17 de julho - Devocional Matutina

“reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” - 1 Tessalonicenses 1:4

Muitas pessoas querem saber se são eleitas antes mesmo de crer em Cristo, mas não é assim que funciona; o único jeito de saber é “olhando para Jesus”. Se você quer se certificar da sua eleição — depois destes passos, seu coração estará seguro diante de Deus. Sente-se como um pecador perdido e culpado? Vá direito à cruz de Cristo e diga isso a Ele, conte-Lhe que você leu na Bíblia: “o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. Diga-lhe que está escrito: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: "que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”. Olhe para Jesus e creia nEle, e você terá a prova imediata da sua eleição, pois assim como crês, tu és eleito. Se você se entregar totalmente a Cristo e confiar nEle, então você é um dos eleitos de Deus; contudo, se parar e disser: “gostaria primeiro de saber se sou eleito”, você não sabe o que está pedindo. Vá até Jesus, tão culpado quanto você é. Deixe toda a curiosidade sobre eleição de lado. Vá diretamente a Cristo e se esconda em Suas feridas, e você conhecerá a sua eleição. A garantia do Espírito Santo lhe será dada, de modo que possa dizer: “porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia.” Cristo estava no conselho eterno e Ele pode lhe dizer se você é eleito ou não; não há outra forma de descobrir isso. Vá e coloque sobre Ele a sua confiança, e Sua resposta será: “Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí”. Não haverá dúvida quanto a Ele ter escolhido você, quando você tiver escolhido a Ele.

“Pela eleição, somos filhos de Deus,
Crê aquele que está em Cristo”

Tradução: Mariza Regina de Souza

16 de julho - Devocional Matutina

Colhiam-no, pois, manhã após manhã. - Êxodo 16:21

Trabalha para manter o senso da tua total dependência da vontade e do agrado do Senhor para que continues a ter os teus mais ricos deleites. Não procures viver do velho maná, nem tentes encontrar auxílio no Egito. Tudo deve vir de Jesus ou estarás perdido para sempre. Velhas unções não serão suficientes para ungir o teu espírito; tua cabeça deve ter o óleo fresco do chifre dourado do santuário derramado sobre ela ou cessará a sua glória. Hoje, talvez estejas no cume do monte de Deus, mas aquele que lá te colocou deve manter-te lá, ou descerás mais rápido do que imaginas. Tua montanha só permanece firme quando Ele a coloca em seu lugar; se Ele esconder a Sua face, logo ficarás perturbado. Se bem parecer ao Senhor, não há janela por onde vês a luz do céu que Ele não possa escurecer num instante. Josué ordenou que o sol ficasse parado no céu, mas Jesus pode torná-lo em completa escuridão. Ele pode tirar a alegria do teu coração, a luz dos teus olhos e a força da tua vida; nas Suas mãos repousam as tuas consolações e, pela Sua vontade, elas podem te deixar. Essa dependência diária de nosso Senhor é determinada para que a experimentemos e reconheçamos, pois Ele só nos permite orar pelo “pão de cada dia”, e só promete que “conforme os nossos dias será a nossa força”. Não é melhor para nós que seja assim, para podermos ir com frequência ao Seu trono e sermos sempre relembramos do Seu amor? Ah! Como é rica a graça que nos supre continuamente e não se retém por causa da nossa ingratidão! A chuva de ouro nunca cessa e a nuvem de bênçãos sempre tarda sobre a nossa habitação. Ó, Senhor Jesus, queremos nos curvar aos teus pés, conscientes da nossa total incapacidade de fazer alguma coisa sem Ti e, em cada favor que tivermos o privilégio de receber, nós queremos adorar o Teu bendito nome e reconhecer o Teu inesgotável amor.

Tradução: Mariza Regina de Souza

15 de julho - Devocional Matutina



O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará. - Levítico 6:13

Mantenha aceso o altar da oração pessoal. Essa é a própria essência da espiritualidade. O altar do santuário e o altar da família tomam do fogo desse altar, por isso, faça-o arder. A devoção particular é a própria essência, evidência e termômetro da religião viva e experimentada. Queime aqui a gordura do seu sacrifício. Faça os períodos a sós no seu quarto serem, se possível, regulares, frequentes e sem perturbação. A oração eficaz ajuda muito. Não tem nada pelo que orar? Vou dar algumas sugestões: pela igreja, pelo ministério, pela sua própria alma, pelos seus filhos, pelos seus relacionamentos, pelos seus vizinhos, pelo seu país e pela causa de Deus e da verdade em todo o mundo. Examinemos a nós mesmos sobre um assunto tão importante. Nossa devoção pessoal tem sido indiferente? A chama da adoração mal arde em nosso coração? As rodas da carruagem estão enferrujadas? Se for assim, estejamos alertas a estes sinais de decadência. Acheguemo-nos com prato e supliquemos ao Espírito da graça. Separemos um tempo especial para orar intensamente. Pois, se esse fogo for abafado pelas cinzas da conformidade com o mundo, ele irá obscurecer o fogo sobre o altar da família e diminuir a nossa influência tanto na igreja quanto no mundo. O texto também se aplica ao altar do coração. Esse é realmente um altar de ouro. Deus ama ver o coração do Seu povo brilhando diante de Dele. Entreguemos a Deus o nosso coração, ardendo em amor, e busquemos a Sua graça, para esse fogo nunca se apagar, pois ele não queimará se o Senhor não o mantiver aceso. Muitos inimigos irão tentar extingui-lo, mas se a mão invisível por trás da parede derramar nele o óleo sagrado, ele arderá cada vez mais. Usemos os textos da Escritura como combustível para o fogo do nosso coração; eles são brasas vivas; prestemos atenção aos sermões, mas, acima de tudo, estejamos a sós com Jesus durante muito tempo.

Tradução: Mariza Regina de Souza

08 de outubro - Devocional Matutina

"Lançai as vossas redes"

Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar. (Lucas 5:4)

Esta narrativa nos ensina sobre a necessidade da agência humana. A pesca foi miraculosa; mas nem o pescador, nem o barco, nem o equipamento de pesca foram ignorados; tudo foi usado para pegar os peixes. Da mesma forma, na salvação das almas, Deus opera por meio de instrumentos e, enquanto subsistir a economia da graça, Deus se agradará com a loucura da pregação para salvar os que crêem. Quando Deus opera sem instrumentos, sem dúvida, Ele é glorificado; mas Ele mesmo escolheu a instrumentalidade como sendo o meio pelo qual Ele seria mais exaltado na terra. Os meios em si são totalmente inúteis. “Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos”. Qual foi a razão? Eles não eram pescadores exercendo sua vocação? Na verdade, eles não eram inexperientes, eles conheciam o seu ofício. Eles não fizeram seu trabalho direito? Não. Faltou dedicação? Não, eles trabalharam muito. Faltou perseverança? Não, eles trabalharam a noite toda. Não havia peixes no mar? É claro que havia, pois tão logo o Mestre chegou, os cardumes encheram as redes. Qual, então, seria a razão? Seria por não haver poder, nos próprios meios, sem a presença de Jesus? “Sem Ele nada podemos fazer”. No entanto, com Cristo, podemos todas as coisas. A presença de Cristo confere sucesso. Jesus sentou-Se no barco de Pedro e Sua vontade, por uma misteriosa influência, atraiu os peixes para a rede. Quando Jesus é levantado em Sua Igreja, Sua presença é o poder da Igreja — no meio dela se ouvem aclamações ao seu Rei. “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (João 12:32). Saiamos, nesta manhã, a pescar almas, olhando para o céu com fé e ao nosso redor com solene ansiedade. Trabalhemos com afinco até vir a noite, e nosso labor não será em vão, pois Aquele que nos diz para lançar a rede, Ele mesmo a encherá de peixes.

Tradução: Mariza Regina de Souza

A Lembrança de Cristo



Sermão nº 2
Rev. Charles Haddon Spurgeon
Pregado na noite do domingo de 7 de janeiro de 1855
na Capela da New Park Street, Southwark

“Fazei isto em memória de mim” — 1 Coríntios 11:24
PARECE, então, que os cristãos podem se esquecer de Cristo. O texto implica na possibilidade de esquecimento por parte daquele cuja gratidão e afeição deveria constrangê-lo a se lembrar. Não haveria necessidade dessa amorosa exortação se não houvesse a temível suposição de que a nossa memória pode ser traiçoeira, e a nossa lembrança, intrinsecamente superficial ou naturalmente inconstante. Tal suposição também não é infundada: é, infelizmente, bem confirmada pela nossa experiência, não como uma possibilidade, mas como um fato lamentável. À primeira vista, parece um crime demasiado vulgar para estar à porta dos convertidos. Parece quase impossível que alguém já redimido pelo sangue do Cordeiro morto se esqueça do seu Libertador; que alguém, amado com o infindável amor do Filho eterno de Deus, se esqueça desse Filho; no entanto, se isso soa alarmante para os ouvidos, infelizmente, é claro demais para os olhos para negarmos o fato. Esquecer-se de quem nunca Se esquece de nós! Esquecer-se de quem derramou o Seu sangue pelos nossos pecados! Esquecer-se de quem nos amou até a morte! Será possível? Sim, não só é possível, como também nossa consciência confessa ser esta uma terrível falha de todos nós, a de nos lembrarmos de qualquer coisa, exceto de Cristo. Aquele a quem deveríamos fazer soberano do nosso coração é exatamente de quem mais nos esquecemos. Onde se poderia pensar que a memória fosse permanecer e o esquecimento seria um intruso desconhecido, esse é o local profanado pelos nossos pés e o lugar onde a memória raramente se detém. Apelo para a consciência de cada cristão aqui presente: Você pode negar a verdade daquilo que eu disse? Você tem se esquecido de Jesus? Alguém rouba o seu coração e você deixa de lado Aquele em quem deveria colocar o seu amor. As coisas do mundo desviam sua atenção, quando seus olhos deveriam estar cravados na cruz. E são as voltas e reviravoltas deste mundo mundano; os constantes ruídos desta terra materialista, que afastam a sua alma de Cristo. Ah, meus amigos, não é uma triste realidade que nos recordemos de qualquer coisa, menos de Cristo, e não nos esquecemos de nada com tanta facilidade como dAquele de quem deveríamos nos lembrar? Enquanto a memória preserva a erva daninha, faz fenecer a Rosa de Sarom.
A causa do esquecimento é muito clara e repousa em um ou dois fatos. Nós nos esquecemos de Cristo porque a corrupção e a morte ainda permanecem em nós, mesmo sendo realmente regenerados. Nós nos esquecemos Dele porque carregamos conosco a morte e o pecado do velho Adão. Se fôssemos simplesmente criaturas nascidas de novo, jamais nos esqueceríamos dAquele a quem amamos. Se fôssemos seres totalmente regenerados, nos sentaríamos e meditaríamos em tudo o que o Salvador fez e sofreu; em tudo o que Ele é; em tudo o que Ele gloriosamente prometeu realizar; e nossos sentimentos errantes jamais se desviariam; se estivéssemos centrados, focados e eternamente fixados num único propósito, pensaríamos sempre na morte e nos sofrimentos de nosso Senhor. Mas, ai de nós! Temos um verme no coração, um lugar cheio de pestilência, um sepulcro de concupiscências, ideias terríveis e tremendas paixões maléficas, que, como fontes de água venenosa, jorram continuamente torrentes de impureza. Tenho um coração, Deus o sabe, que gostaria de poder arrancar do meu peito e lançar no infinito; uma alma como um viveiro de aves imundas, um covil de criaturas repugnantes, onde dragões se escondem e corujas se reúnem; onde habitam terríveis criaturas de mau agouro; um coração vil demais para ter paralelo — “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr. 17:9). Esta é a razão pela qual me esqueço de Cristo. Mas ela não é a única; acho que há algo mais em algum outro lugar. Nós nos esquecemos de Cristo porque há muitas coisas ao nosso redor para atrair nossa atenção. “Mas”, você dirá, “elas não fazem nada, pois, embora haja muitas coisas ao nosso redor, nada se compara a Jesus Cristo: apesar de muitas coisas estarem perigosamente perto do nosso coração, o que são elas comparadas a Cristo?” Contudo, meus amigos, sabiam que quanto mais perto um objeto maior o seu poder de atração? O sol é muito, muito maior que a lua, no entanto, a lua tem muito mais influência sobre as marés do oceano do que ele, simplesmente por estar mais perto e ter maior poder de atração. Por isso, vejo como um vermezinho terreno tem muito mais efeito sobre a minha alma do que o glorioso Cristo no céu; um punhado de ouro, um pouco de fama, um elogio, um negócio bem-sucedido, minha casa, meu lar, me afetarão muito mais que todas as glórias do mundo lá de cima; sim, mais que a própria visão bendita: simplesmente porque a terra está perto e o céu está longe. Como será feliz o dia quando eu subir nas asas dos anjos para morar para sempre junto do meu Senhor, para me aquecer nos raios de sol do Seu sorriso e me perder no inefável resplendor do Seu semblante. Vemos, então, a causa do esquecimento: que ela nos faça corar de vergonha; nos entristeça por negligenciar tanto nosso Senhor e, assim, atentemos ao que diz a Sua Palavra: “Fazei isto em memória de mim”, na esperança de que esse som solene leve para longe o demônio da ingratidão.
Em primeiro lugar, vamos falar sobre o objeto bendito da memória; em segundo, sobre as vantagens de se lembrar dessa Pessoa; em terceiro, do auxílio gracioso à nossa memória — “fazei isto em memória de mim”; e, em quarto, do bondoso mandamento, “fazei isto em memória de mim”. Que o Espírito Santo abra os meus lábios e o seu coração, para sermos abençoados.
1. Primeiramente, vamos falar do GLORIOSO E PRECIOSO OBJETO DA MEMÓRIA — “fazei isto em memória de MIM”. Os cristãos têm muitos tesouros para guardar no armário da memória. Eles precisam se lembrar da sua eleição — “escolhidos nele, antes da fundação do mundo”. Precisam ter consciência da sua origem, de terem sido tirados de um tremedal da lama, de um poço de perdição. Precisam se recordar do seu chamamento eficaz, pois foram chamados por Deus e resgatados pelo poder do Espírito Santo. Precisam se lembrar dos livramentos especiais — de todos os livramentos e de todas as misericórdias concedidas a eles. Contudo, há alguém a quem devem conservar na alma como a mais cara das especiarias — alguém que, acima de todas as outras dádivas de Deus, merece estar perpetuamente na lembrança. Alguém, eu disse, pois não quero dizer um ato ou uma obra, mas a Pessoa cujo retrato eu colocaria numa moldura de ouro e penduraria no saguão da minha alma. Ah, como eu gostaria que vocês fossem estudantes sérios de todos os feitos conquistados pelo Messias. Como gostaria que fossem versados na vida do nosso Amado. Que nunca se esquecessem da Sua pessoa; pois o texto diz: “fazei isto em memória de mim”. É a gloriosa pessoa de Cristo que deve ser o objeto da nossa lembrança. É a Sua pessoa que deve ser colocada no relicário de cada templo do Espírito Santo.
         No entanto, alguns dirão: “Como podemos nos lembrar da pessoa de Cristo, quando nunca O vimos? Não podemos dizer qual era a forma peculiar do Seu rosto; cremos que o Seu semblante era mais formoso do que o de qualquer outro homem — embora marcado pela dor e pelo sofrimento — mas, como nunca O vimos, não podemos nos lembrar dele. Não vimos os Seus pés enquanto Ele fazia Suas peregrinações; não vimos as Suas mãos enquanto Ele as estendia cheias de bondade; não podemos nos lembrar da impressionante entonação da Sua voz, quando, mais eloquente que os serafins, Ele impactava as multidões, prendendo sua atenção; não podemos descrever o sorriso meigo presente em Seus lábios, nem a expressão de desaprovação quando distribuía anátemas contra os fariseus; não podemos nos lembrar Dele em Seu sofrimento e agonia, pois nunca O vimos”. Bem, amados, suponho seja verdade que vocês não possam se lembrar da Sua aparência física, pois naquela época vocês ainda nem eram nascidos; no entanto, não sabem que até o apóstolo disse que, embora ele tenha conhecido Cristo segundo a carne, dali por diante, ele não mais O conheceria dessa forma? A aparência física, a raça, a linhagem, a pobreza, os trajes humildes, não eram nada na opinião do apóstolo sobre o seu Senhor glorificado. E, da mesma forma, embora vocês não O conheçam segundo a carne, podem conhecê-lO segundo o espírito; podem se lembrar de Jesus tal como Pedro, Paulo, João, Tiago, ou qualquer um daqueles favorecidos que um dia pisaram nas Suas pegadas, andaram com Ele lado a lado ou reclinaram a cabeça em Seu peito. A memória acaba com a distância e dá um salto no tempo, e podemos ver nosso Senhor, embora Ele esteja exaltado em glória.
         Bem, vamos gastar cinco minutos para lembrar-nos de Jesus. Lembremos do Seu batismo, quando, ao entrar nas águas do Jordão, ouviu-se uma voz, dizendo: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo”. Vejam-nO Se levantando, respingando água da correnteza! Com certeza, a própria água deve ter enrubescido ao receber o seu Deus. Ele parou nas ondas por alguns instantes, para consagrar o túmulo do batismo, no qual aqueles que estão mortos em Cristo são sepultados com Ele. Lembremos Dele no deserto, para onde Ele foi logo após Sua imersão. Ah, sempre penso na cena do deserto, quando Cristo, exausto e abatido, sentou-se, talvez sobre a raiz nodosa de alguma velha árvore. Tendo jejuado por quarenta dias, Ele estava faminto, quando, no auge da Sua fraqueza, chegou o espírito maligno. Talvez Satanás tenha disfarçado sua realeza demoníaca na forma de um idoso forasteiro e, pegando uma pedra, disse: Peregrino, “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Posso até vê-lo, com um sorriso ardiloso e olhar malicioso, segurando a pedra e dizendo: “Se” — o blasfemo “se” — “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em alimento para mim e para ti, pois nós dois estamos com fome, e isso será um ato de misericórdia; tu podes fazê-lo facilmente; fala e ela será como pão do céu; nós o comeremos e tu e eu seremos amigos para sempre”. Mas Jesus respondeu — e como foram doces as Suas palavras — “Não só de pão viverá o homem”. Ah, como Cristo combateu o tentador de forma maravilhosa! Nunca houve uma batalha como essa. Foi um duelo sem par — um combate de um só round — quando o campeão da cova dos leões e o poderoso leão da tribo de Judá lutaram um contra o outro. Que cena esplêndida! Os anjos ficaram ao redor para assistir o espetáculo, como os antigos, que se assentavam para ver os torneios dos grandes guerreiros. Ali Satanás reuniu toda a sua força; Apoliom concentrou todo o seu poder satânico, para poder derrotar o descendente da mulher nessa batalha grandiosa. Mas ele não era páreo para Jesus, o qual desferiu um golpe mortal e Se tornou mais que vencedor. Ó, Cordeiro de Deus! Eu me lembrarei das Tuas lutas no deserto, quando tiver de lutar com Satanás. Quando tiver de lutar com o leão que ruge, olharei para Aquele que o venceu de uma vez por todas e destruiu a cabeça do dragão com seus golpes poderosos.
         Além disso, peço que se lembrem Dele nas tentações diárias e nas horas de provação pelas quais Ele passou ao longo da Sua vida sofrida. Mas que tremenda tragédia foi a morte de Cristo! E a vida? Anunciada com uma canção e encerrada com um grito: “Está consumado”. Iniciada numa manjedoura e terminada numa cruz; e que triste intervalo entre elas! Ah, as horríveis cenas de perseguição, quando os amigos O desdenhavam; quando, ao passar pelas ruas, os inimigos O olhavam com desaprovação; quando ouvia o sibilar da calúnia e era mordido pelos dentes traiçoeiros da inveja; quando um caluniador disse que Ele tinha demônio e era louco; que estava embriagado e era bebedor de vinho; e quando Sua alma justa Se angustiava com o caminho dos perversos. Ah, Filho de Deus! Tenho de me lembrar de Ti; não posso me esquecer de Ti quando penso naqueles anos de labor e pesar que tiveste por minha causa. Contudo, vocês conhecem meu tema preferido — o lugar onde sempre me lembro melhor de Cristo. O tenebroso jardim cheio de olivas. Que lugar! Gostaria de ter eloquência para levá-los até lá. Ah, se o Espírito nos tomasse e nos colocasse perto dos montes de Jerusalém, eu diria: “olha, lá está o ribeiro do Cedrom, atravessado pelo próprio Rei, lá você pode ver as oliveiras”. Provavelmente, foi ao pé de uma delas que ficaram os três discípulos enquanto dormiam; e ali, ah, ali, vejo as gotas de sangue. Para um instante, minh’alma; aquelas gotas de sangue — não as viste? Observa, não é sangue de feridas, é sangue de um homem cujo corpo não foi ferido. Ó, minh’alma, pensa em quando Ele se ajoelhou em agonia e suor — suor, sim, pois Ele lutou com Deus — suor porque Ele pelejou com o Pai. “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade”. Ó, Getsêmani, tuas sombras são extremamente sagradas para a minha alma. Ah! e aquelas gotas de sangue! Com certeza, foi o auge do sofrimento; o último ato tremendo daquele extraordinário sacrifício. Pode o amor pode ir mais longe que isso? Pode se curvar a um ato maior de misericórdia? Ah, se eu fosse eloquente, falaria sobre cada uma daquelas gotas de sangue, para que o coração de vocês pudesse se amotinar contra a indolência e a frieza, e falar bem alto e com sincero fervor da lembrança de Cristo. E, agora, adeus Getsêmani.
         Mas vou levá-los ainda a outro lugar, onde vamos ver o “Homem de Dores”. Vou conduzi-los ao pretório de Pilatos e deixar que vejam as zombarias daqueles soldados brutais: os golpes com luvas de malha; os  murros; a vergonha, as cusparadas, os puxões de cabelo, as bofetadas cruéis. Ah, dá para imaginar o Rei dos mártires sem Suas vestes, exposto aos olhares daqueles homens vis? Não veem a coroa ao redor de Suas têmporas, cada espinho agindo como uma lanceta perfurando Sua cabeça? Não veem os ombros dilacerados, o branco dos ossos aparecendo no meio da carne ensanguentada? Ah, Filho do Homem! Eu te vejo açoitado e flagelado por varas e açoites; como posso, então, deixar de me lembrar de Ti? Minha memória seria mais traiçoeira que Pilatos, dizendo diante dos gritos, Ecce Homo, “Eis o homem!”
         Bem, vamos terminar a cena do sofrimento com a visão do Calvário. Pense nas mãos traspassadas e no lado ensanguentado; pense no sol abrasador e depois na total escuridão; lembre-se do calor escaldante e da sede pavorosa; pense no grito da morte: “está consumado!”, e nos gemidos que o precederam. Este é o alvo da memória. Que jamais nos esqueçamos de Cristo. Eu lhes suplico, pelo amor de Jesus, deixe-O ter o lugar de honra na sua memória. Não permita que a pérola preciosa caia de suas mãos descuidadas no negro mar do esquecimento.
Entretanto, preciso dizer mais uma coisa antes de deixar este assunto: é bem possível que alguns de vocês fiquem enlevados pelo que eu disse, pois já leram muitas vezes sobre isso, e também já ouviram; mesmo assim, ainda não conseguem se lembrar espiritualmente de Cristo, pois Ele nunca Se manifestou a vocês e, aquilo que não conhecemos, não podemos lembrar. Graças a Deus, no entanto, não falo de todos, pois neste lugar há um grande remanescente segundo a eleição da graça, e é a eles a quem me dirijo. Talvez eu possa lhes falar sobre o velho celeiro, a cerca ou a cabana, ou, se vivem em Londres, sobre o sótão, a viela escura ou a rua onde você conheceu Jesus; ou sobre a capela onde entrou por acaso, e você diga: “Graças a Deus, eu me lembro do lugar aonde Ele veio se encontrar comigo pela primeira vez, e contou à minha alma os segredos do amor e disse que tinha me comprado”.
“Lembras do lugar, do pedacinho de chão,
Onde Jesus te encontrou?”
Sim, eu gostaria muito de construir um templo naquele lugar e erigir um monumento aonde Javé-Jesus falou pela primeira vez à minha alma e Se manifestou a mim. Mas Ele já Se revelou a vocês mais de uma vez — não foi? E vocês podem se lembrar dos vários lugares onde o Senhor lhes apareceu anteriormente, dizendo “com amor eterno eu te amei”. Embora nem todos possam se lembrar destas coisas, há alguns que podem; e estou certo de que me entenderão quando eu disser para vir e fazer isto em memória de Cristo — em memória de todas as Suas ternas visitações, das Suas palavras doces e  persuasivas, do Seu sorriso cativante, de tudo o que Ele tem dito e transmitido à sua alma. Lembrem-se de todas estas coisas nesta noite, se for possível à memória reunir todos os poderosos feitos da graça. “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios.”
         2. Tendo falado sobre o bendito objeto da nossa memória, vamos falar, em segundo lugar, um pouco sobre OS BENEFÍCIOS DECORRENTES DA TERNA LEMBRANÇA DE CRISTO.
       O amor nunca diz cui bono (qual é a vantagem?). O amor não pergunta quais são os benefícios decorrentes do amor. O amor, pela sua própria natureza, é abnegado. O amor ama; ele ama por amor à criatura, e nada mais. O cristão não precisa ser persuadido a amar a Cristo, assim como uma mãe não precisa de incentivo para amar seu filho. Ela o faz porque isso faz parte da sua natureza. A nova criatura tem de amar a Cristo, ela não pode evitá-lo. Ah, quem pode resistir ao encanto incomparável de Jesus Cristo? — O mais formoso entre milhares, o mais amável entre milhares. — Quem pode se recusar a adorar o príncipe da perfeição, o espelho da beleza, o majestoso Filho de Deus? No entanto, ainda assim, pode ser útil observarmos as vantagens de nos lembrarmos de Cristo, pois não são poucas nem pequenas.
Em primeiro lugar, a lembrança de Cristo nos dá esperança quando sentimos o peso dos nossos pecados. Observe alguns indivíduos nesta noite. Aí vem um pobre coitado. Olhe para ele! Ele não tem se cuidado muito ultimamente; sua aparência é a de quem nem tem comido direito. Qual é o seu problema? “Ah”, diz ele, “tenho sentido uma sensação de culpa; estou sempre me lamentando, pois receio jamais poder ser perdoado; eu achava que era uma boa pessoa, mas quando leio a Bíblia, vejo que meu coração ‘é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto’; tenho tentado me corrigir, mas quanto mais eu tento, mais me afundo na lama; com certeza, não há esperança para mim. Não mereço compaixão; para mim, Deus tem de me destruir, pois Ele declarou que ‘a alma que pecar, essa morrerá’; eu tenho de morrer, tenho de ser condenado, pois sei que transgredi a lei de Deus”. Como podemos consolar uma pessoa assim? Quais palavras de amor podem ser ditar para lhe dar paz? Eu sei! Eu te direi que existe alguém, que por ti fez um sacrifício completo; se somente creres nEle, estarás seguro para sempre. Ó, pobre moribundo desesperado, lembra-te Dele e cantarás de alegria e felicidade. Veja, o homem crê e, em êxtase, exclama: “Ah, vinde todos vós que temeis a Deus e eu vos direi o que Ele fez pela minha alma”.
“Diga, diga aos pecadores que
Eu, não estou mais no inferno”.
Aleluia! Deus destruiu a nuvem negra dos meus pecados! Este é um dos benefícios decorrentes da lembrança de Cristo. Ela nos dá esperança quando pecamos e nos diz que ainda existe misericórdia.
         Bem, tenho mais um sujeito. E o que ele diz? “Não aguento mais, sou perseguido e maltratado por amar a Cristo; sou alvo de zombaria, escárnio e desprezo: já tentei, mas realmente não consigo suportar. Homem é homem, pise nele como em um verme e ele se voltará contra você; minha paciência se esgotou; estou de tal forma que nem adianta me dizer para ser paciente, pois não tenho mais paciência; meus inimigos lançam calúnias a meu respeito e não sei o que fazer”. O que diremos a esse pobre coitado? Como lhe daremos paciência? O que devemos pregar a ele? Já ouvimos o que ele tem a dizer sobre si mesmo. Como vamos consolá-lo em meio a tão grande provação? Se estivéssemos passando pela mesma coisa, o que gostaríamos de ouvir de um amigo? Diríamos que outras também passam por isso? Ele responderia: “todos vós sois consoladores molestos”. Não, eu lhe direi, “irmão, você está sendo perseguido, mas lembre-se das palavras de Jesus Cristo, como Ele nos falou e disse: “regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós”. Meu irmão, pense nAquele que, ao morrer, orou pelos seus assassinos, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Todas as coisas pelas quais você tem passado nada são perto do Seu sofrimento. Tenha coragem; encare isso como homem; não desista. Não perca a paciência; tome a sua cruz e siga a Cristo. Deixe-O ser o seu moto; coloque-O diante dos seus olhos. E, então, depois de ouvir isso, veja o que o homem tem a dizer. Na mesma hora, ele dirá: “Olá, perseguição; seja bem-vinda, humilhação. A infâmia por amor a Jesus será uma honra, o escárnio, a minha maior glória”.
“Agora, por amor, Seu nome carrego,
O lucro já não é mais vitória,
Meu ultraje ao desprezo entrego,
E na Sua cruz cravo a minha glória.”

Vejam, há ainda um outro efeito da lembrança de Cristo. Ela nos leva a ter paciência na perseguição. É como um cinto para cingir os lombos, a fim de que a nossa fé resista até o fim.
         Queridos amigos, eu tomaria muito do seu tempo se fosse descrever todos os benefícios; por isso, só vou falar rapidamente de uma ou duas bênçãos que podemos receber. A lembrança de Cristo nos dará força na tentação. Creio que todo homem passe por terríveis horas de tentação. Nunca houve uma nau cruzando as profundezas do oceano que não tivesse de enfrentar, vez ou outra, alguma tormenta. Lá está ele, o pobre barquinho, para cima e para baixo ao furor das ondas. Veja como elas o jogam de um lado para o outro e o lançam para o céu. Os ventos escarnecem dele. O velho oceano pega o navio com seus dedos molhados e o chacoalha de lá para cá. Veja como os marinheiros gritam de medo! Você sabe como fazer para as águas se acalmarem? Sim. Só uma palavra enérgica o fará. Vem Jesus. Permita que o seu pobre coração se lembre Dele, e o barco imediatamente voltará a navegar, pois Cristo está no leme. Os ventos não mais soprarão, pois Cristo calará suas bocas imensas e nunca mais elas incomodarão seu filho. Não há nada como o nome de Jesus Cristo, o Filho encarnado de Deus, para dar força na tentação e ajudar a enfrentar o temporal. Por outro lado, que conforto haverá no leito de enfermidade? O nome de Cristo! Esse nome o ajudará a ser paciente com quem cuida de você — e a enfrentar o sofrimento que terá de suportar; sim, será assim com você, você terá mais esperança na doença que na saúde, e sentirá uma bendita doçura no amargor no sofrimento. Em vez de sentir o azedume da adversidade, você sentirá a doçura do mel em meio a todas as tribulações e provações com que Deus o afligir, pois Ele “inspira canções de louvor durante a noite”.
         Mas, só para concluir as vantagens da lembrança de Cristo, sabe onde podemos encontrar o maior de todos os benefícios? Você conhece o lugar mais importante onde quem crê em Cristo vai se regozijar? Vou levá-lo até lá. Psiu! Silêncio! Você está subindo as escadas para um quarto solitário. As cortinas estão cerradas. Alguém está chorando. Os filhos estão ao redor da cama e os amigos estão lá. Vê aquele moribundo? É você. Olhe para ele; os olhos dele são os seus; as mãos dele são as suas. É você mesmo. Logo você estará lá. Homem! Aquele é você! Não vê? Esse quadro é o seu. Aqueles olhos, que em breve estarão fechados para sempre, são os seus; aquelas mãos, que ficarão rijas e inertes, são as suas; aqueles lábios, que ficarão secos e crestados, e onde irão colocar um pouco d’água, são os seus. São suas as palavras que condensam no ar e saem lentamente dos lábios moribundos. Fico me perguntando se ali você será capaz de se lembrar de Cristo. Se não for, vou imaginá-lo. Olhe para o homem deitado na cama; seus olhos estão arregalados. Seus amigos ficam alarmados; eles lhe perguntam o que ele está vendo. Ele sufoca a emoção e responde que não vê nada. Mas eles sabem que há alguma coisa diante dos seus olhos. Ele os arregala de novo. Bom Deus! O que é isso que vejo — que me parece ver? O que é? Ah! um suspiro! A alma se foi. O corpo está lá. Mas o que ele viu? Ele viu o trono flamejante do julgamento; e viu Deus assentado nele com Seu cetro; ele viu livros abertos; viu o trono de Deus e viu um mensageiro brandindo a espada para golpeá-lo. Homem! Tu és aquele homem; logo estarás lá. Esse é o teu próprio retrato. A reprodução é fiel. Olha. Lá é onde estarás dentro de poucos anos — ou poucos dias. No entanto, se te lembrares de Cristo, devo te mostrar o que farás? Ah, tu sorrirás em meio às tribulações. Deixe-me retratar um homem assim. Alguém coloca travesseiros nas suas costas; ele se senta na cama, pega a mão de um ente querido e diz: “Adeus! não chore por mim; o bondoso Deus enxugará toda lágrima”. Ele se dirige àqueles que estão ao seu redor: “Preparem-se para se encontrar com Deus e sigam-me à terra de deleites”. Agora ele colocou a casa em ordem. Tudo está certo. Olhe para ele, apoiado em seu cajado, como o bom e velho Jacó, pronto para morrer. Veja seus olhos como brilham; ele bate as mãos; todos se juntam à sua volta para ouvir o que ele tem a dizer; ele sussurra: “Vitória!” e, reunindo um pouco mais de força, exclama, “Vitória!” e, finalmente, no último suspiro, “Vitória por meio dAquele que nos amou!”, e morre. Este é um dos grandes benefícios decorrentes da lembrança de Cristo — ser capaz de encontrar a morte com tanta serenidade.
         3. Chegamos agora à terceira parte da nossa meditação, que é o DOCE AUXÍLIO À MEMÓRIA.
         Na escola, costumávamos usar certos livros chamados de “Auxílio à Memória”. Tenho certeza de que eles mais me confundiam do que ajudavam. Sua utilidade era a mesma de um embrulho de bengalas debaixo do braço de um viajante: ele poderia usar uma de cada vez para andar, mas, enquanto isso, carregava todas as outras de que não precisava. Nosso Salvador, no entanto, é mais sábio que todos os nossos professores, e seus lembretes são auxílios reais e verdadeiros à memória. Seus símbolos de amor têm uma linguagem inconfundível e facilmente ganham a nossa atenção.
         Veja o mistério da Santa Ceia. O pão e o vinho são símbolos vivos do corpo e do sangue de Jesus. O poder para estimular a nossa lembrança está, então, no apelo aos nossos sentidos. Aqui o olho, a mão e a boca encontram uma função prazerosa. O pão é provado e ingerido, aguçando o paladar, um dos nossos sentidos mais fortes. O vinho é bebido — um ato palpável. Sabemos que estamos bebendo e, por isso, os nossos sentidos, os quais normalmente são empecilhos à nossa alma, tornam-se asas para elevar a mente em contemplação. Além disso, a maior influência dessa ordenança está na sua simplicidade. É uma cerimônia maravilhosamente simples — um pedaço de pão e um pouco de vinho. Não há nada chamado cálice, pátena ou hóstia. Nada para sobrecarregar a memória — eis aqui simplesmente o pão e o vinho. Quem não consegue se lembrar de ter comido do pão e bebido do vinho, de forma alguma deve ter memória. Observe ainda a poderosa vitalidade destes sinais — como eles são cheios de significado. O pão partido — assim como foi partido o nosso Salvador. O pão para ser comido — assim como Sua carne é o verdadeiro alimento. O vinho derramado, o suco de uva espremido — assim como nosso Salvador foi esmagado sob os pés da justiça divina: Seu sangue é o nosso vinho mais suave. O vinho alegra o coração — assim como o sangue de Jesus. O vinho fortalece e revigora — assim como o sangue do poderoso sacrifício. Ah, deixe que esse pão e esse vinho sejam um doce e bendito auxílio à sua alma nesta noite, para que ela se lembre do Amado que um dia morreu na cruz do Calvário. Como um cordeirinho, coma agora do pão do Senhor e beba do Seu cálice. Lembre-se da mão que o alimenta.
         Contudo, antes de nos lembrarmos de Cristo, precisamos pedir a assistência do Espírito Santo. Creio que devemos nos preparar antes da Ceia do Senhor. Não acredito no tipo de preparação da Sra. Toogood, a qual passou a semana toda se preparando e, depois, quando descobriu não ser dia de Santa Ceia no domingo, disse ter perdido a semana inteira. Não acredito nisso, mas sim numa preparação santa para a Ceia do Senhor: quando no sábado, se possível, passamos uma hora em meditação silenciosa sobre Cristo e a paixão de Jesus; quando, principalmente no domingo à tarde, nos sentamos com devoção, contemplando-O, e então aquelas cenas se tornam realidade, não fantasia, como acontece com algumas pessoas. Tenho muito receio de haver alguns dentre vocês que beberão o vinho sem pensar no sangue de Jesus: e, se o fizerem, serão hipócritas desprezíveis. Acautelai-vos, pois “quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe” — o quê? — “juízo para si”. Em português bem claro: muito cuidado com o que fazem! Não sejam imprudentes; pois, de todas as coisas sagradas deste mundo, esta é a mais solene. Já ouvimos falar de pessoas que fazem pactos, tirando sangue do braço e chupando-o em grupo; isso é repugnante, mas, ao mesmo tempo, muito sério. Aqui vocês vão beber o sangue das veias de Cristo e saborear as gotas que fluem do Seu próprio coração amoroso. Isso não é sério? Alguém ousaria brincar com isso? Ir à igreja e tomar a Santa Ceia por alguns trocados? Vir e se juntar a nós para angariar fundos para instituições beneficentes? Fora com isso! Isso é uma terrível blasfêmia contra o Deus Todo-Poderoso; e, dentre os condenados do inferno, os mais malditos serão, portanto, aqueles que ousarem zombar da santa ordenança de Deus. A Ceia do Senhor é feita em memória de Cristo. “Fazei isto em memória de mim”. Se você não consegue fazê-lo em memória de Cristo, eu lhe peço, assim como você ama a sua alma, não o faça de forma alguma. Ah, homens e mulheres regenerados, não entrem no pátio dos sacerdotes para ofender o Deus de Israel com sua intrusão.
         4. E, agora, para encerrar, eis a graciosa ordenança, “fazei isto em memória de mim”. A quem se aplica? “Fazei isto.” É importante responder a esta questão — “fazei isto”. A quem se destina? A todos vós que credes em mim. “Fazei isto em memória de mim”. Bem, suponham, agora, que Cristo esteja lhes falando nesta noite; e Ele diz: “fazei isto em memória de mim”. Cristo os vê da porta. Alguns vão para casa, e Cristo diz: — “Pensei ter dito: ‘fazei isto em memória de mim’”. Alguns estão assentados como meros espectadores. Cristo senta-se ao seu lado e diz: — “Pensei ter dito: ‘fazei isto em memória de mim’”. — “Senhor, eu sei que disseste.” — “Então, você me ama?” — “Sim, Senhor, tu sabes que te amo.” — “Mas, estou dizendo, vá lá — coma do pão, beba do vinho”. — “Não quero, Senhor, terei de ser batizado se entrar para esta igreja, e tenho medo de me resfriar (batismo por imersão), ou de ser julgado. Tenho medo de ficar diante da igreja, pois acho que eles me fariam perguntas que eu não poderia responder”. — “Como” — diz Cristo — “esse é todo o seu amor por mim? Isso é tudo o que sente pelo seu Senhor? Ah, quanta indiferença para comigo, o seu Salvador. Se eu não o tivesse amado mais do que isso, você estaria no inferno; se esse fosse todo o meu amor, eu não teria morrido por você. Um grande amor suporta grandes aflições; e essa é toda a gratidão que sente por mim?” E, agora, alguém se sente envergonhado? Seu coração não está lhe dizendo: “Será errado mesmo?” Cristo diz, “fazei isto em memória de mim”, e você não se envergonha de não participar? Convido a todo aquele que amam a Jesus a participar desta mesa. Eu lhe suplico, não negue a si mesmo este privilégio, deixando de fazer parte da igreja. Se você ainda negligencia esta ordenança, deixe-me relembrá-lo do que Cristo disse: “Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”. Ah, soldado da cruz, não aja como o covarde!
         E, para não induzi-los a algum erro, preciso acrescentar mais uma coisa e, então, encerro. Quando lhes falo sobre participar da Ceia do Senhor, não suponham sequer por um momento que desejo que pensem haver nela algum tipo de salvação. Há quem diga que a ordenança do batismo não é essencial, assim como a ordenança da Santa Ceia, no que diz respeito à salvação. Ser salvo por comer um pedaço de pão! Besteira, pura besteira! Ser salvo por beber uma gota de vinho! Ora, isso é tão absurdo que não merece nem discussão. Sabemos que só o sangue de Jesus, o mérito das Suas aflições, a aquisição feita pelo Seu sofrimento, o que Ele fez, pode nos salvar. Deposite nEle a sua confiança; somente nEle, e você será salvo. Ouves, miserável pecador, o caminho da salvação? Se um dia eu te encontrasse no outro mundo, tu, talvez, pudesses me dizer: “Passei uma noite, senhor, ouvindo-o, e você não me contou o caminho para o céu”. Bem, tu ouvirás agora. Crê em Jesus Cristo, confia na Sua justiça e serás salvo da vingança da lei ou do poder do inferno. No entanto, se confiares nas tuas próprias obras, tão certo quanto vives, estarás perdido.
         Agora, ó eterno e glorioso Filho de Deus, quando nos achegamos à Tua mesa para nos banquetear com as iguarias da graça, permite a cada um de nós, na dependência do Teu Espírito, exclamar nas palavras de um dos Teus poetas:
Lembrar-me-ei de Ti, e de todas as tuas dores,
E de todo o Teu amor por mim —
Sim, enquanto um suspiro me restar,
Eu me lembrarei de Ti.
E quando estes lábios impuros emudecerem,
E o pensamento e a memória fugirem;
Quando vieres no Teu reino
Ó, Jesus, lembra-Te de mim!

Tradução: Mariza Regina de Souza

Enoque



Sermão nº 1307

Sermão pregado na manhã de domingo do dia 30 de julho de 1876
por Charles Haddon Spurgeon
no Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres, Inglaterra

“Enoque viveu sessenta e cinco anos e gerou a Metusalém. Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si.” Gênesis 5:21-24
“Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.” Hebreus 11:5-6
“Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.” Judas 1:14-15
         TODA informação verdadeira que temos sobre Enoque está nas três passagens das Escrituras que li. Seria perda de tempo completá-las com fantasias de antigos comentaristas. Enoque é chamado de o sétimo depois de Adão para distingui-lo do outro Enoque, da linhagem de Caim, o qual foi o terceiro depois de Adão. Nos primeiros patriarcas, Deus quis manifestar aos homens pequenas porções da Sua verdade com relação à verdadeira religião. Esses homens dos tempos antigos não só foram, eles mesmos, ensinados por Deus, como também se tornaram professores da sua geração e tipos nos quais grandes verdades de Deus foram mostradas. Abel ensinou a necessidade de se chegar ao Senhor com sacrifício, a necessidade da expiação pelo sangue — ele colocou o cordeiro sobre o altar e selou seu testemunho com o próprio sangue. A expiação é uma verdade de Deus tão preciosa que é uma honra morrer em sua defesa e, desde o princípio, é uma doutrina que tem garantido seus mártires, os quais, mesmo mortos, ainda falam.
         Em seguida, Sete e Enos ensinaram aos homens a necessidade de uma confissão particular da sua fé no Senhor e a necessidade de se congregar para a adoração, pois lemos acerca dos seus dias: “daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn. 4:26). Aqueles que adoravam a Deus por meio sacrifício expiatório separavam a si mesmos dos outros homens, reuniam-se na igreja em nome do Senhor e cultuavam invocando o nome de Deus. O coração deve, em primeiro lugar, crer no grande sacrifício com Abel, e depois, com a boca, confessar da mesma forma que Sete. Então veio Enoque, cuja vida foi além da aceitação e confissão da expiação, pois ele mostrou aos homens a verdadeira comunhão com Deus. Ele exibiu na sua vida o relacionamento entre o crente e o Altíssimo e demonstrou quão perto o Deus vivo consente estar dos Seus próprios filhos. Que o nosso avanço no conhecimento seja semelhante ao crescimento do ensino patriarcal!
         Irmãos e irmãs, vocês sabem como fez Abel, o cordeiro sacrificial. Sua confiança está no sangue precioso de Jesus e, por isso, pela fé, vocês oferecem a Deus ofertas aceitáveis. Tendo chegado até aqui, a maioria de nós dá um passo além, invocando o nome do Senhor, professando seguir os passos de Jesus. Renunciamos a nós mesmos no sepultamento solene do batismo, quando somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pois nos consideramos mortos em Cristo para o mundo e ressuscitados com Ele em novidade de vida. Daí em diante o nome divino está em nós e não somos mais de nós mesmos. E agora nos reunimos como igreja. Sentamos à mesa da comunhão, participamos das reuniões de oração e dos cultos, e no centro de tudo está o nome do Senhor. Somos separamos do mundo e escolhidos para ser o povo que declara o Seu nome. Até aqui tudo bem — vimos o sacrifício de Jesus tipificado em Abel. Professamos a verdade com Sete. Agora, vamos dar o passo seguinte e conhecer a vida com Enoque. Vamos nos esforçar para andar com Deus como ele andou! Talvez a meditação sobre a vida santa do patriarca nos ajude a imitá-lo. Enquanto consideramos o que ele foi e em quais circunstâncias ele veio a ser assim, que o Espírito Santo nos ajude a chegar aonde ele chegou.
         Esse é o desejo de todo homem temente a Deus! Todos os santos querem ter comunhão com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo. O clamor constante da nossa alma ao Senhor é: “fica, pois, comigo”. Ontem fiz o sepultamento de uma das pessoas mais excelentes da terra, a qual amava e temia e servia a Deus muito melhor que a maioria de nós. Ele era um irmão muito consagrado. Quando ainda nem pensava em morrer, ele fez questão de colocar um dos últimos desejos do seu coração em uma carta escrita para um amigo. O desejo era: “quero ter a vida de Enoque e andar com Deus” —
“Oh, mais perto de Deus quero andar!”
Na verdade, ele escreveu aquilo que nós sentimos. Se forem esses os nossos desejos, e tenho certeza de que são, assim como somos povo do Senhor, então espero que a meditação na vida de Enoque possa nos ajudar a realizar esse desejo.
         Em primeiro lugar, então, no que implica o andar de Enoque com Deus? A descrição é bem curta para a vida de um homem, mas há muito significado nela. Em segundo lugar, quais as circunstâncias ligadas à sua vida extraordinária? São muito instrutivas. E em terceiro lugar, qual foi o seu fim? Foi tão extraordinário quanto a sua própria vida.
         1. Assim, passamos ao primeiro ponto: O QUE SIGNIFICA O ANDAR DE ENOQUE COM DEUS? Paulo (NT: Spurgeon acreditava que Paulo era o autor da carta aos Hebreus) nos ajuda em nossa primeira observação com seu comentário em Hebreus. O andar de Enoque com Deus era um testemunho de que ele agradava a Deus. “Antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus”. Essa é uma interpretação clara do apóstolo sobre o andar de Enoque com Deus e com certeza é a correta, pois o Senhor não andaria com alguém em quem não sentisse prazer. “Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?” (Amós 3:3). Se os homens andam de forma contrária a Deus, ele não andará com eles, mas contra eles. Andar junto implica amizade, camaradagem, intimidade, amor — e essas coisas não podem existir entre Deus e a alma, a menos que a pessoa seja aceitável ao Senhor.
         Enoque, sem dúvida, como Elias, era um homem de paixões como nós. Ele caíra, com os demais seres humanos, no pecado de Adão. Havia pecado sobre ele, como há em nós pela nossa natureza, e ele havia se extraviado em atos e obras como todos nós, como ovelhas, nos extraviamos. Portanto, ele precisava de perdão e purificação, assim como nós precisamos. Depois, para ser agradável a Deus, era necessário ele ser perdoado e justificado, assim como nós — pois ninguém pode agradar a Deus até seu pecado ser perdoado e a justiça ser-lhe imputada. Para isso, é necessário ter , pois não há justificação senão pela fé. E como dissemos, não há como agradar a Deus sem a pessoa ser justificada.
         Muito bem, então o apóstolo diz: “sem fé é impossível agradar a Deus”, e pela fé Enoque se tornou agradável a Deus, assim como nós nos dias de hoje. Isso merece uma observação muito séria, irmãos e irmãs, pois esse tipo de fé está aberto a nós. Se Enoque tivesse sido agradável a Deus em virtude de dons e talentos extraordinários, ou por ter realizado coisas maravilhosas e miraculosas, estaríamos perdidos! Mas se ele foi agradável a Deus por meio da , a mesma fé que salvou o ladrão da cruz, a mesma fé que tem operado em vocês e em mim — então o portão de entrada para o caminho por onde os homens andam com Deus está aberto a nós, também!
         Se temos fé, podemos ter comunhão com o Senhor! Como isso deve valorizá-la para nós! Os níveis mais altos da vida espiritual dependem dos mais baixos e procedem deles. Se você quer andar com Deus como um homem de Deus, deve começar simplesmente crendo no Senhor Jesus Cristo, como um bebê na graça! A santidade mais elevada deve começar pela confissão da nossa pecaminosidade, e pela nossa dependência no Cristo crucificado. De outra forma, o crente mais forte não vive mais do que o mais fraco — e se é preciso crescer para estar entre os guerreiros mais fortes do Senhor — é preciso que seja pela fé depositada na força divina.
         Começando no Espírito, você não deve se aperfeiçoar na carne. Você não deve continuar à distância, com fé em Cristo, e começar a viver por suas próprias obras — sua caminhada deve continuar como começou. “Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl. 2:6). Enoque sempre foi agradável a Deus, mas porque ele sempre creu e viveu no poder da sua fé. Vale a pena saber e lembrar disso, pois talvez ainda sejamos tentados a lutar por um estilo mais elevado e fantasioso de vida religiosa, olhando para os nossos sentimentos ao invés de olhar somente para o Senhor! Não podemos deixar de olhar somente para Jesus, para Ele mesmo, nem mesmo para admirar a Sua imagem dentro de nós — pois, se o fizermos, iremos retroceder ao invés de avançar. Não, amados, pela fé Enoque se tornou agradável a Deus e pela fé ele andou com Deus — sigamos suas pegadas.
         A seguir, quando lemos que Enoque andava com Deus, devemos entender que ele sentia a presença divina. Não se pode conscientemente andar com uma pessoa cuja existência lhe é desconhecida. Quando andamos com alguém, sabemos que a pessoa está ali. Ouvimos seus passos se não podemos ver seu rosto. Temos uma percepção clara de que ela está ao nosso lado. Ora, se olharmos novamente para Hebreus, Paulo nos diz: “porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”. A fé de Enoque, então, era uma fé palpável. Ele não acreditava nas coisas só por acreditar e depois as colocava numa prateleira fora do caminho, como muito de nós fazemos — ele não tinha simplesmente uma mente ortodoxa — a verdade de Deus tinha penetrado no seu coração.
         Sua fé era real para ele, real de fato, real como algo comum na sua vida diária. Ele andava com Deus — não era que ele simplesmente pensava em Deus, ou especulava sobre Deus, ou debatia sobre Deus, ou lia sobre Deus, ou falava sobre Deus — ele andava com Deus, que é a parte prática e vivencial da verdadeira santidade! Em sua vida diária, ele tinha consciência de que Deus estava com ele e ele O considerava como um Deus vivo, aquele em quem confiava e por quem era amado. Oh, amados, não percebem que para alcançar um patamar mais elevado na vida cristã é preciso fazê-lo por meio da concretização das mesmas coisas que, pela fé, vocês receberam? Compreendam-nas! Permitam que elas façam parte de vocês e se comprovem em vocês. Tenham certeza delas, meditem nelas, lidem com elas, provem-nas no mais íntimo da sua alma e saibam, desta forma, que elas estão muito além de qualquer dúvida. É preciso ver Aquele que é invisível e tomar possa daquilo que ainda não pode ser desfrutado. Não é apenas crer em quem Deus é, mas também que Ele é galardoador dos que o buscam, pois essa, de acordo com Paulo, era a fé de Enoque! Deus visto como um ser vivo, observador, julgador e galardoador das obras humanas — um Deus de verdade, realmente conosco — nós precisamos conhecer isso, ou não há como andar com Ele.
         Portanto, quando lemos que Enoque andava com Deus, não resta dúvida de que isso significa que ele tinha uma comunhão muito familiar com o Altíssimo. Não conheço uma comunhão mais livre, agradável e cordial do que aquela resultante de andar sempre com um amigo. Se eu quisesse saber qual pessoa seria mais íntima de outra, certamente seria aquela com quem ela andasse todos os dias. Se você dissesse: “De vez em quando vou a casa dele e nos sentamos para conversar”, não teria tanto peso quanto se dissesse: “Todos os dias andamos juntos por aí”. Quando andam juntos, os amigos se tornam mais comunicativos — um conta ao outro os seus problemas e o outro se esforça para consolá-lo — e, em contrapartida, divide com ele os seus próprios segredos. Quando as pessoas andam sempre juntas por opção, estejam certos de que há muitas conversas entre elas nas quais um estranho não pode se intrometer.
         Se eu quisesse conhecer um homem por inteiro, gostaria de andar com ele durante algum tempo, pois o companheirismo revela partes de uma pessoa que mesmo na vida familiar podem estar ocultas. O andar contínuo pressupõe e gera um relacionamento íntimo e grande familiaridade entre os amigos. Mas andará Deus, de fato, dessa forma com os homens? Sim, Ele andou assim com Enoque, e com muitos outros do Seu povo desde então. Ele nos conta Seus segredos, os segredos do Senhor, os quais Ele revela somente a quem O teme. E nós, da mesma forma, contamos a Ele, em louvor, as nossas alegrias; em oração, as nossas tristezas, e em confissão, os nossos pecados. O coração se desembaraça de todos os seus cuidados e os lança no coração dAquele que cuida deles por nós! E o Senhor faz transbordar a Sua bondade sobre os Seus amados enquanto os faz sentir o Seu eterno amor por eles. Esta é a beleza e a graça da experiência cristã, seu lírio e sua rosa, seu cálamo e sua mirra. Se quiserem experimentar a nata da vida com Deus, ela pode ser encontrada em uma fé concreta e na íntima comunhão com o Pai celestial. E assim andava Enoque com Deus.
         Prosseguindo, está implícito no termo “andava” que a comunhão de Enoque com Deus era contínua. Como um antigo teólogo bem observou, Enoque não deu umas voltinhas com Deus e depois deixou Sua companhia, ele andou com Deus durante centenas de anos! O texto implica que esse foi o teor da sua vida ao longo de todos os seus 365 anos. Enoque andou com Deus por 300 anos depois do nascimento de Matusalém e, com certeza, também andava com Ele antes disso. Mas que caminhada esplêndida! Uma jornada de 300 anos! Uma pessoa poderia desejar mudar de companhia se andasse com qualquer outra, mas andar com Deus durante três séculos foi tão bom que o patriarca continuou andando até ir além do tempo e do espaço — e entrar no paraíso — onde ele continua marchando na mesma companhia divina! Ele tinha o céu na terra, por isso, não foi nada surpreendente quando deslizou da terra para o céu com tanta facilidade.
         Ele não tinha comunhão com Deus de qualquer jeito, mas era leal ao Seu amor perceptível. Enoque não era inconstante, às vezes subindo ao topo da extrema religiosidade e depois descendo ao vale pantanoso da indiferença, mas, dia a dia, ele mantinha um relacionamento calmo, feliz e sempre prazeroso com Deus. Não havia noites de insônia. O dia, com seus cuidados, não tirava seu sono. Sua caminhada não era uma corrida, apressada, aos trancos e barrancos, era um andar firme, regular. Enoque andou com Deus por mais de três séculos, sem parar!
         Subentende-se, também, nessa frase que a vida de Enoque era progressiva, pois quando uma pessoa anda, seja sozinha ou acompanhada, ela avança, segue em frente. Enoque andava com Deus. Ao fim de 200 anos ele não estava mais onde começou. Ele estava na mesma companhia, mas tinha avançado na direção certa. Ao fim de 300 anos ele sentia mais prazer, compreendia mais, amava mais, tinha recebido mais e podia dar mais, pois havia progredido em todos os sentidos. Um homem que anda com Deus, necessariamente, crescerá na Sua graça e no Seu conhecimento e na semelhança com Cristo. Não se pode pensar numa caminhada constante com Deus, ano após ano, sem que a pessoa favorecida seja fortalecida, santificada, instruída e mais capaz de glorificar o Senhor.
         Por isso, entendo que a vida de Enoque foi uma vida de progresso espiritual. Ele ia de força em força e avançava na graciosa peregrinação. Que Deus nos permita seguir em frente, nós mesmos. Só mais algumas observações sobre o andar de Enoque com Deus. No Daily Bible Pleadings de John Kitto (1804-1854, compilador e ilustrador de histórias bíblicas contemporâneo de Spurgeon), há uma ilustração extremamente agradável de como deve ser andar com Deus: a figura de um pai levando o filho pela mão e andando com ele sob a aragem das colinas. Kitto diz: “Como essa criança anda com você, assim você deve andar com Deus. Ela o ama nesse momento. O mundo — frio e cruel — ainda não separou o coraçãozinho dela do seu. O amor dela, nessa hora, é a coisa mais pura e mais bela que ela sentirá, ou você receberá. Alimente esse amor e, como essa criança anda ao seu lado com todo coração, você também andará com Deus com todo coração”.
         É um prazer para essas crianças andar com o pai. As dificuldades do caminho ou as intempéries nada são para elas — dar uma volta com o pai já é alegria suficiente. Há aquele aperto quente, terno e afetuoso da mão e um sorriso radiante nos olhos quando olham para ele enquanto as leva para cima e para baixo. Esse andar é também humilde, pois a criança considera o pai o homem mais importante e mais sábio que já existiu! Ela o vê como a encarnação de tudo que é forte e inteligente. Tudo quanto o pai diz ou faz ela admira. Enquanto caminha, ela sente a maior afeição por ele, e também um grande respeito. Ela está muito perto do pai, mas ainda é só uma criança, e o considera como um rei.
         Além disso, esse andar é feito em perfeita confiança. A criança não tem medo de se perder pelo caminho. Ela confia implicitamente na orientação do pai. O braço dele a protegerá de todos os perigos e, por isso, ela não se importa muito — por que deveria? Se é preciso ter cuidado com a estrada, isso é problema do pai, e a criança, portanto, nem sonha em se preocupar — por que deveria? Se for necessário passar por algum lugar difícil, o pai a levantará, ou a ajudará a passar — a criança, no entanto, está alegre como um passarinho — por que não estaria? E é assim que o crente deve andar com Deus, descansando na ternura eterna e se regozijando no amor incontestável! O crente deve ficar despreocupado, tanto em relação ao presente como em relação ao futuro.
         Amados amigos em Cristo, vocês podem confiar no Pai, Ele suprirá todas as suas necessidades —
O Pai cuida de você como se não houvesse
 outro homem na terra ou anjo no céu.
Que caminhada instrutiva tem uma criança com um pai sábio e comunicativo! Quantos pequenos mistérios são explicados a ela, quanta coisa ao seu redor é iluminada pela sabedoria do pai! A cada passo, ela se torna cada vez mais sábia por causa da sua companhia. Felizes são os filhos de Deus que têm sido ensinados pelo Pai enquanto caminham com Ele! Enoque deve ter sido um homem de profundo conhecimento e de grande compreensão das coisas divinas. Ele deve ter mergulhado nas profundezas de Deus muito mais que qualquer outro homem. Sua vida, também, deve ter sido uma vida santa, pois ele andava com Deus, e Deus nunca Se desvia do caminho da santidade. Se andamos com Ele, precisamos andar de acordo com a verdade, a justiça e o amor. O Senhor não faz companhia ao injusto e rebelde, por isso, sabemos que se Enoque andava com Deus, ele deve ter sido um homem íntegro e santo.
         Além do mais, a vida de Enoque deve ter sido uma vida feliz. Quem poderia ser infeliz em tal companhia?! Com o próprio Deus ao nosso lado, o caminho nunca será triste. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (Sl. 23:4a). Deixe Deus ser sua companhia e sua estrada será um caminho agradável e uma via de paz. Não andou Enoque com Deus? Então, sua peregrinação deve ter sido segura. Que guarda extraordinário é o nosso Deus! Ele é sol e escudo! Ele dá graça e glória. Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará. Nada pode prejudicar o homem que anda com o Senhor Deus à sua direita.
         E ainda, que honra é andar com o Eterno! Muita gente daria milhões para andar com um rei. Algumas pessoas são tão fascinadas por autoridades superiores que, se um rei lhes der um sorriso, ficam totalmente inebriadas de prazer! Qual será, então, a honra de andar com o Rei dos reis? Que título de nobreza será concedido a quem andar com o bendito e único Soberano por toda vida? Quem é aquele assim favorecido para ser companheiro do Rei, e andar a sós com Ele e se tornar Seu amigo íntimo? O Senhor governa os céus e a terra, e o inferno. Ele é Senhor de todos que andarem com Ele!
         Só por essa honra, cristãos, devemos ansiar por andar com Deus! Enoque encontrou segurança, felicidade, santidade, honradez e nem sei mais quantas coisas excelentes! Mas, com certeza, sua vida foi brilhante — onde encontraremos outra igual?
         2. Em segundo lugar, vamos considerar QUAIS CIRCUNSTÂNCIAS ESTAVAM LIGADAS AO ANDAR DE ENOQUE COM DEUS. A primeira observação é que temos pouquíssimos detalhes sobre sua vida. Não sabemos muito a seu respeito e esta é sua vantagem. Feliz é a nação sem história, pois a que tem uma história já foi assolada por guerras, revoluções e derramamento de sangue. Mas uma nação que é sempre feliz, pacífica e próspera não tem uma crônica para atrair os amantes de emoções. Feliz foi Enoque por não podermos escrever uma longa biografia sobre ele! Estas poucas palavras “andou Enoque com Deus” são suficientes para descrever toda sua carreira até “que já não era, porque Deus o tomou para si”.
         Se você for ao campo de um agricultor e, quando voltar, disser: “Vi tantas flores amarelas recobrindo o campo que até parecia um manto dourado. Depois avistei, aqui e ali, flores brancas como botões prateados dispostos na veste dourada. Vi também centáureas azuis olhando para o alto com seus olhos adoráveis, fazendo o campo todo cintilar”; se fosse criança, você o teria achado lindo. Mas o agricultor balança a cabeça, pois sabe que o campo está em más condições e cheio de ervas daninhas! Contudo, se ao voltar, você simplesmente disser: “Como é lindo ver um campo de trigo maduro, e isso é tudo”, então sua descrição, embora breve, é bastante satisfatória.
         Muitos acontecimentos espantosos, impressionantes e sensacionais que vão tornar uma biografia interessante podem chamar a atenção, mas não falam da verdadeira excelência da vida. Nenhuma vida pode superar a do homem que, em silêncio, continua servindo a Deus no lugar onde a Providência o colocou. Acredito que no julgamento dos anjos e dos seres puros de espírito, o que será mais admirado na vida de uma mulher será simplesmente: “ela amava o Senhor e fez o melhor que pôde por Ele”. E, na vida de um homem, será mais digno de nota de quem for dito: “ele seguiu inteiramente o Senhor”. A vida de Enoque não teve aventuras. Mas já não é aventura suficiente andar com Deus? Qual maior ambição pode almejar uma existência honrosa do que permanecer em comunhão com o Eterno?
         Contudo, alguns dirão: “Bem, mas Enoque devia estar muito bem de vida. Sem dúvida, ele tinha uma posição bastante vantajosa para ser temente a Deus”. Ora, note que não era assim, pois, em primeiro lugar, ele era um homem público. Ele é chamado de “o sétimo depois de Adão”. Ele foi um homem importante e considerado um dos pais da sua época. Naquele tempo, um patriarca devia ser alguém notável, cheio de responsabilidades e de boa reputação. O costume antigo era que o chefe da família fosse profeta, sacerdote ou rei na sua parentela. E fora da família, se era um homem de posição e recursos, era conselheiro, magistrado ou governante. Enoque foi um grande homem em seus dias, um dos mais importantes daquele período. Portanto, podemos ter certeza de que ele tinha tribulações e suportava o peso da oposição do grupo de ímpios poderosos que se opunha aos caminhos da santidade.
         Ele é mencionado em uma lista nobre de homens. Algumas pessoas tolamente pensam: “Eu andaria com Deus se tivesse uma casinha no campo, se vivesse num vilarejo pacato, mas, veja, sou um homem público, tenho um cargo de confiança e tenho de estar com meus colegas. Não vejo como posso andar com Deus”. Ah, meu caro amigo, mas Enoque andou! Embora ele fosse, sem dúvida alguma, um homem célebre em sua época e cheio de deveres públicos, ainda assim ele não perdeu o fio da meada da conversa sacra com o Céu, e continuou firme no curso santo de sua vida durante séculos. Note ainda que Enoque foi um homem de família. Enoque andou com Deus e teve filhos e filhas.
         Alguns dizem “Olha, você não pode viver como quer quando tem uma porção de filhos à sua volta. Não me diga que dá para orar durante horas e ler em sossego as Escrituras quando se tem uma grande família com filhos pequenos. Você será perturbado e haverá muitos incidentes domésticos que, com certeza, tentarão tirá-lo do sério e acabar com sua serenidade. Vá para a floresta e encontre uma casinha abandonada — lá, com um jarro de água e um pedaço de pão, talvez você consiga andar com Deus — mas com uma esposa, nem sempre amistosa, e um bando de crianças que não param quietas, nem de dia nem de noite, como se espera que um homem ande com Deus?” A esposa, por outro lado, exclama: “Acho que se eu tivesse continuado solteira, poderia ter andando com Deus. Quando jovem, eu era cheia de devoção. Mas agora, com um marido, que nem sempre está nos melhores dias, e com filhos, que parecem ter uma infinidade de necessidades e nunca estão satisfeitos, como é possível andar com Deus?”
         Voltemos novamente para Enoque e acreditemos que isso é possível! “Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas.” Veja, portanto, que ele foi um homem público, teve uma família — e ainda assim, andou com Deus por mais de trezentos anos. Não é preciso ser um eremita, ou renunciar ao casamento, para viver perto de Deus. Além disso, Enoque viveu numa época muito perversa. Ele foi proeminente num tempo em que o pecado estava começando a cobrir a terra. Não demorou muito até a terra se corromper e Deus achar melhor varrer toda a população da sua superfície por causa do pecado.
       Enoque viveu numa época de escarnecedores e desdenhadores. Você conhece a sua profecia, registrada por Judas. Ele profetizou, dizendo: “Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.” Ele viveu num tempo em que poucas pessoas adoravam a Deus, e quem o fazia estava sendo atraído pelas palavras lisonjeiras das filhas dos homens. A igreja e o estado estavam propondo união, costumes e prazeres regidos pelo momento e as coisas do mundo estavam na ordem do dia. Ele viveu próximo do final dos tempos primitivos, onde a vida longa dos homens havia produzido grandes pecadores — e grandes pecadores tinham criado grandes provocações contra Deus. Não se queixe, então, da sua época e dos seus vizinhos e de outras coisas, pois em meio a todas elas você ainda pode andar com Deus. 
       Enoque andou com Deus e, em consequência disso, ele deu testemunho de Deus. “Profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão”. Ele não podia ficar calado! O fogo ardia dentro dele e não podia ser contido. Quando testemunhava de Deus, é claro que ele encontrava oposição. Tenho certeza disso pelo contexto de Judas, pois a passagem tem a ver com murmuradores “e descontentes, andando segundo as suas paixões. E cuja boca vive propalando grandes arrogâncias”, e Enoque é apresentado como tendo sido levado a tratar com essas pessoas. Seu sermão mostra que ele foi um homem que permaneceu firme em meio a uma torrente de blasfêmias e coisas reprováveis, liderando a grande controvérsia pela Verdade de Deus contra a vida ímpia e língua licenciosa dos escarnecedores da sua época. Ele diz: “Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram”.
        É claro que eles falavam contra Enoque, rejeitavam seu testemunho, atormentavam seu espírito, e ele lamentava que, com isso, estivessem falando contra Deus. Pois ele diz: “de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra Ele”. Ele via a vida ímpia que levavam e testemunhava contra eles. É incrível que o assunto principal de seu sermão tenha sido o Segundo Advento! E é ainda mais digno de nota que os outros dois homens que se poderia escolher por terem vivido tão perto de Deus, a saber, Daniel e João, também tenham falado muito a respeito da vinda do Senhor e do Dia do Julgamento. Não preciso citar as palavras de Daniel, o qual nos fala sobre o julgamento vindouro e sobre o Ancião de Dias que se assentará no Seu trono. E nem preciso repetir o constante testemunho de João sobre a Segunda Vinda do Senhor. Vou mencionar apenas sua exclamação fervorosa: “Vem, Senhor Jesus!”
       Vejam, pois, Enoque foi pregador da Palavra de Deus e, por isso, teve de tomar muito mais cuidado que a grande maioria das pessoas. E mesmo assim, com tudo isso e todas as outras coisas juntas, ele conseguiu agradar a Deus até o fim da vida! Falo de um fim que encontrou um interminável estado de alegria — enquanto esteve aqui ele andou em fé, andou de forma agradável a Deus — e, portanto, sua comunhão com o Senhor nunca foi quebrada.
         3. Isso nos leva a concluir com um terceiro ponto — QUAL FOI O FIM DA CAMINHADA DE ENOQUE? Gostaria primeiramente de salientar que ele terminou seu trabalho muito cedo. Enoque andou com Deus e esse caminhar foi tão bom, tão seguro, tão progressivo que ele viajou mais rápido e alcançou seu lar muito mais cedo do que qualquer um de nós que, às vezes, anda com Deus, e outras, com o mundo! Trezentos e sessenta e cinco anos seria uma vida longa para nós, mas foi curta para aquela época, quando muitos patriarcas chegaram quase a mil anos de idade.
         Sua vida, se comparada à existência comum daqueles dias, foi como um período de 30 ou 35 anos das vidas mais curtas — na verdade, a melhor analogia para sua vida é a de nosso Senhor. Assim como a vida longa dos homens da sua época, a de Enoque teve aproximadamente a mesma duração que a do Senhor Jesus em comparação com a nossa. Enoque morreu relativamente jovem, como Verdon, nosso irmão e presbítero, recém falecido, e não é de admirar. Dizem que “quem é amado pelos deuses morre jovem”, e tanto Enoque, quanto Verdon foram homens muito amados. Talvez esses santos tenham terminado sua carreira cedo porque fizeram seu trabalho com tanta diligência que acabaram logo.
         Alguns trabalhadores, quando têm algum serviço para fazer em casa, levam o dia todo, ou até uma semana inteira para acabá-lo, e fazem uma confusão sem fim! Não é à toa que algumas pessoas vivam tanto, pois precisam de muito tempo para fazer quase nada! Mas este homem fez seu trabalho tão bem e se manteve tão perto de Deus que sua jornada terminou ao meio-dia e o Senhor lhe disse: “Vem pra casa, Enoque! Não precisa mais ficar aí fora, vem para o Céu. Você já deu seu testemunho, já viveu sua vida. Por todas as gerações os homens o considerarão como modelo, por isso, pode vir pra casa”. Deus nunca mantém o trigo nos campos mais tempo que o necessário! Quando está maduro, Ele o colhe de uma vez! Quando Seu povo está pronto para ir para casa, Ele os leva. Não lamente a morte de um bom homem quando ele ainda é jovem. Pelo contrário, bendiga ao Senhor por ainda haver colheitas precoces no mundo e por alguns de Seus santos serem santificados tão rápido!
         Mas, afinal, o que aconteceu com Enoque? Receio ter dito que ele morreu, ou ainda direi; é muito natural falar sobre a morte de alguém, mas ele, só ele, e ninguém mais em toda a raça humana entrou na Canaã celestial sem atravessar o rio da morte! Está escrito a seu respeito: “e já não era”. Quem acredita que a palavra “morrer” signifique ser aniquilado teria seu ponto de vista ainda mais confirmado se as palavras do texto “e já não era” fossem aplicadas a todos os que partiram, pois se há uma expressão que talvez tenha esse significado no seu modo de tradução é essa — é só essa! “E já não era”, no entanto, não significa que ele foi aniquilado! Nem mesmo o termo mais fraco ‘morrer’ significa qualquer coisa do tipo!
         “E já não era” quer dizer: ele não estava mais aqui — e isso é tudo. Ele se foi da terra, mas estava — lá, para onde Deus o trasladou. Ele estava, ele está com Deus! E isso sem ter experimentado a morte! Não se ressinta por ele ter evitado a morte. Foi um benefício, mas não por algum meio tão extraordinário quanto alguns pensam, pois quem não morre precisa sofrer uma transformação e Enoque foi transformado. “Nem todos dormiremos”, diz o apóstolo, “mas transformados seremos todos” (1 Coríntios 15:51). A carne e o sangue de Enoque não podiam herdar o reino de Deus — rapidamente ele sofreu a transformação que você e eu sofreremos no dia da ressurreição. E, assim, ele não estava mais aqui, foi trasladado ou transplantado dos jardins da terra para o Paraíso lá do alto.
         Agora, se há alguém no mundo que nunca morrerá, é aquele que anda com Deus. Se há alguém a quem a morte será como nada, é o homem que olha para o Segundo Advento de Cristo e se regozija nele. Se há alguém que, embora passe pelos portões de ferro da morte, nunca sentirá o terror do inimigo cruel, é o homem cuja vida aqui embaixo foi de comunhão constante com Deus! Não há outro meio de escapar do sofrimento da morte a não ser andando com Deus, e então se poderá dizer: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:55). Está escrito de Enoque que “Deus o tomou para si”. Uma expressão extraordinária! Talvez Deus o tenha feito de forma visível. Não seria de estranhar. Talvez os patriarcas o tenham visto partir, assim como os apóstolos viram quando o Senhor foi assunto ao céu.
         Seja como for, houve um arrebatamento especial, algum tipo diferente de acesso desse eleito ao trono do Altíssimo. “E já não era, porque Deus o tomou para si”. Note que sentiram sua falta. Isso é algo que eu não poderia deixar passar. Sentiram sua falta, pois o apóstolo diz: “não foi achado”. Ora, se um homem não foi achado, é porque alguém procurou por ele. Quando Elias subiu ao céu, lembrem-se, cinquenta discípulos dos profetas saíram à sua procura. Não me causa estranheza o que fizeram — eles não se encontravam com Elias todos os dias — e quando ele se foi, com corpo e tudo, poderiam muito bem ir atrás dele! Enoque não foi achado, mas procuraram por ele.
         Sente-se falta de um bom homem. Um verdadeiro filho de Deus como esse na igreja, trabalhando e servindo ao Mestre, é um entre mil — mas se ele tem andado com Deus, sua morte é lamentada. Sentiremos falta do querido irmão que acabamos de sepultar. Seus colegas de conselho sentirão sua falta. Todos quantos foram convertidos a Deus por seu intermédio sentirão sua falta. Eu, com certeza, sentirei sua falta. Olho para onde ele costumava se sentar — e espero que quem ocupe o lugar tenha pelo menos metade do seu valor. Será mais do que posso esperar. Não queremos viver e morrer para que ninguém se importe se estivemos aqui na terra ou não. Sentiram a falta de Enoque quando ele se foi e assim será com quem andar com Deus.
         Finalmente, a partida de Enoque foi um testemunho. O que o bendito Espírito quis dizer por “e já não era, porque Deus o tomou para si” senão que existe um estado futuro? Os homens tinham começado a duvidar disso, mas quando disseram: “onde está Enoque?”, e quem testemunhou sua partida disse: “Deus o tomou para si”, isso foi, para eles, uma evidência da existência de um Deus, e também de um outro mundo. E quando perguntaram: “Mas onde está o corpo?”, há ainda outra lição. Dois homens morreram antes de Enoque, quero dizer, dois cuja morte está registrada nas Escrituras — Abel foi morto e seu testemunho foi de que o descendente da serpente odeia o descendente da mulher. Adão, também, morreu cerca de 50 anos antes da trasladação de Enoque, e seu testemunho foi de que, mesmo quando demora, o castigo é certo, e “a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18:4). Então vem Enoque e seu testemunho é de que o corpo pode ser imortal! Ele não pôde dar testemunho da ressurreição, pois não morreu — para isso temos o testemunho em Cristo, o qual é a primícia dentre os mortos. Mas o testemunho de Enoque deu uma boa indicação disso, pois forneceu provas de que o corpo pode ser imortal e viver num estado celestial. “E já não era, porque Deus o tomou para si”. Sua partida também foi um testemunho para a humanidade de que há um galardão para os justos, pois Deus não se assenta com olhar impassível, ignorando o pecado dos perversos, ou as virtudes dos santos. Seu testemunho prova que Deus vê aqueles que andam com Ele e Se agrada deles — e pode lhes dar, mesmo agora, as recompensas do presente, livrando-os do sofrimento da morte — e certamente Ele recompensará o Seu povo de uma forma ou de outra.
         Por isso, veja, vivendo e morrendo — não, morrendo não, enganei-me de novo — vivendo e sendo trasladado — Enoque foi uma testemunha para sua geração! E oro para que todos nós, vivendo ou dormindo, sejamos testemunhas de Deus. Ah, se pudéssemos viver como o nosso querido irmão Verdon, a quem recentemente sepultamos, viveu, cuja alma ardia por amor a Cristo! Ele tinha verdadeira paixão pelas almas! Mal consigo pensar em alguém entre nós que tenha feito tanto quanto ele, pois embora tivesse de granjear o pão de cada dia, ele passava as noites conosco no serviço do Senhor, ou na pregação do evangelho. Depois, muitas vezes ele saía às ruas cansado, cuidando dos abatidos, para poder recuperá-los! Com frequência, pela manhã, saía cansado para o trabalho, a não ser pelo descanso encontrado no serviço de Cristo.
         Às vezes, com os olhos cheios de alegria, ele encontrava um irmão e dizia: “Cinco almas para Cristo ontem à noite!”. Em outras, depois de um sermão, lá estava o grande caçador de almas, levando os interessados escada abaixo para a reunião de oração. E quando apertava minha mão, ele dizia com seu sotaque suíço, o qual nunca consegui imitar: “Jesus salvou mais alguns esta noite! Mais almas foram trazidas a Cristo”. Para ele, viver era ganhar almas! Ele era o membro mais jovem do nosso conselho, mas os grisalhos o respeitavam. Enquanto chorávamos sobre seu túmulo, não havia um sequer entre nós que não sentisse ter perdido um verdadeiro irmão em Cristo e um valente soldado. Que o Senhor levante outros dentre nós para fazer o mesmo que o Presbítero Gordon fazia!
         Que o Senhor desperte os irmãos e irmãs mais velhos para serem mais ativos e torne os jovens mais dedicados. Nossas fileiras estão desfalcadas, quem irá preencher as lacunas? Ficamos mais reduzidos, à medida que o Senhor vai levando um e outro para o lar dos mais instruídos e corajosos. Mas, pela Sua graça, todos os dias chegam novos recrutas! Que outros mais possam vir — sim, Senhor, traga-os pelo Teu Santo Espírito para serem líderes nas fileiras da frente, pois enquanto a vanguarda se transforma na Igreja Triunfante, que a retaguarda seja sempre acrescida de novos membros! Trasladados para os céus são alguns, que outros sejam trasladados das trevas para a maravilhosa luz, por amor de Cristo. Amém.
Tradução: Mariza Regina de Souza