entanto, a exceção que traz condenação é esta: ela não tinha fé. Que o diabo a carregue! Ó espíritos malignos, levem-na para baixo! Ela não tem fé, é incrédula; é para tais pessoas que o inferno foi construído. O inferno é a sua porção, a sua prisão; essas pessoas são suas principais prisioneiras, os grilhões estão gravados com seus nomes, e para sempre elas saberão que “quem não crer será condenado”.
II. Isto nos leva a concluir com o CASTIGO.
“Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás” (2 Reis 7:2). Ouve, ó incrédulo! Já viste o teu pecado esta manhã; agora ouve a tua sentença: “Eis que tu o verás com os teus olhos, porém disso não comerás”. Isso é muito comum entre os próprios santos de Deus. Quando não têm fé, eles veem a misericórdia com seus próprios olhos, mas não a comem. Ora, há cereal nesta terra do Egito, mas alguns santos de Deus vêm aqui aos domingos e dizem: “Não sei se o Senhor será comigo ou não”. Outros falam: “Bem, o evangelho foi anunciado, mas não sei se fará alguma diferença”. Eles estão sempre com dúvidas e com medo. Ouça-os quando saem da capela: “Você foi bem alimentado esta manhã?” “Não, eu não”. É claro que não. Tu vês, mas não comes, porque não tens fé. Se tivesses vindo com fé, teríeis recebido pelo menos um bocado. Conheço cristãos que se tornaram tão críticos que, se a porção de alimento que devem receber, na época certa, não estiver cortada em pedaços exatamente iguais, e não for colocada no seu prato de porcelana favorito, eles não a comem. Por isso, saem sem nada, e vão sair até ficarem anêmicos. Eles passarão por aflições, as quais agirão como remédio amargo, e serão obrigados a comer com um gosto horrível na boca; ficarão na prisão por um dia ou dois até seu apetite voltar e, então, quando voltarem a comer, se satisfarão até com o alimento mais comum, servido no prato mais simples, ou até mesmo sem prato. No entanto, a verdadeira razão pela qual o povo de Deus não se alimenta com o ministério do evangelho é porque eles não têm fé. Quando se crê, mesmo não havendo promessa alguma, isso é suficiente; quando se ouve apenas uma coisa boa vinda do púlpito, isso se torna alimento para a alma, pois não é o quanto se ouve, mas o quanto se crê que faz bem para nós — é o que recebemos em nosso coração com fé viva e verdadeira, este é o nosso benefício.
            Contudo, deixem-me aplicar estas coisas principalmente aos não convertidos. Quase sempre eles veem as grandes obras de Deus com os olhos, mas não as comem. Uma porção de gente veio aqui nesta manhã para ver com os olhos, mas duvido muito que todas elas comam. As pessoas não podem comer com os olhos, pois, se pudessem, a maioria estaria bem alimentada. E, espiritualmente, também não podem se alimentar só com os ouvidos ou simplesmente olhando para o pregador; por isso, descobrimos que a maior parte das nossas congregações vem só para ver: “Ah, vamos ouvir o que este tagarela tem a dizer, este caniço agitado pelo vento”. Só que essa gente não tem fé; eles chegam, veem, veem, veem e nunca comem. Tem alguém lá na frente que é convertido; e ali ao lado outro que é chamado pela graça soberana; acolá tem um pobre pecador que chora por estar convicto da sua culpa; outro clama pela misericórdia de Deus, e ainda outro diz: “Sê propício a mim, pecador”. Uma grande obra está sendo realizada nesta capela, mas algumas pessoas não têm a mínima noção do que está acontecendo; pois não há uma obra sendo realizada no seu coração; e por quê? Porque vós pensais que isso é impossível; pensais que Deus não está agindo. Ele não prometeu agir em quem não O honra. A incredulidade vos faz sentar aqui em tempos de reavivamento e derramamento da graça de Deus, impassíveis, sem chamado e sem salvação.
            No entanto, cavalheiros, o pior ainda está por vir! O grande George Whitefield às vezes costumava levantar as mãos e bradar, como eu poderia fazer, mas me falta voz: “A ira vindoura! A ira vindoura!” Não é a ira de agora que vocês devem temer, mas a ira vindoura; e haverá destruição quando “vires com os teus olhos, porém disso não comereis”. Posso até ver aquele último grande dia. A hora da última badalada. Ouço o sino tocando sua melodia fúnebre — o tempo acabou, a eternidade chegou; o mar está agitado, as ondas se elevam com esplendor sobrenatural. Vejo um arco-íris — uma nuvem passando, e nela há um trono, e no trono está assentado um semelhante ao Filho do Homem. Eu o conheço. Ele tem uma balança na mão; bem diante dele estão os livros — o livro da vida, o livro da morte, o livro da lembrança. Vejo Seu esplendor e me regozijo nEle; olho Sua aparência majestosa e sorrio cheio de júbilo, pois Ele vem para ser “admirado por todos os santos”. Mas, eis ali uma multidão de miseráveis, encolhendo-se repulsivamente, tentando se esconder, e ainda assim olhando para Ele, pois seus olhos não conseguem se desviar dAquele a quem traspassaram; mas quando olham, eles gritam “Esconde-nos da face”. Que face? “Rochas, escondam-nos da face”. Que face? A face de Jesus, o homem que morreu, mas que agora vem para julgar. Contudo, não podeis vos esconder da Sua face; precisais ver com os vossos olhos: porém não vos assentareis à Sua direita, vestidos com vestiduras magníficas; e quando o cortejo triunfal de Jesus vier por entre as nuvens, não marchareis com Ele; vós o vereis, mas não estareis lá. Oh, agora me parece que vejo o poderoso Salvador em Sua carruagem, cruzando o firmamento num arco-íris. Vejam como o trotar de seus corcéis faz estremecer o céu, enquanto Ele os dirige por suas colinas. Uma comitiva cingida de branco segue após Ele, e sob as rodas da Sua carruagem Ele arrasta o diabo, a morte e o inferno. Ouçam como aplaudem. Ouçam como proclamam em alta voz: “Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro” (Efésios 4:8). Ouçam como cantam com solenidade: “Aleluia! Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 19:6). Vejam o esplendor da sua aparência; atentem para a coroa nas suas frontes; observem suas vestes alvas como a neve; reparem no êxtase do seu semblante, ouçam como seus cânticos sobem ao céu enquanto o Eterno Se une a eles, dizendo a cada um: “Deleitar-Me-ei em ti com alegria; regozijar-Me-ei em ti com júbilo; desposar-te-ei comigo para sempre com benignidade eterna”. E onde estais vós esse tempo todo? Podeis vê-los lá em cima, mas onde estais vós? Vendo com vossos olhos, mas sem poder comer de tudo aquilo. O banquete de casamento é imenso; as garrafas dos bons vinhos envelhecidos da eternidade são abertas; todos se assentam para festejar com o rei; mas lá estais vós, miseráveis e famintos, sem poder comer. Ah, como torceis as mãos em desespero. Se pelo menos tivésseis uma migalha — seríeis como os cachorrinhos debaixo da mesa de seus donos. No entanto, vós sereis cães no inferno, nunca no céu.
            Para concluir. Parece-me ver-te em algum lugar do inferno, preso a uma rocha, e o abutre do remorso consumindo teu coração; e lá em cima, Lázaro no seio de Abraão. Tu levantas os olhos e vês quem é: “É aquele pobre que ficava no meu monte de lixo e os cães vinham lamber-lhe as feridas; ei-lo lá no céu, enquanto eu estou aqui aflito. É Lázaro, sim, é ele; e eu, que era rico em vida, agora estou aqui no inferno. Pai Abraão, ‘manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua’”. Só que não é assim! Não pode ser assim, não pode! Se existir no inferno alguma coisa pior que todas as outras será a visão dos santos no céu. Dói só de pensar em ver minha mãe no céu enquanto sou banido! Ó, pecador, pensa bem, ver teu irmão no céu — aquele que foi embalado no mesmo berço que tu e que brincava sob a mesma copa das árvores — enquanto tu és banido. Marido, lá está tua esposa no céu, e tu entre os condenados ao inferno. Vês, pai, o teu filho diante do trono? E tu? Maldito de Deus e maldito dos homens, estás no inferno. Ah, o inferno dos infernos será ver nossos amigos no céu e nós mesmos perdidos. Rogo-vos, meus ouvintes, pela morte de Cristo — pela Sua agonia e pelo Seu sangue — pela Sua cruz e pela Sua paixão — por tudo que é santo — por tudo que é sagrado no céu e na terra — por tudo que é solene no tempo e na eternidade — por tudo que é horrível no inferno, ou glorioso no céu — por aquele terrível pensamento, “para sempre” — rogo-vos que guardeis estas coisas no vosso coração, e vos lembreis, se fordes condenados, de que foi a incredulidade que vos condenou. Se vos perderdes, será por não terdes crido em Cristo; e se perecerdes, esta será a gota mais amarga de fel: não crestes no Salvador.
Tradução: Mariza Regina de Souza


[1] Phaeton era filho de Hélios [deus do sol] e da ninfa Climene. Um dia o pai lhe entregou as rédeas do carro do sol e ele aproximou-se tanto da Terra que criou um enorme incêndio, dando o fogo ao homem. Zeus fulminou-o com um raio, e Phaeton precipitou-se sobre o rio Eridano [rio Pó].
[2] Século XIX, época em que Spurgeon pregou este sermão. O estado de Israel foi criado em 1948.