Um Coração Dividido


Sermão nº 276

Ministrado na manhã de domingo, 25 de setembro de 1859, pelo

Rev. Charles H. Spurgeon

No Music Hall, Royal Surrey Gardens, Londres, Inglaterra


“O seu coração está dividido; por isso, serão culpados”. ━ Oseias 10:2 (ARC)

Esta passagem pode ser interpretada como se referindo ao povo de Israel enquanto nação, mas não é menos aplicável à igreja de Deus. Este é um dos maiores e mais graves erros da igreja de Cristo na atualidade, a qual não só está dividida em suas crenças, e na prática dos mandamentos, mas também, ai de nós, no seu coração. Quando as diferenças são de natureza tal que, como povo de Deus, ainda nos amamos e ainda somos unidos na luta comum contra o mal e no objetivo comum de edificar a igreja, há pouca coisa errada. No entanto, quando nossas divisões doutrinárias crescem a ponto de deixarmos de cooperar uns com os outros; quando nossas opiniões sobre meros costumes se tornam tão ácidas a ponto de não podermos mais estender a destra de comunhão a quem diverge de nós, então, realmente, a igreja de Deus é culpada. “Se uma casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir” (Marcos 3:25). Até mesmo Belzebu, com toda a sua astúcia, não pode subsistir quando seus demônios estão divididos. Se Belzebu estiver dividido contra si mesmo, ele vai cair e, com certeza, o mesmo ocorrerá com quem não tem a habilidade para superar a desunião. Ah, meus irmãos, nada pode tirar tão depressa o poder e a influência da igreja, minar suas glórias e diminuir suas chances de sucesso quanto às divisões no coração do povo de Deus. Se quisermos entristecer o Espírito Santo e fazer com que Ele Se vá, se quisermos provocar a ira do Altíssimo e trazer juízo sobre a igreja, só precisamos ter um coração dividido, e tudo isso ocorrerá. Se quisermos que cada frasco despeje o seu mal e cada vaso deixe de derramar o seu azeite, só precisamos acalentar nossas discussões até virarem hostilidade; e acariciar nossos ressentimentos até virarem ódio; e então o serviço estará completo. E se isso é verdade em relação à igreja em geral, quanto mais em relação aos diversos segmentos daquelas assim chamadas igrejas apostólicas. Ah, irmãos, a menor igreja do mundo sempre será poderosa se tiver um só coração e uma só alma; se pastor, presbíteros, diáconos e membros forem unidos pelo cordão de três dobras que não se arrebenta. Só assim eles poderão se defender de qualquer ataque. No entanto, por maior que sejam em número, por maior que seja sua riqueza, por mais esplêndidos que sejam seus dons, eles serão sempre impotentes quando estiverem divididos entre si. União é força. Bendito seja o exército do Deus vivo quando sai para a batalha com uma só mente, quando o tropel dos soldados é como o de um só homem, em marcha unida, indo direto para o ataque. Entretanto, uma maldição aguarda a igreja que, correndo de lá para cá dividida em si mesma, perde o sustentáculo da força com a qual deveria destruir o inimigo. A divisão corta a corda do nosso arco, quebra nossa lança, faz nosso cavalo escoicear e queima nossas carruagens no fogo. No momento em que o vínculo de amor é quebrado, estamos perdidos. Quando o vínculo perfeito é dividido em dois e nós caímos, a nossa força se vai. Pela união nós vivemos; pela desunião, expiramos.

Nesta manhã, no entanto, pretendo abordar este texto especialmente com relação à nossa condição individual. Vamos considerar o coração distinto, individual, de cada pessoa. Se as divisões no grande corpo maior — se a separação entre as diferentes partes desse corpo pode provocar desastres, muito mais desastrosa será a divisão naquele reino especial — o coração do homem. Se houver um tumulto civil na cidade de Alma-humana[1], mesmo sem um ataque do inimigo aos seus muros, sua posição se torna bastante vulnerável. Se a ilha de Man[2] for governada por dois reis, ficará desorganizada e logo será destruída. Portanto, hoje eu me dirijo àqueles de quem se pode dizer: “O seu coração está dividido; por isso, serão culpados”. E assim, vou lhes pedir, em primeiro lugar, para observar a terrível doença; em segundo, seus principais sintomas; em terceiro, seus tristes efeitos; e, em quarto, suas futuras consequências.

            1. Observe, então, que o nosso texto descreve uma DOENÇA ASSUSTADORA. O coração deles está dividido. Digo que é assustadora, e isso logo se tornará evidente, porque a primeira coisa a ser observada é a sua sede, onde ela está alojada. Ela afeta uma região vital. Não é apenas um ferimento na mão, que pode ser tratado com um curativo; não é uma dor no pé, que pode ser amenizada com uma imobilização; não é um simples problema no olho, que só precisa de um tapa-olho para protegê-lo da luz. É uma doença numa região vital — o coração; uma região tão importante que afeta a pessoa toda. Até as extremidades sofrem quando o coração está infectado, principalmente quando está infectado a ponto de ficar dividido. Não há força, nem paixão, nem motivação, nem princípios que não sejam afetados quando o coração está doente. É por isso que Satanás, cuja astúcia é incessante, se esforça para atacá-lo. Ele lhe dará uma mão, se você deixar; e você poderá ser uma pessoa honesta. Ele lhe dará um olho, se deixar; e, exteriormente, você será cheio de virtudes. Ele lhe dará um pé, se deixar; e você parecerá percorrer o caminho da retidão[3]. Mas, se deixá-lo se apossar do seu coração, se deixá-lo governar na cidadela, ele ficará bem contente em abrir mão de todas as outras coisas. John Bunyan descreve isso como uma das cláusulas manifestas pelo velho Diabolus ao Rei Shaddai: “Oh!”, disse ele, “abrirei mão de tudo na cidade de Alma-humana, se me deixares viver na cidadela do teu coração”. Certamente havia bem pouco em seus termos e condições. Ah, mas mesmo abrindo mão de todas as outras coisas, se retiveres o coração, reterás tudo, ó demônio! Porque do coração procedem as fontes da vida (Provérbios 4:23).

            Portanto, a doença do nosso texto é uma coisa que atinge uma região vital, um órgão que, uma vez afetado, tende a infectar o corpo todo. No entanto, você verá que ela não só atinge essa região vital, mas a atinge da pior forma possível. O texto não diz simplesmente que o coração está palpitando; nem fala que o fluxo de vida que brota dele se tornou mais fraco e mais lento; o texto declara uma coisa muito pior, ou seja, que o coração foi cortado em dois e está totalmente dividido. Um coração de pedra pode ser mudado em carne, mas mudar um coração dividido seja no que for, se está dividido, não tem mais jeito. Nada pode dar certo quando o que deveria ser um único órgão se transforma em dois; quando uma única fonte de energia começa a mandar seu fluxo por dois canais diferentes, gerando, assim, conflito interno e guerra. Um coração íntegro é a vida de uma pessoa, mas se for cortado em dois, no sentido mais extremo, profundo e espiritual, ele morre. Essa doença não só afeta uma região vital, ela a afeta de forma letal.

No entanto, é preciso observar mais uma coisa sobre este coração dividido: a sua própria divisão é repugnante. Pessoas com um coração assim não se sentem impuras; na verdade, elas convivem com todos na sociedade, se arriscam a ir à igreja, se submetem a receber sua comunhão e a fazer parte do seu rol de membros; depois vão e se misturam com o mundo; e não sentem que se tornaram infiéis. Elas acham que se adaptam tanto aos cidadãos decentes do mundo quanto aos verdadeiros cristãos. Se alguém tivesse uma mancha no rosto ou alguma doença que todo mundo ficasse encarando, com certeza, iria se afastar do convívio das pessoas e tentar se manter recluso. Mas não é assim com quem tem o coração dividido. A pessoa anda por toda parte, totalmente insensível à natureza repulsiva da sua doença. Posso mostrar como é? Pegue uma lente, dê uma olhada no coração dessa pessoa e verá como ele é nojento, pois Satanás e o pecado estão reinando ali. Embora a pessoa ande por aí e saiba o suficiente sobre o certo e o errado para ficar incomodada com seu pecado, ainda tem um amor tão grande por toda sorte de iniquidade que permite aos horríveis demônios entrar e habitar no seu coração. Contudo, sua condição abjeta é ainda pior, pois durante todo o tempo em que vive em pecado, ela é terrivelmente hipócrita, fingindo também ser uma filha de Deus. De todas as coisas fedorentas que incomodam uma pessoa sincera, a hipocrisia é a pior de todas. Se tu és mundano, sejas mundano. Se és servo de Satanás, serve-o. Se Baal for deus, serve-o, mas não mascara o servir a ti mesmo e ao pecado com um pretenso servir a Deus. Mostra-te como és, arranca tua máscara. A igreja não foi concebida para ser um baile de máscaras. Aparece em tuas verdadeiras cores. Se preferes servir no santuário de Satanás, que todos saibam disso, mas se desejas servir a Deus, serve-O, e faze-o de coração, sabendo que Ele é Deus zeloso e prova o mais íntimo do coração dos filhos dos homens (Jr. 11:20). Um coração dividido é uma doença terrivelmente repugnante. Se alguém fosse reconhecido só por causa dela, até o pior dos perversos não iria querer ter nada com ele. Às vezes, conheço gente assim. Certo homem fingia ser religioso e frequentava regularmente o lugar de culto, mas um dia foi visto entrando em um salão de má reputação. Assim que caiu na farra, com as piores intenções, imediatamente começou a ser observado. Até o senso de certo e errado dos ímpios é despertado. “Sumam com esse cara daqui!” é o veredito unânime, e ele recebe o que merece. Quando alguém tem o coração dividido — tenta fazer o certo e o errado — servir a Deus e ao diabo — ao mesmo tempo; por isso, digo que sua doença é tão sórdida e degradante que até as pessoas do mundo, cuja lepra está na testa, o desprezam e odeiam, e se afastam dele.

            Além disso, precisamos observar que essa doença não é apenas repulsiva, ela é também muito difícil de ser curada, porque é crônica. Não é uma doença aguda, que causa dor, sofrimento e tristeza, mas é crônica, pois está arraigada na própria natureza humana. Um coração dividido, como lidar com ele? Se fosse uma doença em qualquer outra parte do corpo, um bisturi poderia removê-la, ou um remédio poderia curá-la. Mas, que médico pode juntar um coração dividido? Qual cirurgião, por mais hábil que seja, pode juntar os membros destroçados de uma alma dividida entre Deus e Mamom (Mt. 6:24)? Esta é uma doença que penetra a própria natureza e continuará no sangue mesmo com a administração dos melhores remédios. Na verdade, é uma doença que nada, exceto a graça Onipotente, pode resolver. No entanto, aquele cujo coração está dividido entre Deus e Mamom não possui graça. Ele é inimigo de Deus, prejudicial à igreja, avesso à Palavra, um feixe pronto para a colheita do fogo eterno. Sua doença está profundamente enraizada dentro dele e, sem interferência, chegará a um fim terrível — sua destruição é certa.

            Preciso fazer mais uma observação, depois deixarei este ponto. Essa doença, de acordo com o texto hebraico, é muito difícil de ser tratada, pois é uma doença aduladora. O texto pode ser interpretado desta forma: “O seu coração os adula; por isso, serão culpados”. Existem muitos aduladores astutos neste mundo, mas o mais perspicaz é o próprio coração do homem. O coração humano adorna até mesmo os seus pecados. Se a pessoa é um sovina miserável — seu coração lhe dirá que esse é o seu jeito de fazer negócios. Se, por outro lado, ela for extravagante e esbanjar os dons de Deus com suas vis paixões; seu coração, então, lhe dirá que ela é uma alma liberal. O coração “põe o amargo por doce e o doce, por amargo” (Is. 5:20). É mais “enganoso que todas as coisas”, e tão “desesperadamente corrupto” (Jr. 17:9), que tem o descaramento de “fazer da escuridade luz e da luz, escuridade” (Is. 5:20). Ora, quando alguém tem o coração dividido, normalmente louva a si mesmo. “Bem”, ele diz, “é verdade que bebo um pouco demais, mas nunca deixo de fazer doações para caridade”. “É verdade”, reconhece, “com certeza não sou a pessoa mais decente do mundo, mas veja como frequento regulamente minha igreja”. “É verdade”, admite, “às vezes, faço uma tramoia ou outra nos negócios, mas estou sempre pronto a ajudar os pobres”. E, assim, ele imagina que pode apagar as marcas do mal no seu caráter com algumas coisas boas, por isso, adula o seu coração. Vejam como ele se sente satisfeito e contente consigo mesmo. O filho de Deus prova seu próprio coração com a mais profunda angústia; mas essa pessoa não conhece tal coisa. Ela tem sempre certeza de estar certa. O verdadeiro crente se senta e examina suas contas todos os dias para ver se está realmente no caminho do céu ou se cometeu algum erro e está enganado. Essa pessoa, no entanto, está satisfeita consigo mesma, venda os próprios olhos e anda deliberadamente, cantando pelo caminho, direto para sua própria destruição. Vejo aqui algumas pessoas assim. Mas não será suficiente eu simplesmente afirmar como ela é se o Espírito Santo de Deus não abrir seus olhos. Elas não conseguirão reconhecer a própria imagem; e mesmo se eu fizer um retrato fiel e pintar cada detalhe e cada traço do seu caráter, elas ainda dirão: “Mas ele não pode estar se referindo a mim. Sou uma boa pessoa e sou muito crente; as coisas que ele disse nada têm a ver comigo”. Sabe aquele tipo de pessoa que está sempre de cara fechada, com o olhar muito sério, que fala com uma espécie de sotaque meio pastoso, dando ênfase a cada palavra? Cuidado com ela! Quando alguém tem a religião estampada no rosto, normalmente não tem quase nada no coração. Comerciantes que colocam grandes cartazes na vitrine, geralmente têm pouco a oferecer. O mesmo acontece com as pessoas que se dizem crente; ninguém saberia que são religiosas, por isso, elas rotulam a si mesmas para ninguém desconfiar. Até poderíamos pensar que são pessoas do mundo, não fosse sua aparência de santarrões. Contudo, fingindo ser quem não são, elas acham que podem sair pelo mundo cheias de confiança. Só espero que não pensem que podem ser aceitas diante do tribunal de Deus e enganar o Onisciente. Ai delas! Seu coração está dividido. Esta não é uma doença rara, apesar da sua repugnância e terrível fatalidade. Ela é muito comum hoje em dia; dezenas de milhares de pessoas consideradas decentes e honradas sofrem desse mal. Sua cabeça inteira está doente e seu coração todo está fraco pelo fato de estar dividido. Essas pessoas não têm coragem de assumir que são totalmente pecadoras e não têm sinceridade suficiente para realmente se devotar a Deus.

            2. Tendo descrito a doença, passo agora a observar seus PRINCIPAIS SINTOMAS. Quando o coração de alguém está dividido, um dos sintomas mais comuns é o formalismo da sua religiosidade. Conhecemos alguns crentes que podem ser muito rigorosos quanto à certas formas de doutrina e grandes admiradores de determinadas maneiras de governar e administrar a igreja. Você verá que eles sentem profundo desprezo, aversão e ódio por quem discorda das suas preferências. Muito embora algumas diferenças sejam praticamente irrelevantes, eles se levantam e discutem por qualquer coisa, e protegem cada prego enferrujado da porta da igreja como se fosse um assunto de suma importância, achando que todas as sílabas da sua crença pessoal devem ser aceitas sem discussão. “Era assim no início, por isso tem de ser agora, e tem de ser sempre”. Vou fazer uma observação que, provavelmente, será confirmada pela sua experiência, assim como o é pela minha: a maioria dessas pessoas finca o pé tão ferozmente por causa da forma porque lhes faltar poder; por isso, a forma é tudo de que podem se vangloriar. Essas pessoas não têm fé, embora tenham um credo. Elas não possuem vida interior, por isso ocupam seu lugar com rituais externos. Será de estranhar, então, que defendam a forma com tanta intensidade? Quem sabe como é preciosa uma vida de santidade, quem entende a sua força, o seu poder profundamente entranhado e arraigado no coração, também ama a forma, mas não tanto quanto ama o Espírito. Essa pessoa aprova a letra, mas prefere a sua essência. Ela é inteligente, e talvez pense menos na forma do que deveria, pois irá se unir primeiro a um grupo de cristãos sinceros, depois aos outros, e dirá: “Se puder desfrutar da presença do meu Mestre, tanto faz onde me encontre. Se puder ver o nome de Cristo exaltado, e Seu evangelho puro anunciado, isso é tudo o que desejo”. Não é assim com quem tem o coração dividido, cuja alma não é piedosa. Ele é fanático ao extremo e — repito — talvez seja um pobre coitado, pois tudo o que tem é uma concha vazia. Será de admirar, então, que esteja pronto a lutar por ela? Você verá que muitas pessoas são extremamente formais até mesmo quanto à nossa simples forma de culto. Elas querem tudo muito certinho, não só na conduta reverente na casa de Deus, mas muito além disso; elas querem uma servidão odiosa, um medo tirânico tomando conta do coração daqueles que estão ali reunidos. Querem tudo nos mínimos detalhes e que o culto seja sempre conduzido com certo decoro tradicional. Ora, essas pessoas, quase sempre, pouco sabem sobre o poder da santidade, e só brigam pelas pequenas conchas porque não têm conteúdo. Brigam pela superfície, apesar de nunca terem descoberto “as águas das profundezas” (Dt. 33:13, NVI). Elas não conhecem o minério precioso que se encontra nas ricas minas do evangelho, por isso, a superfície, mesmo coberta de ervas daninhas e cardos, é suficiente para elas. Formalismo na religião, com frequência, é um traço do caráter de alguém cujo coração está dividido.

            Todavia, talvez esse não seja o sintoma mais importante. Outra característica do caráter de alguém cujo coração está dividido é a sua inconsistência. Você não o verá com muita frequência, se quiser ter uma boa impressão sobre ele. E deve ficar atento quando for procurá-lo. Se for num domingo, verá como ele é santo; mas se for num sábado à noite — talvez descubra o quanto ele se parece com o pior tipo de pecador. Ah, de todas as pessoas do mundo, as que mais temo, porque sei o quanto são perigosas e enganosas, são aquelas que tentam, de todas as formas, seguir a igreja e o mundo ao mesmo tempo. Numa hora estão no culto vespertino entoando os sagrados hinos de Sião; noutra, em lugares malfrequentados cantando música lasciva e profana. Num dia, estão à mesa do Senhor, noutro, à mesa dos demônios. Primeiro, parecem trabalhar na obra junto com os filhos de Deus, em seguida, juntam-se ao populacho para fazer o que não presta. Ah, irmãos, isso, na verdade, é algo terrível — um terrível sinal de uma doença assustadora: se você leva uma vida inconsistente, deve ter um coração dividido. É motivo de alegria quando um ministro pode acreditar que nenhum dos membros da sua igreja seja hipócrita; mas ouso dizer que, embora com a mais profunda tristeza, isso é mais do que espero de uma igreja tão grande quanto a qual fui chamado a pastorear. Ah, amigos, talvez alguns de vocês pratiquem certos pecados longe da vista do seu pastor. Nenhum diácono ou presbítero ainda foi atrás de vocês. Vocês são astutos na sua iniquidade. Talvez seu pecado seja de tal ordem que, de forma alguma, a disciplina da igreja possa resolver. Saibam, porém, e a sua consciência lhes dirá, que sua vida não é consistente com sua profissão de fé. E eu lhes imploro, pelo Deus vivo, quando naquele último dia vocês e eu estivermos face a face diante do tremendo tribunal do Senhor: desistam da sua confissão ou sejam fiéis a ela. Parem de ser chamados cristãos ou sejam cristãos de verdade. Busquem mais graça, a fim de poderem viver de acordo com o exemplo do seu Mestre; ou então, eu lhes rogo — e sejam sinceros; e, se me levam a sério, vou me alegrar quando o fizerem — desistam da sua membresia e abandonem a sua confissão. Vida inconsistente, eu lhes digo, é sinal evidente de um coração dividido.

            Além disso, preciso mencionar mais um sinal de um coração dividido, ou seja, a sua inconstância. Posso descrever um personagem que talvez já tenham encontrado muitas vezes. Alguém vai a uma reunião ou a um encontro religioso e é subitamente tomado de entusiasmo para fazer o bem. Ele quer ser missionário no Exterior ou dedicar seus bens à causa missionária e, durante as semanas seguintes, só falará em missões. Algum tempo depois, ele vai a um comício político e, então, não haverá nada mais importante para ele do que a reforma política. Na outra semana, ele é chamado para integrar uma comissão de saneamento, e aí não existirá nada que ele queira, a não ser o tratamento de esgoto. Religião, política, economia social, um de cada vez, e tudo o mais precisa dar lugar àquilo que chama sua atenção naquele momento. Essas pessoas vão primeiro em uma direção, depois em outra. Sua religião é espasmódica. Elas são consumidas como quem é consumido por uma febre. São sacudidas por um espasmo e logo em seguida se acalmam. Algumas vezes estão quentes e febris, outras, frias e indiferentes. Elas se devotam a uma religião, depois a abandonam. Isso só comprova que elas têm um coração dividido e, aos olhos de Deus, são pessoas doentes e repulsivas, as quais nunca verão a Sua face com alegria.

            Para concluir a lista dos sintomas: frivolidade religiosa quase sempre é sinal de um coração dividido; e aqui me dirijo diretamente àqueles da minha própria geração[4]. Um pecado muito comum entre os jovens é não levar a religião muito a sério ou com reverência. Há um tipo de seriedade muito bem-vinda, principalmente a jovens cristãos. A alegria deveria ser o alvo constante dos idosos; mas eles tendem a ser melancólicos. Talvez um pouco de seriedade e reverência devesse ser o alvo dos jovens crentes, cuja tendência é mais para a leviandade do que para o desânimo. Ah, irmãos, quando falamos de coisas religiosas com irreverência; quando citamos textos das Escrituras com zombaria; quando nos aproximamos da mesa do Senhor como se fosse uma simples refeição; quando vemos o batismo como uma observância comum, sem qualquer solenidade — então, receio que estejamos evidenciando um coração dividido. E eu sei que qualquer alma consciente da sua culpa, quando levada a conhecer realmente o amor de Cristo, sempre verá as coisas sagradas de forma diferente. Ela não participa da mesa do Senhor com coração leviano. Para ela, tudo parece muito solene. E, quanto ao batismo, quem é batizado sem ter sondado seu coração, sem ter examinado seus motivos e sem a verdadeira devoção do espírito, é batizado absolutamente em vão. Assim como o comungante em pecado come e bebe juízo para si, aquele que é indevidamente batizado recebe condenação em vez de bênção. Frivolidade espiritual com frequência é sinal de um coração dividido.

            3. Isso nos leva ao terceiro ponto: os tristes efeitos de um coração dividido. Quando o coração de alguém está dividido, tudo é ruim para ele. Com relação a si mesmo, ele é muito infeliz. Quem pode ser feliz quando tem dentro do próprio peito forças rivais? A alma precisa encontrar um refúgio para si ou não achará descanso. O pássaro que tenta se apoiar em dois galhos nunca terá paz, e a alma que se esforça para encontrar dois lugares de descanso — primeiro no mundo, depois no Salvador — nunca terá alegria ou consolo. Um coração unido é um coração feliz; por isso, Davi disse: “une o meu coração ao temor do teu nome” (Salmo 86:11b, ACR, Fiel). Aqueles que se entregam inteiramente a Deus são um povo abençoado, pois descobrem que os caminhos da religião “são caminhos deliciosos, e todas as suas veredas, paz” (Provérbios 3:17). Quem não é nem isto nem aquilo, nem uma coisa nem outra, é sempre inquieto e infeliz. O temor de ser descoberto e a consciência de estar errado conspiram juntos para agitar a alma e deixá-la cheia de males, preocupação e inquietação de espírito. Tal pessoa é, em si mesma, infeliz.

            Essa pessoa também é inútil na igreja. Qual é a sua serventia para nós? Não podemos colocá-la no púlpito para falar de um evangelho que ela não pratica. Não podemos colocá-la no diaconato, pois sua vida não seria condizente com servir à igreja. Não podemos dar-lhe a responsabilidade do presbiterato por entendemos que, não sendo uma pessoa temente a Deus, questões espirituais não devem ser confiadas a ela. Em nenhum aspecto, essa pessoa é boa para a igreja. “Prata de refugo lhes chamarão” (Jeremias 6:30). Seu nome pode estar inscrito no rol de membros, mas é melhor que seja retirado. Ela pode se sentar entre nós e nos dar sua contribuição, mas ficaríamos muito melhor sem qualquer uma das duas, mesmo que ela duplicasse seu talento e triplicasse sua oferta. Sabemos que quem não tem o coração íntegro e totalmente voltado para Cristo não pode fazer absolutamente nada na igreja de Deus.

            Todavia, não é somente isso; uma pessoa assim também é perigosa para o mundo. Ela é como um leproso que se infiltra no meio de pessoas saudáveis; ela espalha a doença. Um bêbado é um leproso que isola a si mesmo; mas, comparativamente, ele causa poucos danos, pois na sua embriaguez ele é como o leproso expulso da sociedade. Sua própria bebedice grita: “Imundo! Imundo! Imundo!” Mas o homem de coração dividido é um religioso confesso, por isso é tolerado. Ele se diz cristão, assim, é admitido em toda a sociedade, mesmo sendo cheio de podridão e falsidade em seu interior. E, embora externamente seja caiado como um sepulcro, é mais perigoso para o mundo que o pior pecador. Prenda-o! Não o deixe solto! Construa uma prisão para ele! Mas o que estou dizendo? Se fôssemos construir uma prisão para hipócritas, Londres inteira não seria suficiente para todas as prisões necessárias. Ah, meus irmãos, apesar da impossibilidade de prendê-los, digo que o cão mais danado, nos dias mais quentes, não é nem de longe tão perigoso para as pessoas quanto quem tem um coração está dividido e corre atrás dos outros com o veneno raivoso da hipocrisia nos lábios, contaminando e destruindo sua alma.

            E essa pessoa não é apenas infeliz em si mesma, inútil para a igreja e perigosa para o mundo, ela também é desprezível a quem quer que seja. Quando é desmascarada, ninguém quer saber dela. Raramente o mundo a aceita, e a igreja não terá nada para lhe dar, a não ser sua desaprovação.

            A consideração mais séria a fazer, no entanto, é que tal pessoa é reprovável aos olhos de Deus. Para os olhos da infinita pureza, ela é um dos seres mais nefastos e abjetos que existe. Seu coração está dividido. Um Deus puro e santo odeia, primeiramente, o seu pecado; depois as mentiras com as quais ela procura encobri-lo. Ah, se há um lugar onde os pecadores são mais repulsivos a Deus do que em qualquer outro, esse lugar é na Sua igreja. Cachorro no canil está no lugar apropriado; mas, na sala do trono está totalmente fora de lugar. Um pecador no mundo já é ruim o suficiente, mas, na igreja, é simplesmente abominável. Um louco no sanatório é uma criatura digna de pena, mas um louco que não se acha louco e se imiscui entre nós para obter meios de fazer o mal, não é apenas digno de pena, mas precisa ser evitado, e deve ser contido. Deus odeia o pecado seja onde for, mas quando o pecado coloca seus dedos no altar divino; quando chega e põe a mão insolente no sacrifício ali oferecido, Deus simplesmente o abomina. De todas as pessoas, as que estão no lugar mais provável de receber o raio mais potente, o flash mais terrível de um relâmpago, são aquelas com um coração dividido, aquelas cuja confissão é servir a Deus enquanto, com a alma, estão servindo ao pecado. Acautelai-vos, pecadores, acautelai-vos, pois continuando em vosso pecado, acabareis se deparando com o castigo; não obstante, hipócritas, atentai para os vossos caminhos, pois o vosso pecado e as vossas mentiras trarão rápida e pavorosa destruição sobre as vossas cabeças carolas.

            4. Para concluir, preciso fazer algumas observações a respeito do CASTIGO RESERVADO àquele cujo coração está dividido, caso não seja resgatado por uma grande salvação.

            Esforcei-me para ser fiel nesta pregação, o mais fiel que pude, mas estou ciente de que muitos dos filhos de Deus não encontram alimento espiritual em um sermão como este, nem é esta a minha intenção. Não é possível, honestamente, misturar a peneira com o recipiente do evangelho. Não posso lhes trazer, de forma satisfatória, o trigo e a peneira. Hoje estou procurando, como ministro do evangelho, tomar a pá em minhas mãos, para limpar completamente a eira em nome daquele que será o grande “Purgador” no último dia (Mateus 3:12). Todos precisamos ser purificados, quer saibamos disso ou não. Mesmo os melhores cristãos às vezes precisam se questionar quanto a seus motivos. E quando os filhos de Deus não são alimentados, muitas vezes é melhor para eles serem levados ao autoexame do que receberem uma preciosa promessa como alimento. Caros ouvintes, em razão do grande número de pessoas aqui nesta manhã, será que é possível não haver ninguém com o coração dividido? Será que toda esta congregação é composta apenas de cristãos sinceros, verdadeiramente iluminados, chamados e salvos? Não há ninguém que tenha se enganado de lugar, colocando-se entre as ovelhas, quando deveria estar entre os bodes? Será que ninguém, sem ter cometido um erro, veio a se infiltrar descaradamente entre os sacerdotes de Deus, quando, na verdade, é adorador de Baal? Permitam-me, então, por último, a fim de poder desempenhar fielmente minha missão, descrever as horríveis condições de um hipócrita quando Deus vier para julgar a terra.

            Lá vem ele, com a maior cara de pau; ele vem no meio da congregação dos justos. Uma ordem parte do trono: “Ajuntai primeiro o joio!” Ele a ouve, mas nem fica pálido. Mesmo agora, seu descaramento continua. Ele até poderia bater na porta e dizer: “Senhor! Senhor! Abre pra mim, por favor”. O anjo separador voa. O terror se estampa no rosto dos ímpios quando o joio é atado em feixes e colocado à esquerda para ser queimado. Imagine o choque ainda maior desse indivíduo quando, estando em meio a ministros, santos e apóstolos, de repente se vê prestes a ser catado dentre eles. Com um tremendo mergulho, como uma águia descendo das alturas, o anjo da morte cai sobre ele e o arrebata, reivindicando sua posse. “Tu és”, diz o anjo negro, “tu és joio. Cresceste lado a lado com o trigo, mas isso não mudou tua natureza. O orvalho que cai sobre o trigo caiu sobre ti; o sol que brilhou sobre ele também foi deleitoso para ti; mas ainda és joio e o teu destino continua o mesmo. Serás atado junto com o resto para seres queimado”. Ah, meus ouvintes, que choque será quando a mão poderosa daquele anjo o arrancar pela raiz, para levá-lo embora; ele, que pensava ser santo, será atado no mesmo feixe de pecadores para destruição!

            E, agora, imagine como ele é recebido. Ele é trazido no meio dos perversos — os quais anteriormente, com língua farisaica, ele havia condenado. “Lá vem ele”, dizem eles, “aquele que nos dava ordens, o bom homem que nos dizia o que fazer, ei-lo aqui em pessoa; finalmente ele descobriu que não é melhor do que aqueles a quem desprezou”. Depois imagine, se tiver coragem, o calabouço íntimo, os assentos reservados da morada de fogo e os pesados grilhões de desespero — imagine, se puder, a terrível destruição, muito além de qualquer outra, que tomará conta daquele que, neste mundo, enganou a igreja e desonrou a Deus, e agora é desmascarado para a sua própria vergonha. Pecadores comuns ficam em prisão comum, mas essa pessoa será lançada numa prisão íntima e acorrentada ao tronco do desespero. Tremam, vocês que se dizem crentes, tremam, vocês que não são nem uma coisa nem outra; tremam, vocês que fingem temer a Deus, mas, como os samaritanos, adoram também aos ídolos. Oh! Tremam agora, para que o temor não recaia sobre vocês no dia em que, sem se dar conta, desejarem ardentemente uma rocha para se esconder ou uma montanha para se ocultar e não encontrarem proteção do furor da ira do Deus de toda a terra.

            Mas não posso deixá-los ir sem lhes falar, por um momento ou dois, do evangelho. Talvez alguém esteja dizendo: “Pastor, meu coração não está só dividido, ele está partido”. Ah, mas existe uma enorme diferença entre um coração dividido e um coração partido. O coração dividido está cortado em duas partes; o coração partido está quebrado, aos pedaços, mas ainda não está dividido. Em certo sentido, ele está estraçalhado, no que diz respeito à sua arrogante confiança; mas, em outro, está unido, no que diz respeito ao seu ardente desejo de poder ser salvo. Pobre coração partido, eu não estava te censurando. É teu desejo nesta manhã ter teus pecados removidos? Então, do fundo do teu pobre coração partido clama: “Senhor, guarda-me da hipocrisia. Seja eu o que for, não me deixes pensar que sou um dos teus se não sou”. Estás sussurrando esta oração para Deus? “Senhor, faz-me realmente Teu. Coloca-me entre os Teus filhos. Deixa-me Te chamar de Pai e não permitas que me afaste de Ti. Dá-me um novo coração e um espírito reto; ó, lava-me no sangue de Cristo e purifica-me. Faze de mim o que queres que eu seja e eu Te louvarei para sempre”. Lembra-te, caro ouvinte, se esse é o desejo do teu coração, tu és hoje chamado a crer que Cristo pode salvar-te, e quer salvar-te, e está esperando para ser gracioso para contigo, e mais pronto a te conceder misericórdia do que estás para recebê-la. Portanto, és ordenado a confiar nEle, pois todos os teus pecados foram punidos nEle como teu fiador e, por causa de Cristo, Deus está disposto a receber-te agora, e a abençoar-te agora. Achega-te a Ele nesta manhã; eleva os teus olhos para Aquele que morreu no madeiro. Confia nAquele que é o meu Redentor, e é também o teu Redentor; deixa o sangue que flui do Seu lado ser recebido no teu coração. Abre as tuas feridas e dize: “Mestre, cura-as para mim. Ó Jesus! Não conheço nenhum outro em quem confiar. Se me salvares, jamais conhecerei outro amor. O amor do meu coração é indivisível e ele confia somente em Ti; logo sua gratidão também será indivisível; e eu Te louvarei, a Ti somente”. Pobre coração penitente, não me enganei ao discordar de mim mesmo, dizendo: “Apesar do teu coração estar partido, ele não está dividido”. Traze-o como ele está e dize: “Senhor, recebe-me pelo sangue de Cristo e deixa-me ser Teu agora, e ser Teu para sempre, por meio de Jesus”. Amém.

Tradução: Mariza Regina de Souza





[1] As Guerras da Famosa Cidade de Alma-humana, John Bunyan

[2] Ilha que faz parte do Reino Unido situada no mar da Irlanda

[3] As três expressões usadas por Spurgeon formam um jogo de palavras com partes do corpo ━ mão, olho e pé, praticamente intraduzível de forma literal para o português.


[4] Na época deste sermão, 1859, Spurgeon contava com 25 anos de idade.

13 de julho - Devocional Matutina

"Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira?"— Jonas 4:9.

A ira nem sempre, ou necessariamente, é pecaminosa, mas, toda vez que ela se revela, tende a aumentar, por isso, é preciso questionar de imediato a sua natureza fazendo a seguinte pergunta: “É razoável essa tua ira?” Nossa resposta pode ser “SIM”. Com frequência, a ira é o estopim dos loucos, mas, por vezes, é o fogo do céu de Elias. É bom quando ficamos irados com o pecado, devido à ofensa cometida contra o nosso bondoso e gracioso Deus; ou com nós mesmos, por continuarmos tão tolos depois de receber tanta instrução divina; ou ainda com os outros, quando a única causa da sua ira é o mal que praticam. Quem não fica com raiva diante da transgressão torna-se coparticipante dela. O pecado é uma coisa odiosa e repulsiva, e nenhum coração renovado pode tolerá-lo com paciência. O próprio Deus Se ira com os ímpios todos os dias, e está escrito em Sua Palavra: “Vós que amais o SENHOR, detestai o mal” (Salmo 97:10). No entanto, com muito maior frequência, deve ser o receio de que a nossa ira não seja recomendável ou justificável; por isso, precisamos responder: “NÃO”. Por que ficamos irritados com as crianças, exaltados com nossos empregados e irados com nossos companheiros? Será que essa ira honra a nossa profissão de fé ou glorifica a Deus? Será que nosso velho coração dominado pelo mal está tentando ganhar terreno, e precisamos resistir a ele com o poder da nossa nova natureza? Muitas pessoas professas dão lugar a seu temperamento como se fosse inútil tentar resistir; no entanto, o crente deve se lembrar de que precisa ser mais que vencedor em todos os sentidos, ou não poderá ser coroado. Se não conseguimos controlar o nosso temperamento, o que a graça fez por nós? Alguém disse ao Sr. Jay que a graça muitas vezes foi enxertada no toco de um caranguejo. “Sim”, disse ele, “mas o resultado não será caranguejos”. Não podemos usar nossa fraqueza natural como desculpa para o pecado, mas precisamos correr para a cruz e orar para que o Senhor crucifique o nosso temperamento e nos renove em bondade e mansidão conforme a Sua própria imagem.

12 de julho - Devocional Vespertina

“Seu reino celestial” ━ 2 Timóteo 4:18
Pense: a cidade do grande Rei é um lugar de serviço ativo. Dia e noite os espíritos redimidos O servem no Seu templo. Eles nunca cessam de realizar a boa vontade do seu Rei. Eles sempre “descansam”, no que diz respeito à tranquilidade e liberdade de preocupações; e nunca “descansam”, no sentido de indolência e inatividade. A Jerusalém de ouro é lugar de comunhão entre todo o povo de Deus. Lá nos assentaremos com Abraão, Isaque e Jacó em comunhão eterna. Lá manteremos conversas em alto nível com a nobre multidão dos eleitos, todos reinando com Aquele que, por Seu amor e braço forte, os conduziu em segurança para casa. Lá não haverá solo, pois no coro todos louvarão ao nosso Rei. O céu é lugar de vitória conquistada. Sempre que tu, cristão, és vitorioso sobre as tuas concupiscências ━ sempre que, após árdua batalha, abates a tentação ━ nessa hora antecipas a alegria que te espera quando o Senhor calcar Satanás a teus pés, e tu fores mais que vencedor por meio dAquele que te amou. O paraíso é um lugar de segurança. Quando desfrutas a plena certeza da fé, tens a garantia daquela gloriosa segurança que será tua quando fores cidadão perfeito da Jerusalém celestial. Ó Jerusalém, doce lar, porto venturoso de minh’alma! Graças, mesmo agora, Àquele cujo amor me ensinou a ansiar por ti; mas, graças ainda mais alto na eternidade, quando eu te possuir.
Minh’alma as uvas provou
E agora anela alcançar
As vinhas do meu Senhor
Onde todos os cachos se pode achar
Na vinha viva e verdadeira
Minh’alma faminta irá festejar
E no fruto divino se banquetear
Uma hóspede eterna da videira.

Tradução: Mariza Regina de Souza

Um Teste para Quem Realmente Busca a Deus



Sermão Nº 2566
Sermão programado para ser lido no Dia do Senhor, 17 de abril de 1898. Pregado por C. H. Spurgeon no Tabernáculo Metropolitano, em Newington, na noite de quinta-feira de 15 de fevereiro de 1883.
“Perguntarão pelo caminho de Sião, de rostos voltados para lá.”
Jeremias 50:5
Esta foi uma profecia de Jeremias a respeito da destruição da Babilônia. Israel e Judá tinham sido levados para o cativeiro pelo poder dominante da época. Os cativos viviam na distante Babilônia e choravam ao se lembrar de Sião. O profeta anuncia que, no dia em que Deus quebrasse o poder da Babilônia e derrubasse seus falsos deuses, chegaria o tempo da volta dos cativos à sua terra natal. Parece uma simples observação, mas, quando nos lembramos do seu significado simbólico, vemos como é cheia de consolo. Por natureza, somos todos cativos do poder de Satanás, do pecado e da morte. Esta é a grande Babilônia que tem mantido cativos até mesmo os eleitos de Deus! E existem multidões, redimidas pelo precioso sangue de Cristo, que ainda estão em cativeiro, sob o poder das trevas. Ora, assim como Israel encontrou consolo e esperança, e tinha expectativa de voltar à terra prometida quando o poder da Babilônia fosse quebrado, também há conforto para todo pecador que deseja escapar do poder do pecado e de Satanás no fato de Cristo ter quebrado o poder do antigo dragão. Eles entraram em combate mortal. Todas as hostes do inferno foram reunidas na terrível e tenebrosa hora em que nosso Campeão, sozinho, O qual foi ungido por Deus para lutar as nossas batalhas, opôs-Se a todos elas e as derrotou! Elas feriram Seu calcanhar, pois Ele deixou Seu corpo sangrando na cruz, mas Ele esmagou a cabeça do Seu arqui-inimigo. Quando bradou “está consumado”, Ele anulou os poderes que se levantaram contra Ele — e a Babilônia foi imediatamente subjugada! Eis a nossa esperança.
Ouça, você que está nas garras de Satanás, você ainda pode vencê-lo pelo sangue do Cordeiro, pois o próprio Cordeiro já o venceu e, todo aquele que confia no Seu grande sacrifício, será mais que vencedor! Ele levou cativo o cativeiro! Ele é o senhor da situação e Seus adversários já foram totalmente derrotados. Adversários Dele, eu disse, mas eles também são seus adversários — portanto, todo pecador que deseja escapar da escravidão de Satanás, crie coragem na esperança das boas novas de que, na Pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, Yaweh já triunfou sobre o nosso grande inimigo! Ele quebrou o jugo de ferro, para Seus redimidos poderem ir em liberdade! Assim, a destruição da Babilônia está na salvação de Israel.
Observe a seguir as palavras do versículo quatro: “Naqueles dias, naquele tempo, diz o SENHOR, voltarão os filhos de Israel, eles e os filhos de Judá juntamente” — das quais concluo que, quando o coração dos homens se dispõe a buscar ao Senhor, é maravilhoso como eles se tornam amigáveis! Sabemos que os filhos de Israel e os filhos de Judá há muito estavam separados. Cada qual tinha seu próprio rei e quase sempre estavam em guerra. Eles tinham inveja um ao outro, embora devessem ser irmãos. Mas agora, quando Deus começa a lidar com eles e eles começam a buscar a Deus novamente, eles se tornam amigos! Que nós também possamos esquecer as nossas inimizades quando começarmos a nos arrepender da nossa inimizade contra Deus! O momento de perdoar um irmão é quando, nós mesmos, pedimos ao Senhor: “Perdoa as minhas transgressões”. E isso precisa ser feito! Será um grande empecilho para qualquer um que busque a Deus, tentar encontrar o Senhor mas, em seu coração, nutrir ressentimento contra quem o tenha ofendido. Creio haver muitas pessoas que anelam pela paz com Deus; mas elas nunca a encontrarão se antes não fizerem as pazes com seus semelhantes. Lembre-se das palavras de nosso Senhor: “Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta” (Mt. 5:23-24).
Será que você pediria ao grande Rei para perdoar sua dívida colossal quando você mesmo está prestes a pegar seu irmão pelo pescoço só porque ele lhe deve alguns trocados? Bom, certamente você não pensa que Deus ouvirá sua súplica! Não, mas, quando o Senhor atrai as pessoas para Si, é incrível como elas se aproximam umas das outras! Israel e Judá, então, estarão orando e chorando juntos — e buscando o mesmo Senhor. Isso é muito comum em época de avivamento. Alguém se levanta pedindo oração e fica espantado ao descobrir que um irmão, com quem tinha brigado alguns meses antes, também está suplicando por misericórdia! Vizinhos que haviam se desentendido vêm ao Tabernáculo e encontram, juntos, o Salvador, e a partir daí se tornam bons amigos — pois é certo que o Deus que nos reconcilia Consigo mesmo também nos tornará afetuosos uns para com os outros! Atente para isto, então, você que busca o Salvador! Você que é encorajado pelo fato de o poder de Satanás ter sido quebrado: cuide para resolver todas as suas diferenças e ponha um fim a toda inveja e disputa, pois só assim você terá socorro ao buscar o Senhor.
Veja, pois, que o jeito certo de um pecador voltar é buscando ao Senhor em primeiro lugar; e depois, buscando a Sião — ou seja, a igreja, ou o céu, ou o que quer que você entenda por Sião. O versículo quatro diz: “virão e buscarão ao SENHOR, seu Deus”. O livro O Peregrino, de João Bunyan, mostra o caminho para o céu, mas devemos sempre nos lembrar de que ele não escreveu para mostrar aos pecadores o caminho para Cristo, e sim para mostrar o caminho para o céu. Mesmo sendo coisas diferentes, em alguns aspectos são semelhantes, apesar dessa diferença. O caminho para Cristo é: “creia e viva”. O caminho para o céu é, primeiro “creia no Senhor Jesus Cristo”, e então, depois disso, pela Sua graça, continue a conhecer o Senhor, indo de força em força, de graça em graça, até, finalmente, estar preparado para a felicidade eterna. Há uma diferença entre buscar a Cristo e buscar o povo de Cristo que sempre deve ser observada: não se pode buscar o povo de Cristo para se unir a ele, sem, antes de qualquer outra coisa, ter encontrado a Cristo! Quando você crê no Senhor Jesus Cristo, então Cristo é seu e você é salvo! Só depois, vá e una-se à igreja militante aqui embaixo; e, no devido tempo, você se unirá à igreja triunfante lá de cima. No entanto, lembre-se sempre: a primeira coisa que um pecador deve fazer não é buscar o céu, nem unir-se à igreja, mas buscar ao Senhor. Você tem de se reconciliar com o Deus que o fez — você tem de experimentar o poder do único Deus que pode recriá-lo e torná-lo nova criatura em Cristo — você tem de buscar ao Senhor.
“Mas”, diz alguém, “Deus é fogo consumidor”. Sei que é. Portanto, vá Àquele que tudo pode consumir, para que Ele consuma tudo o que em você pode ser consumido e lhe dê uma vida inconsumível, a qual continuará a existir mesmo em meio ao fogo, sem ser consumida! Não há céu sem Deus, não há consciência em paz sem Deus, não há purificação dos pecados sem Deus. O Senhor diz: “Buscai a Minha face”. No entanto, muitos cometem o erro de ir e se unir aos cristãos. Não, não! Voltem — não se pode ir a Deus desse jeito! Primeiro, se entregue ao Senhor e, só depois, “a nós, pela vontade de Deus” (2 Co. 8:5). Antes de qualquer outra coisa, você precisa se unir ao Cabeça; depois aos membros! Em primeiro lugar, Cristo; depois, a Sua igreja. Coloque as coisas na ordem certa — comece e continue como Deus quer que você faça. “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc. 16:16). Que isso fique em sua memória, se você está buscando o Senhor.
Outra observação que se levanta do contexto é: quem busca ao Senhor O busca chorando. “Voltarão os filhos de Israel, eles e os filhos de Judá juntamente; andando e chorando”. Repare na combinação “andando e chorando”. Alguns estão chorando, mas não andando; outros estão andando, mas não chorando. É uma bênção quando temos as duas coisas juntas — aproximando-se de Deus de forma ativa e sentindo profunda tristeza pelo pecado de forma passiva. Existem dois tipos de lágrimas, e creio que quem busca realmente ao Senhor derrama os dois tipos: uma é a lágrima de tristeza por causa do pecado, a outra é a lágrima de alegria por causa do perdão. Gostaria de ter meus olhos cheios de ambas; que, com minha alegria pelo pecado perdoado, eu chore por ter transpassado o Senhor, lamente por ter transgredido a lei de Deus, e ainda assim me regozije por ter sido perdoado! Que vocês também, caros amigos, tenham essas lágrimas em seus olhos! Elas não cegam, pois são como uma lupa reluzente por meio da qual podemos enxergar com mais clareza a misericórdia de Deus.
Alguém aqui já começou a se voltar para o Senhor e sentiu-se mais triste do que nunca? Bem, se isso aconteceu, não fico triste por você, pois é assim que muitas pessoas chegam a Cristo — “andando e chorando”. Os antigos Puritanos costumavam dizer que “o caminho para o céu é uma Cruz de Lágrimas” — com isso eles queriam dizer que o arrependimento é necessário à salvação — e é mesmo! Quem nunca se entristeceu por causa do seu pecado nunca se regozijará no Salvador! E, quanto mais nos alegramos em Cristo, mais tristeza sentimos por causa do pecado. Talvez o derradeiro arrependimento de um homem seja o mais profundo que ele jamais sentiu. Quero dizer, seu ódio pelo pecado será muito maior quando ele estiver às portas do céu do que quando ele viu pela primeira vez o caminho do perdão pelo sacrifício expiatório de Cristo. O arrependimento não é algo manifestado apenas uma vez, cujo efeito é para sempre — arrependimento e fé seguem de mãos dadas durante todo o caminho para o céu! O bom e velho Sir Rowland Hill (professor e reformista britânico, idealizador do selo postal) disse que havia apenas uma coisa sobre o céu que ele lamentava: lá ele não poderia derramar lágrimas de arrependimento, pois Deus enxugará dos olhos toda lágrima. Mas, de qualquer forma, até chegarmos ao céu, que sempre nos arrependamos do pecado, lamentando por sempre cair nele e, ao mesmo tempo, regozijando-nos por sempre sermos perdoados! —
Meus pecados, meus pecados, Salvador!
Quão triste é terem caído sobre Ti,
Vistos por meio da Tua doce paciência
Sinto dez vezes cada um deles.
Sei que todos foram perdoados,
Mas ainda experimento em mim a dor
De toda a angústia e tristeza
Causadas em Ti, meu Senhor.

Bem, com todas estas considerações como preliminar, embora, de fato, façam parte do sermão, chego à porção da Escritura que realmente forma o meu texto — “Perguntarão pelo caminho de Sião, de rostos voltados para lá”. Esta passagem pode ser usada como um teste para quem verdadeiramente busca ao Senhor. Vou apresentar-lhes quatro ou cinco tipos de pessoas que O buscam e algumas que não O buscam de forma alguma.
1. Em primeiro lugar, algumas PESSOAS NÃO PERGUNTAM O CAMINHO DE SIÃO NEM VOLTAM SEUS ROSTOS PARA LÁ.
Talvez haja alguém assim entre aqueles a quem me dirijo agora. Seu relacionamento com Cristo é de total indiferença. Há milhões de pessoas ao nosso redor nessa triste condição. Elas não se opõem abertamente — não pensam o suficiente nas coisas de Cristo para assumir essa posição. Elas se referem às questões eternas como se fossem coisas banais e veem as questões temporais como se fossem muito importantes. Elas chamam a isso de “agarrar a oportunidade” e “buscar o que é mais importante”. No entanto, quanto à sua alma, a Deus, ao céu e à eternidade, elas são totalmente indiferentes.
Vamos pensar, por um minuto ou dois, em relação a que elas são indiferentes. Elas são totalmente indiferentes a Deus. Ele as fez, mas mesmo assim elas acham que não devem nada ao Criador. A cada minuto que vivem, o ar em suas narinas é dom Dele; contudo elas não Lhe dão nenhum retorno — Ele nem sequer está em seus pensamentos. Você sabe que há muitas pessoas vivendo como se Deus não existisse. Isso é terrível, pois Deus irá requerer tudo isso de suas mãos. Tão certo quanto elas vivem, se quebram Suas leis, elas serão punidas. Se negligenciam Sua grande salvação, Ele as castigará. Ele conhece toda a sua indiferença e Se entristece com isso. Ouça, como Ele próprio coloca isso: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o SENHOR é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Isaías 1:2-3). Não é coisa de somenos ser totalmente indiferente a Cristo, Aquele que amou tanto ao mundo que teve de deixar o céu para não deixá-los perecer; e teve de vir à terra para ser um Homem humilhado, sofredor, desprezado e crucificado, a fim de redimir os homens. Contudo, apesar de tudo o que Ele fez, que deve ter surpreendido os anjos do céu e cativado o coração de todos os homens bons da terra, essas pessoas não se importam —
Nada é para ti, que tudo ignoras?
Nada é para ti que Jesus devesse morrer?
Elas também são totalmente indiferentes com relação a si mesmas. Elas esperam ter problemas na vida, mas, quanto àquilo que nos consola quando passamos por provações, elas não querem nem saber. Elas veem muitas pessoas do povo de Deus passarem por sofrimento, privação e tristeza com calma e tranquilidade, e às vezes ficam curiosas para saber qual é o segredo — mas sua curiosidade não é grande o suficiente para tirá-las da sua indiferença. Muita gente nunca entrou num lugar onde Cristo é pregado. Alguns vizinhos sabem, pelo badalar dos sinos, que é domingo, mas isso é tudo o que o domingo significa para eles. Ah, como isso é triste! Deve ser um peso enorme para cada coração sensível que existam multidões que não perguntam o caminho de Sião, nem se voltam para ele. Como é triste tanta gente ser tão indiferente à sua própria condição eterna! Elas sabem que um dia irão morrer — é raro encontrar alguém que não saiba — e alguns acreditam que, ao morrer, haverá outro estado e um julgamento final e terão de prestar contas diante do tribunal de Deus. No entanto, ainda assim continuam no seu dia a dia “como gado mudo conduzido”. Como o boi vai para o matadouro e como o cordeiro vai para o mercado, do mesmo modo tais pessoas descem à sepultura sem ansiedade e sem pensar.
Infelizmente elas não pensam no despertamento que é tão certo quanto a própria morte, na ressurreição que é um fato indubitável e na temível manifestação diante do trono de Deus, onde os olhos de fogo lerão seus corações e a língua de trovão proclamará suas obras registradas no memorial de Deus. Ah, não, elas não se importam com tudo isso; para elas, tudo é insignificante! E como há gente assim. Tenham compaixão delas, caros amigos, e orem por elas — e façam tudo o que for possível, pois “tais fostes alguns de vós”. Ontem, conversei com uma porção de trabalhadores que, segundo creio, tinham realmente colocado sua fé em Cristo, e fiquei encantado pela forma como foram levados ao Salvador por seus colegas. No entanto, alguns deles, os quais contavam com pelo menos quarenta anos de idade, me disseram não ter orado ou elevado o pensamento a Deus até que o tivesse Se encontrado com eles. E Aquele que pode Se encontrar com alguns, pode Se encontrar com outros também; por isso, sejam as nossas orações para que Ele faça assim para o louvor da glória da Sua graça!
Muitas vezes, quando alguém é indiferente às coisas divinas, é porque em vão imagina ser sábio. Não acho que você e eu devamos nos meter em tudo. Existem coisas que podemos muito bem deixar de lado, mas não em relação a Deus e a eternidade! Posso ser indiferente a Deus, mas Ele não é indiferente a mim. Posso esquecê-lO, mas Ele nunca Se esquece do que eu faço, penso e digo. Tão certo quanto vivo, terei de me apresentar diante do Seu tribunal de justiça. Posso desdenhar de Cristo, mas terei de vê-lO assentado no Seu grande trono branco. E se não O tiver como meu Salvador, então, terei de aparecer diante Dele como meu Juiz — de modo que a minha indiferença seja vã!
Outro pensamento que deveria ocorrer às pessoas é que essa indiferença é uma grande tolice. Quando alguém é indiferente à sua própria felicidade, é realmente um tolo! Se uma pessoa está doente e há um medicamento que pode curá-la, mas ela não liga para isso, ficaríamos muito preocupados e lhe diríamos que ela é muito imprudente. Se uma pessoa extremamente pobre pudesse ficar rica, mas não desse importância a isso, pensaríamos que ela é louca. Ora, não há alegria como a alegria da salvação em Cristo. Não há felicidade debaixo do céu como a felicidade do homem que se coloca nas mãos de Cristo e descansa nEle! Contudo, essas pessoas não se importam com isso. Pobres almas, elas não conhecem o valor de Cristo. Bem disse o poeta —
Se todas as nações conhecessem o Seu valor,
Com certeza o mundo todo O amaria.
E, se conhecessem o prazer da religião, também gostariam de desfrutá-lo. Dizem que somos um povo pobre, melancólico, deprimido. Não acho que pareçamos assim! Parecemos? De qualquer forma, não nos sentimos assim —
Os homens da graça encontraram
Glória mesmo aqui embaixo.
Nossa religião é vibrante, nossa fé é alegre e nos ajuda a superar as tribulações de cada momento. Ah, que essas pessoas não sejam indiferentes a isso, mas comecem a perguntar o caminho de Sião com os rostos voltados para lá!
2. Agora, em segundo lugar, há um grupo de pessoas que PERGUNTA O CAMINHO DE SIÃO COM OS ROSTOS VOLTADOS PARA O OUTRO LADO.
De vez em quando, encontramos algumas pessoas — algumas aqui mesmo — com o rosto voltado para o outro lado, para longe de Deus, mas elas vêm e gostam de ouvir sobre o evangelho. Não consigo compreendê-las — elas se dão ao trabalho de sair no domingo para ouvir o caminho para o céu, contudo andam deliberadamente na direção oposta! Não vou dizer novamente o que disse uma vez, que quase desejava que quem ouve o evangelho durante anos e nunca o aceita deveria ficar longe daqui se não fosse para recebê-lo — a fim de dar lugar a quem quisesse. Sempre lamento ter dito isso, pois, desde então, existe alguém que se afastou — e por cuja conversão sempre oro — o qual me disse haver bom senso em minha observação e, como ele não pretendia receber a salvação, não viria mais ouvir sobre ela. E, até onde sei, ele não veio mesmo. Às vezes tenho a esperança de que sua própria franqueza o ajude a pensar — pois, embora não venha mais, ele ama este lugar e a mim — e peço a Deus que, mesmo o que pareceu uma consequência tão triste do que eu disse, no final das contas, possa resultar em uma coisa boa. Mas não direi aquilo outra vez.
Ainda assim, é muito estranho alguém dizer “fale-me sobre o caminho para o céu”, e quando lhe falamos, a pessoa começa a andar para o outro lado. “Vá para leste”, você diz. Mas ela vai direto para oeste. Qual será a razão disso? Algumas pessoas têm o vício secreto da bebida, ou são lascivas, ou têm vida dupla, mas sempre são vistas ouvindo o evangelho. Por quê? Será que desejam aumentar sua própria condenação? Será que pretendem deliberadamente que o evangelho, o qual não permitirá ser para eles aroma de vida, seja cheiro de morte? Será que realmente preferem isso? Não posso acreditar!
Espero que vocês não venham aqui para ouvir coisas para dar início a uma discussão e criticar o que ouviram. Não se pergunta o caminho de Sião para reclamar dele, ou para encontrar defeitos na resposta de quem tenta responder a pergunta — longe de vocês tal coisa! No entanto, existem alguns que, sem dúvida, são culpados desse pecado. Bem, deixe-me lhes dizer uma coisa: mesmo se vierem para ouvir o sermão e zombar dele, venham e ouçam! Lembro-me de alguém que, posteriormente, tornou-se um cristão muito conhecido, mas quando foi ouvir George Whitefield pela primeira vez foi por ser um grande imitador. Essa pessoa queria ouvir Whitefield para depois imitá-lo num clube que chamavam de “Clube do Fogo do Inferno”. “E agora, companheiros”, disse ele, “vou lhes apresentar um sermão que ouvi ontem de George Whitefield”. E o homem começou a repetir o sermão; no entanto, ele mesmo foi convertido enquanto pregava — e o mesmo aconteceu com vários de seus colegas, os quais tinham se reunido por blasfêmia! Portanto, venha, mesmo que seja por um objetivo tão vil quanto esse! Ainda assim, é muito triste que as pessoas perguntem o caminho de Sião e voltem seus rostos para a direção oposta. Muda-os, ó Deus, e eles serão mudados!
3. Há ainda uma terceira classe de pessoas que PERGUNTA O CAMINHO DE SIÃO, MAS NÃO VOLTA O ROSTO PARA LÁ.
Tais pessoas não são contra a religião, mas seus rostos não estão voltados para ela. Eu não as entendo — estão sempre querendo saber como podem ser salvas e outras coisas relativas à salvação, mas não parecem querer recebê-la — seus rostos não estão nessa direção.
Qual é o significado da sua conduta? Apenas curiosidade? Será que elas querem entender teologia como outras pessoas desejam entender astronomia ou botânica? Isso é quase como tomar um gole de vinho dos cálices sagrados, como fez Belsazar — e todos sabem como naquela mesma noite ele foi morto. Quando alguém, que não tem parte nem interesse neste ministério, discute doutrina e coisas assim, é como se estivesse brincando com o pão dos filhos de Deus, ou deixando-o em migalhas.
Qual é a razão dessas pessoas perguntarem sobre salvação? Será por pensarem que um simples conhecimento do assunto as salvará? Há alguém aqui pensando que um credo ortodoxo pode salvá-lo? Sinto muito, mas creio não haver ninguém mais ortodoxo que o diabo; contudo, com certeza, ninguém está mais perdido do que ele! Você pode ter uma mente brilhante, mas se não tiver um coração puro, ela lhe será de nenhuma valia no final. Você pode conhecer os Catecismos de Westminster de cor e salteado e, com todo entusiasmo, confrontar quem se desvia da sã doutrina; no entanto, se não nascer de novo, isso de nada lhe adiantará. Você diz crer nos 39 artigos da Religião (da Igreja Anglicana)? Um deles é indispensável — “é preciso nascer de novo” — e ai do homem que não passou por essa mudança importantíssima!
Pode ser, no entanto, que alguns que perguntam o caminho de Sião, mas não voltam seus rostos para lá, estejam perguntando apenas para aquietar sua consciência. Isso os faz se sentir melhor ao ouvir um sermão. Mas que gente estranha! Eis um homem faminto — será que seu apetite é saciado quando ele sente o cheiro da comida, quando vê os pratos serem colocados na mesa e quando ouve o tinir dos talheres? Será que se alguém for extremamente pobre, ficará rico só de andar pelos corredores do Banco da Inglaterra e saber que há ali grande quantidade de dinheiro? É muito estranho pensar desse modo, pois isso pode aumentar, não diminuir, a sensação de pobreza — saber que há tanta riqueza e não ter parte nela.
Será que você está tentando acumular um pouco de conhecimento para ir usando aos poucos? Você está perguntando pelo caminho de Sião para andar por ele quando lhe for conveniente? Ah, meu caro, está tentando se aproveitar de Deus? Está pretendendo deixá-lO em stand-by enquanto você cuida de coisas mais importantes? O que por vir antes de Deus? Conheci um homem que, em diversos aspectos, era muito religioso; no entanto, havia uma meretriz entre ele e Deus. Conheci outro que pensava muito em Deus, mas, no seu caso, era um copo de vinho e a companhia de certos amigos que se interpunham entre ele e Deus. Ah, tantas coisas são terrenas, sensuais e malignas — mas, ainda assim, as pessoas dizem que Deus precisa esperar até que tenham aproveitado todas elas! Cavalheiro, Deus não lhe servirá de lacaio! E pode até acontecer o que aconteceu com Félix (Atos 24) — você nunca terá uma hora conveniente para Deus — e Deus nunca terá uma hora conveniente para você! Oh! Não deixe ser assim! Se perguntar o caminho de Sião, volte seu rosto para lá.
4. Há também um quarto grupo de pessoas que VOLTAM SEUS ROSTOS PARA SIÃO, MAS NÃO PERGUNTAM O CAMINHO.
Talvez nesta categoria não haja tantas pessoas quanto nas anteriores, mas há algumas. Elas estão decididas a ser salvas. Estão ansiosas para ter um encontro com Cristo. Querem se unir à igreja. Desejam, acima de tudo, alcançar o céu… mas não perguntam o caminho para lá. Será que imaginam haver tantos assim? Quantos caminhos levam ao céu? Este Livro declara que há um só! Ele diz: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co. 3:11). E o próprio Cristo afirma: “Eu sou o caminho”. Ele não diz “Eu sou um dos caminhos”, mas “Eu sou O caminho”. Acabei de citar uma das últimas declarações de Cristo: “quem crer e for batizado será salvo” (Mc. 16:16). Bem, suponha que a pessoa não creia, o que vem então? “Quem, porém, não crer será condenado”. Veja, portanto, que o ensino de Jesus não tolera qualquer tipo de concessão! Ele não admite haver outros caminhos para o céu e outros meios de salvação. “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (Atos 16:31). “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (João 3:18). Muitas pessoas, se forem filhos de pais crentes, seguirão o pai e a mãe no bom caminho. Mas, se forem filhos de pais ímpios, elas os imitam. Se meu pai fosse cego, não vejo razão pela qual deveria arrancar meus olhos. E, se alguém tem pais extremamente pobres, será que diria: “Bem, nem vou tentar melhorar minha condição. Vou ser tão pobre quanto eles e ser feliz desse jeito”? É óbvio que não! Então, por que você deveria seguir seus pais em pecar contra Deus? Se o pai está errado, quanto maior razão para o filho ser determinado a fazer o que é certo! Já existe muita gente perdida na sua família — por que não ser o primeiro a ser salvo, se não houver outros? Pense nisto, é importante. Pergunte o caminho de Sião.
Então, você diz: “Onde devo perguntar”? Bem, em primeiro lugar, pergunte ao Livro —
Eis o árbitro que põe fim à discussão,
Onde faltam a lógica e a razão,
Nosso guia para a eterna vida
Pelo vale escuro desta lida.
Após consultar o Livro, ajoelhe-se e consulte o Espírito bendito que inspirou o Livro! Se você não consegue entender a Bíblia, peça ao Seu Autor para explicá-la a você. Ele dá sabedoria, por isso, peça orientação ao Espírito Santo. Peça ao Senhor Jesus Cristo para Se manifestar a você como Ele não Se manifesta ao mundo, e para guiá-lo em Seu caminho. Também posso lhe dizer, mas isso é totalmente secundário, consulte os Seus servos. Vá e ouça o evangelho! Não vá aonde a pregação é legal e inteligente — a menos que o verdadeiro evangelho esteja sendo pregado lá. O povo da Inglaterra conseguiu junto ao Parlamento a aprovação de leis contra a venda de produtos adulterados — e, em Londres, as pessoas tentam comprar leite que contenha pelo menos um pouco de leite — mas, mesmo assim, elas vão ao culto e dizem: “Esse pregador é inteligente”. Sim, ele é, mas e o evangelho pregado por ele? “O órgão daqui é muito bom!” E o evangelho, é proclamado na íntegra? “Podemos ver as cores do arco-íris nas costas dos irmãos que ministram no altar”. Sim, mas o evangelho é pregado nesse altar? Tudo depende disso — o resto pouco importa. Eles podem tentar nos vender o que quiserem, mas se não for um artigo genuíno, nós não compraremos — se não for o evangelho, o que podemos querer com ele? Queremos aquilo que realmente irá nos salvar, agora e por toda a eternidade; é isso que pedimos a quem prega o evangelho, que pregue nada além do evangelho.
Também posso acrescentar que você fará muito bem em perguntar sobre o caminho para pessoas que fazem parte do povo de Deus. Embora não sejam pregadoras, de bom grado poderão lhe dizer o que sabem e, muitos homens e mulheres piedosas podem lhe explicar justamente o que você precisa saber. Gosto de ver as pessoas quando elas, sinceramente, procuram algum amigo cristão e dizem: “Você pode me dizer como posso ter um encontro com Cristo”? É muito bom ouvir uma jovem perguntar à professora da sua classe ou a alguma crente mais madura: “Irmã, você pode tirar minhas dúvidas? A senhora tem uma boa carreira a caminho do céu — pode me dizer o que tenho de fazer”? É uma coisa boa, portanto, fazer perguntas àqueles que já estão na estrada. Muitas vezes, desta forma, você pode ter suas concepções erradas corrigidas, e antes de se desviar muito, pode ser dirigido para o caminho certo.
5. Agora, para encerrar, os melhores indagadores são aqueles que VOLTAM SEUS ROSTOS PARA SIÃO E TAMBÉM ESTÃO DISPOSTOS A PERGUNTAR O CAMINHO.
É esta a sua condição, caro amigo? Já voltou seu rosto para Cristo, para a uma vida de santidade e para o céu, e está perguntando o caminho para lá? Bem, então, deixe-me lhe dizer duas ou três coisas para encorajá-lo. A primeira é: agradeça a Deus por seu rosto estar voltado para lá e por você estar perguntando o caminho
Minha busca pela Sua face
É somente pela Sua graça,
disse alguém. E é exatamente isso. Agradeça a Deus pela graça que o faz sentir-se inquieto ao pecar, pela graça que o faz desejar mais graça, pela graça que o faz almejar ser cristão! Dê muito valor a essa pequena graça, pois, de forma alguma, ela é pequena; e, quando pensar nela, bendiga a Deus por ela!
Lembre-se, em seguida, de que você deve agir como sabe que deve agir. Se o Senhor lhe mostrou o caminho certo, siga por ele. Talvez você diga: “Mas é muito difícil”. As dificuldades não importam — cruze cada ponte quando chegar nela. “Mas há muitas coisas que não entendo”! Sem dúvida que há! E há muitas coisas que eu também não entendo. E algumas delas, em particular, nem quero entender! Se eu compreender aquilo que diz respeito ao meu bem-estar eterno, ao bem dos meus amigos e à glória Deus, para mim isso é suficiente. Até aqui, posso dizer, com Jack, o vendedor ambulante[1]
Sou um pobre pecador, nada mais,
Cristo, porém, é meu Tudo em Tudo.
O mapa da estrada me trouxe até aqui e eu gostaria de lhe dizer para segui-lo, pelo menos por enquanto. “Mas eu quero conhecer tudo sobre a doutrina da eleição e outras coisas mais”. Quer mesmo? Bem, um dia você conhecerá, mas, neste momento, não é preciso pensar tanto nessa gloriosa verdade de Deus quanto no fato de que Deus enviou Seu Filho ao mundo para que os homens pudessem viver por meio Dele! Siga essa linha da Verdade por enquanto. Você tem o rosto voltado para Sião, portanto, siga em frente! Você me perguntou o caminho e eu lhe ensinei o suficiente para saber que Cristo é o caminho — então, deixe-O ser o seu caminho. E, se houver algo mais a aprender — e há — Deus há de lhe mostrar.
De algumas das grandes doutrinas do evangelho, nosso Senhor poderia lhe falar como falou a Seus discípulos: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12). Você irá suportá-las, mas aos poucos. Quando seu filho ganha sua primeira cartilha, ele começa a choramingar e dizer: “Não quero aprender o alfabeto, mamãe; meu irmão já está aprendendo outra língua, por que eu também não posso?” E aí, você diz: “Querido, aprenda o alfabeto agora e, com o tempo, se for necessário, aprenderá outra língua”. Por isso, caro amigo, guarde apenas textos como estes: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Tm. 1:15); “quem crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36). Se você está perguntando o caminho de Sião com o rosto voltado para lá, lembre-se de que o Senhor já preparou o caminho. Ele sabia que pés trôpegos passariam por ele, por isso, removeu todas as pedras. Ele sabia que haveria alguns viajantes de olhos embotados, por isso Ele pôs no alto um lampião reluzente e Ele, Ele mesmo, é a sua Lâmpada! Ele sabia que você teria de suportar um fardo pesado até começar a trilhar o caminho estreito, por isso, Ele tinha um sepulcro aberto perto da cruz, para que quem quer que olhasse para Ele lá no Calvário pudesse sentir o fardo sendo tirado das suas costas e enterrado naquele sepulcro, para nunca mais ser encontrado! Ah, caro amigo, corra pelo caminho que Jesus preparou! Creia, creia, CREIA, CREIA! Este é o caminho — CREIA! Creia em Deus como seu Pai! Creia em Cristo como seu Redentor! Creia no Espírito Santo como seu Renovador! Isso tem a ver com você! Isso tem a ver com seu Deus, seu Salvador, seu Consolador! Creia em Jesus Cristo e você encontrou o caminho! Você está salvo, seus pecados estão perdoados, você é “aceito no Amado”. Você ainda não foi para o céu, mas irá, no tempo de Deus. Você ainda não se uniu à igreja visível de Cristo, mas será bem-vindo nela — não deixe para depois. Você ainda não se uniu à igreja triunfante, mas um dia se unirá. Portanto, tenha bom ânimo, e que o Senhor o abençoe! Amém e amém.
Tradução e Revisão: Mariza Regina de Souza


[1] Famoso bêbado blasfemo que vendia quinquilharias de porta-em-porta, o qual ouviu uma mulher cantando esse refrão e, quando chegou em casa, começou a repeti-lo, sendo convertido a Cristo. Essa história era sempre repetida por Spurgeon em seus sermões (fonte: http://www.sermonaudio.com/new_details3.asp?ID=25463)